Re: O Brasilianas.org especial sobre Consciência Negra

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jc.pompeu

refletindo sobre a consciência negra pela micropolítica, pela história da mentalidade da vida cotidiana prosaica e das vidas passadas... no período da escravidão no Brasil, nos deparamos com situações legais, sociais, familiares ou parentais sui generis:

"Analfabeto por vontade expressa da sociedade dominante, o escravo brasileiro é, para nós, testemunha silenciosa de seu tempo. São, de fato, raras as oportunidades que lhe permitem expressar-se por si próprio: quando escravo, ele fala pela rebelião, pela fuga, pelo suicídio, e até mesmo pelo crime, falas que são gestos de protesto violentos, mas gestos corajosos, gestos de homens indomáveis e desesperados. Quando libertável ou liberto, o ex-escravo fala através daqueles documentos que lhe restituíram a liberdade, e que, tirando-o do anonimato, deram-lhe um rosto e existência própria. Todavia, parece que a maioria dos 3 milhões e 500 mil escravos trazidos para o Brasil não foi nem rebelde, nem fugitiva, nem suicida, nem criminosa, e morreu escrava sem nunca ter se libertado das "malhas do poder" escravista.

[...]

Mas varias dessas crianças têm irmãos e/ou irmãs mais claros ou mais escuros do que eles. Há mesmo casos em que uma parte dos irmãos é livre, a outra escrava, situação que ilustra bem a seguinte história:

Em 1872 falecera, em Salvador, Diogo Correia da Rocha, de seu estado viúvo, sem filhos, originário de Pernambuco, e, segundo tudo indica, pequeno feirante na praça de Salvador. Ao falecer, Diogo deixou quatro escravos e a seguinte situação: uma moça africana nagô chamada Joaquina, já liberta, mãe de Inês, mulatinha que Diogo reconhece como sua filha legítima e universal herdeira. Contudo, por parte de mãe, Inês tem três outros meio-irmãos que são escravos de seu pai. No seu testamento, Diogo dá liberdade gratuita à meia-irmã, a crioula Leopoldina, mas obriga os dois outros meio-irmãos de sua filha, os crioulos Felis e Cosme, ambos oficiais de pedreiro, a trabalharem para a irmã Inês, dando-lhes 320 réis por dia até que esta complete seus quinze anos, após o que os dois crioulos ficam livres. Quanto ao quarto escravo, o crioulo Benedito, oficial de calafete, este poderá ficar livre se no prazo de dois anos pagar à herdeira Inês a quantia de 400$000 réis. Infelizmente, o documento não dá nem a idade de Inês, nem a de sua mãe, nem as de seus meio-irmãos, mas nos põe perante uma situação extremamente pungente, na qual as obrigações decorrentes da situação escravista sobrepõem-se e dominam as que naturalmente brotariam do bojo das solidariedades familiares. Não tentemos, porém, nem sequer imaginar o que essa situação podia representar na mente daqueles cuja matriz biológica era comum, mas que se achavam do lado de cá, ou do lado de lá, da divisão livre/escravo. Desta maneira, a criança escrava não somente convivia com irmãos de cores diferentes, como também convivia com irmãos de status diferentes, que, legalmente, podiam tornar-se seus senhores. 

Eis aqui, talvez, um elemento que nos permite entender melhor porque tanto a mulher escrava africana, como a escrava crioula mostram-se pouco apressadas de prodigar filhos a esse tipo de sociedade. Com efeito, a maioria das mães escravas tem durante toda sua vida fecunda, no máximo de um a dois filhos, sendo raras as mães que possuem mais de cinco ou seis filhos.

Crianças com mães, crianças sem mães, crianças crioulas, pardinhas, cabras ou mulatinhas, todas essas crianças que nascem ou chegam com essa idade em Salvador são socializadas, não através da família, como nós a entendemos - família que frequentemente inexiste, mesmo quando é monoparental - mas através do contato que para elas estabelecem os que cuidam de sua integração na comunidade escrava e na de seu senhor."

História da Criança no Brasil (org. Mary del Priore): O Filho da Escrava, Kátia de Queirós Mattoso




 

 


 

"Ganhe as profundezas, a ironia não desce até lá" Rilke. "A ironia é o pudor da humanidade" Renard. "A ironia é a mais alta forma de sinceridade" Vila-Matas.