Da Civilização à Mundialização

Autor: 

 

Tradução: Fernanda Otoni de Barros-Brisset

 

Depois do final da segunda guerra mundial, o mundo mudou. E essa mudança pode ser ordenada a partir do conceito de discurso formalizado por Lacan. Os avanços dos discursos do capitalismo e da ciência permitem compreender seu alcance.

O discurso capitalista e seu sujeito

Como cada discurso, o do capitalismo, reflete uma perda de gozo impossível de ser recuperada.  Essa perda de gozo é sempre percebida como roubo, e seu retorno, sempre localizado do lado do Outro, o Mestre. Freud descreve os mesmos deslocamentos da libido no circuito da pulsão. Porém, fora Marx o primeiro a amarrar os dois deslocamentos desconhecidos da  libido, o que levou Lacan a dizer que ele, Marx, foi o inventor do sintoma. Esse sintoma descoberto pela  psicanálise, no momento de sua emergência, vale ainda hoje.

O obscurantismo cientificista  do  Séc. XXI  pode decidir por o ignorar, mas isso não o impede de existir.  Esse discurso capitalista  rejeita a perda primeira de gozo e prorroga a recuperação de  gozo. O sintoma reitera sem cessar o duplo movimento de recusa da perda de gozo e de sua recuperação, a fim de o totalizar, de que ele não falte. É o estereótipo fundamental do sintoma. Esse discurso executa, então, uma foraclusão da castração. À época de Freud, o  mal estar na civilização se centrava essencialmente na perda, de modo que, hoje, a  “mundialização” se centra sobretudo no segundo tempo da recuperação de gozo sem limites.  Para Lacan, o discurso do inconsciente deve ser esclarecido com esse discurso capitalista. O capitalismo fez emergir um novo sujeito. Ele é efeito da linguagem, mas não é mais assujeitado ao significante mestre, que é recalcado. É dizer que os significantes do Outro social não o identificam mais. Constatamos isso, em particular, com o homossexualismo e o autismo, questões sintomáticas do DSM hoje. Esses sujeitos recusam a segregação  induzida pelo discurso dominante que os encaixa respectivamente na classe da perversão  ou das psicoses. Essas palavras mestres, usadas demais, não indexam mais o real em jogo e são rejeitadas.

Porém, geralmente, o sujeito capitalista recusa a autoridade do mestre. E «a crise de autoridade» nomeia esse fenômeno do declínio do Mestre em todos os níveis de nossas sociedades democráticas. Ou, a função das palavras mestres, é também a de mortificar o gozo. Quando a palavra mestre é recalcada, a mortificação de gozo – castração – não opera  mais. A consequência no nível do corpo é decisiva. Não há mais nenhum limite à produção de objeto «a» mais-de-gozar. É a exploração à morte. Não é mais somente o ter que é concernido, mas também o ser. O sujeito está mais entregue à palmatória do mestre absoluto quando ele não está identificado a um mestre em particular. A morte é o único principio de limitação do gozo quando a castração não opera mais.

O capitalismo tem conhecido duas grandes modificações nesses últimos trinta anos.  Primeiro, ele se mundializou. Seguramente, depois da queda do muro de Berlim, as nações  comunistas reuniram-se à economia de mercado. É então legitimo dizer que não há mais  civilização mas uma “mundialização” na qual os sujeitos padecem sobretudo das adições sem  limites fundadas sobre a recuperação ilimitada do mais de gozar. Em seguida, o  capitalismo se «cientificizou» -o capitalismo financeiro deveria ser chamado de  capitalismo cientifico. Seu sujeito é o proletário generalizado, pois não tem nada que lhe permite fazer discurso, como o mostra o fenômeno dos Indignados. Não é mais necessário localizar o proprietário na usina para extrair um mais de gozar. A crise financeira de 2008 o mostrou, basta o fazer brilhar nas aplicações com aparência de ganhos de cassino, e reduzidos à algumas equações matemáticas opacas (titrisação) para o transformar em SDF  (morador de rua) na oportunidade da primeira crise de confiança. O fenômeno de solidão e  sua satisfação autista dá uma ideia da expansão do fenômeno no mundo.

