Estudantes universitários na década de 1950

Por Anarquista Lúcida

Comentário ao post "A importância da decoreba no processo de aprendizagem"

Ivan, te devo uma! Infelizmento o texto do próprio Feynman nao está mais disponível, o link de dentro do do tópico do Nassif nao abre. Mas nesse tópico já há algumas coisas importantes, vou pôr aqui: 

Conteúdo do post: "As críticas de Feynman aos universitários dos anos 50", por Paulo Eduardo Neves

No início da década de 50, o físico Richard Feynman passou duas temporadas lecionando no Brasil. O sujeito ainda não tinha ganho seu prêmio Nobel, mas já havia ajudado a construir a bomba atômica. Ele se apaixonou pelo Brasil, tocou frigideira em escola de samba, mas seu relato da Academia brasileira é uma deprê só:

http://www.uel.br/cce/fisica/pet/Ensino%2520de%2520F%25EDsica%2520no%2520Brasil%2520segundo%2520Richard%2520Feynman.pdf

Até acho que melhorou, mas não acho que tenha mudado muito. Já vi situações parecidas como a da delegação de alunos que foi reclamar do curso muito difícil.

Veja só um trecho: Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tenteidemonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente nãoaprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobrerealmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendoque eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver osproblemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do níveldeles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o queacontecia: eles não conseguiam fazer!Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudanteexplicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vaificar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentandoaprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocamos outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se umestudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros. Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa aoutra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a "educação", que é inútil, definitivamente inútil!

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21 comentários
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Antonio C.

Bem, não se trata de aula, mas assisti a palestras com homenagens a professores da "área de humanas" e ficava observando, em momentos, mais a assistência que os palestrantes. A atitude respeitosa da assistência era confundida com, justamente, a "atitude inteligente" que o post expõe. Incrível mesmo era as torcidas de bocas de membros da assistência, segurando o riso, para perguntas que nem eram pouco pertinentes, mas diretas demais, inclusive algumas que não se dobravam à "personalidade" do palestrante como princípio de verdade de qualquer declaração que viesse de sua respeitável boca. Era mais um sintoma, dado que precisavam substituir o titubear e a dúvida pela "personalidade"; e esse tipo de renúncia pessoal pode, inclusive, ser premiada com bolsa de pesquisa. Mesmo não sendo geral, não é uma "coisa linda"?

Antes de o Safatle ser considerado a voz da crítica dentro de nosso mundo unidimensional, sofreu uma polêmica no Departamento de Filosofia da USP ainda no concurso de admissão. Mas a sua competência calou os detratores. Só isso dá uma boa pesquisa...

 
 
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Anarquista Lúcida

Mais um besteirol preconceituoso contra as Humanas, arre! Realmente, Marx, Freud, Chomsky, sao uns idiotas, brilhante é você. Arre! 

 
 
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Antonio C.

Cara "Anarquista", não se trata de uma crítica às Ciências Humanas; isto você atribui a mim, não tenho nada a ver com seus próprios botões. Sua crítica foi tão emocional e difusa que fica complicado lhe dar um esclarecimento, um favor que lhe faço e que, realmente, precisa. Se lesse direitinho o sr. Kropotkin, por exemplo, saberia que este renomado geógrafo estudou o impacto das unidades energéticas e de modo elas proporcionariam a criação de cidades ou mesmo comunidades autossuficientes ou, simplesmente, aumentando a autonomia. Um homem de visão científica com propostas muito claras e definidas, e não aquelas utopias de classe média que tanto desprezo mas fazem moda, cheias de John Lennon e sem Mark Chapman, e seu vegetarianismo como a última ética, ao qual um pretenso anarquismo foi engolido sem perceber. Tem mais. Se lesse um pouquinho além e soubesse da influência do positivismo no anarquismo, talvez até notasse a Escola Livre de Ferrer. Mas não, você joga todo o positivismo no mesmo tacho, como se ele não tivesse sido analisado, criticado e apreciado... pelos seus companheiros de luta. Um comentário sobre o seu "nojo" ao positivismo.

A academia sofre das mesmas vicissitudes de diversas tarefas, como você sabe, dentre elas, a competição por bolsas, patotinhas e companhia limitada. O mercado acadêmico é duro e restrito, nem sempre é mérito e Bourdieu me daria razão. Agora, Freud e Marx tiveram diversas dificuldades em torno de suas pesquisas. A rejeição em torno de suas ideias foi forte - e ainda o é. E por qual motivo? Pois as Universidades não aceitavam o que tinham a dizer.  Outro: Walter Benjamin teve a sua tese rejeitada... aquela sobre o Drama Barroco, você leu? Mas está aí, apropriado pela cultura universitária (ou não). Mas se você perceber bem, falei da minha experiência e se trata de fatos em particular e não fiz uma "teoria", que você deve ter visto em algum lugar que não sei qual é (preconceito é uma representação de uma totalidade com base em particularidade que possuem alguns indivíduos, um erro lógico com consequências comportamentais e de ação). Talvez seja o caso de ver em si mesma. Grande anarquista você é, ao querer, aos xingos risíveis, negar a experiência alheia! Mas não tenho o fetiche (Marx) pelos grandes nomes - eles podem errar, inclusive Marx. Do mesmo modo que os liberais mais radicais (não neoliberais, pra não te confundir) puseram grande fé na ética e ninguém ficaria sem pão. O Locke dá as premissas e o Marx diz: "A conclusão não é essa, vocês não vão entregar a mercadoria".