O discurso da ciência e seu sujeito

Com a ciência, o significante mestre também não funciona mais. A mais, a ciência diminui o efeito de uma série das funções do discurso : o significante é reduzido a seu efeito de letra – as matemáticas só utilizam as letras – e o objeto (a) mais de gozar é rejeitado; lá, o trabalho dialético da verdade não é mais possível porque a divisão do sujeito é neutralizada. A castração não opera mais. A verdade e o real singular da libido estão disjuntos. O único real em jogo neste discurso obedece as leis universais e não à uma causa singular: é o real do organismo a distinguir-se daquele do corpo. O discurso analítico mostrou seguramente, desde sua emergência no século XX, que o corpo é sempre um corpo falante, o que não é evidentemente o caso do organismo que é do domínio da ciência. O sujeito da ciência data do cogito e não é outro coisa que um vazio. É um sujeito puro. É decisivo o perceber, pois a ciência não precisa mais recorrer à intuição corporal. Ela dispensa o corpo. Ela opera somente sobre o organismo e seu real. Este sujeito puro da ciência não existe em lugar nenhum, mas ele faz apreender que a ciência vela a parte do sujeito que se expressa na fantasia e que é correlata ao objeto a. O sujeito assim neutralizado na sua divisão passa a ser universalizante. Se presta sempre mais à lógica das classes. A liberação do corpo provoca uma disjunção entre o corpo e o objeto a, entre o universal do corpo e o particular do objeto a. O objeto a é um conjunto vazio; é, então, incorporal. Quando é rejeitado, ele se coloca a correr sozinho, separado dos corpos. Masestá também pronto a retomar os corpos na primeira curva. É o caso de cada objeto a natural ou industrial. Este objeto a não é inerte. É um pouco como um buraco negro; é um objeto «que quer». Peguemos o exemplo do objeto a olhar e sua relação ao corpo. O olhar capta sempre mais os corpos nas nossas sociedades de vigilância, do lado de fora, nas ruas com as câmeras sempre mais numerosas, mas também em casa com as telas de televisão ou de computador sem contar o dos telefones celulares e outros tabletes portáveis em todos os lugares, e o tempo todo. Dito de outra forma, este objeto a tem um efeito de empuxo-ao-gozo sobre o corpo, do qual ele não pode ficar separado muito tempo. Quando ele faz o retorno sobre o organismo, ele se manifesta, então, em todos tipos de adições que fazem os sintomascontemporâneos. É o mesmo objeto olhar insaciável que perscruta a vida privada do Seu Zé e Dona Maria, nos jogos televisionados chamados de "bigbrothers/reality show"; é também este objeto que se satisfaz das vicissitudes da vida privada de nossos mestres modernos cuja midiatização é exigida sem prazo. Mas quando o espelho midiático não consegue mais o tamponar, o ideal esperado não aparece, a decepção é aí assegurada. O ideal do homem normal está sem dúvida no ar da época. Mas, esta ficção que reúne contém, também nela mesma, a semente da dispersão ulterior. Apagado por um tempo somente, ele não cessa de reaparecer e de se manifestar, em particular, como a pequena diferença na qual cada um se apega como à seu bem o mais precioso. Acrescentamos que o sujeito da ciência, libertado do corpo, é também um sujeito sem vergonha. Seguindo o mesmo princípio, a emancipação do objeto oral provoca epidemias mundiais de obesidade ou de anorexia, desde a mais tenra idade.

A ciência e o capitalismo estão unidos para o melhor e para o pior. Eles engendraram os maiores progressos da humanidade. Mas, as profundas modificações que eles impõem aos discursos geram também novas formas de mal estar. A avaliação veio reforçar este mal estar mundializado. O mal estar contemporâneo não conhece mais as fronteiras tradicionais e é por isso que é justificado de falar hoje de “mundialização” e não mais de civilização.

 

 


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