Sobre o Safatle, bem, ele é formado em Comunicação Social pela ESPM, um escândalo para alguns na época, dúvidas sobre a sua competência...! Eu esqueci de citar o quanto, além disso, a professora Olgária Matos ficou melindrada por receber críticas ao seu Arcano Outro. São fatos. Quer negá-los? OK, talvez isso salve a representação que faz das Ciências Humanas - como diria um anarquista norte-americano, como se o espírito de Marx e Darwin devesse tudo às academias! - apesar de, reitero, tratarem-se de casos particulares e não de teoria.

Não espero que respeite os meus pontos de vista e as minhas ideias, e nem preciso disso. E também não sou genial, nem mesmo por ironia. Mas me parecem existir outros camínhos para colocar o seu inconformismo, você escolheu um deles.

Porém, não sou apologeta das Ciências Humanas como o único bastião da crítica; o problema é até mal formulado - afinal, mudança precisa de propostas, propostas devem ser plausíveis e demonstrar que são dignas; um autêntico cientista ou técnico com visão totalizante poderia formular (Huxley - pois é... - e Kropotkin também me dariam razão), sem cair em uma ditadura ou tecnocracia. Já dei minha opinião sobre isso neste blog e não vou repetir. Mas algo é certo... Quero distância das utopias de classe média, sem gente de verdade, sem rancor de classe, sem dor e sem fome, mundo feliz, todos os dentes na boca e parelhos, podendo optar entre a camiseta do Che ou do MST (vietcong não tinha tempo e nem dinheiro para pensar em coisas como essas), pois tem tudo AGORA. E aproveite para ler Frantz Fanon.

 
 
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Carlos Eduardo de Souza

E outra coisa que tem me ajudado bastante é que além da explicação do professor eu tento entender o raciocinio que o cara que formulou alguma teoria teve para chegar aquela conclusão do fenomeno ou da formula.

 
 
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Carlos Eduardo de Souza

Bom eu no começo do curso sentia vergonha de fazer perguntas ou fazer pequenas observaçoes pois alguns professores acabam tratando o aluno mal , quando tenho duvidas eu vou tentando fazer o exercicio e quando travo eu vou até a mesa do professor e tiro as duvidas.

 
 
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Anarquista Lúcida

Fazer perguntas, Carlos, é DIREITO dos alunos. O professor pode até dizer "Nao, esse assunto agora atrapalharia a exposiçao; veremos isso depois", ou "Nao posso voltar a isso, ou nao tenho como dar a matéria desse semestre; procure em tal lugar (livro, site, etc)". Mas algum encaminhamento ele deve te oferecer. Ir até a mesa dele é mais cômodo para você, mas na verdade sua pergunta poderia ser útil para seus colegas tb. 

 
 
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Gunter Zibell - SP

AnaLú, será que não tem diferença entre exatas e humanas?

Eu fiz duas faculdades de humanas, durante os anos 1980, e achei muito bom. Não acontecia nada disso que Feynman relatou nos anos 1950 nem que Paulo Neves diz ser o caso atual.

Os alunos faziam perguntas e nem os professores nem os demais alunos desencorajavam isso.

Existe decoreba em humanas, claro, mas serve para lembrar os elementos-chave de um assunto, não exime o aluno de desenvolver as questões em provas. E em trabalhos era mal visto se usássemos longas citações para "encher linguiça", tinha que haver pertinência e limites.

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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Anarquista Lúcida

Gunter, você com essa bobagem de 'área de Humanas é melhor", "área de Humanas é pior" NAO! Cada área tem suas particularidades, mas nao nisso, isso depende essencialmente dos professores e dos alunos. Te garanto que há idiotas igualmente distribuídos por todas as áreas. Até em Filosofia... (rs, rs). 

O que talvez aconteça mais em áreas de Exatas é que, como nosso ensino básico é muito ruim, os alunos nao entendam um assunto por problemas muito básicos, e o professor nao pode deixar de dar, digamos, a matéria de Cálculo e voltar a explicar equaçao de segundo grau... Aí rejeita a pergunta, e o aluno se ressente. 

Na verdade devia haver, nas universidades brasileiras, um sistema melhor de apoio acadêmico aos estudantes com dificuldades. Há os monitores, mas sao normalmente alunos pouco mais adiantados que os das turmas que eles ajudam. Nos EUA, pelo menos em algumas universidades, há sistemas de apoio coordenados por professores. 

 
 
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IgorEliezer

"Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas"

Não só os estudantes se sabotam para que ninguém faça perguntas, como também isso é às vezes desencorajado pelos próprios professores.

Quanto ao "estudantes se sabotam": o professor apresenta a aula, explana então ele de vez em quando faz perguntas aos alunos para ver se estão acompanhando ou se são capazes de completar a ideia. Um silêncio. Os alunos ficavam olhando para o professor como se assistissem a uma peça de teatro, frios. Alguns de rabo-de-olho ficavam olhando como se esperar pela reação de outro aluno, no tipo: vou se você for. Isso acontecia várias vezes na aula, era um processo torturante que perdurava às vezes a noite toda. Percebia que em determinadas aulas só eu respondia as perguntas, e não acho que era somenete eu que sabia! Estava na cara que um terço da turma saberia responder; outra, que responder as perguntas era ruim, sei lá, porque "pega mal", ou porque todos já estavam exaustos e queriam que aula acabasse mais o rápido possível.

Quanto ao "isso é desencorajado pelos professores": Certa vez numa aula, justamente nestes dias que ninguém da sala quer interagir, um professor estava dando alguns exemplos da história de algumas civilizações. Questionei duas coisas: se as pirâmides foram construídas por mão-de-obra escrava, e se a democracia grega era tão maravilhosamente democrática. A resposta que tive foi que eu estava "questionando demais" e "Quantas teses e artigos você já escreveu? Quantas publicações você já fez?" --- só faltou o clássico "você sabe com quem você está falando?". Foi como um tapa na cara.

Eu achava que a universidade deveria ser sempre (lógico que deveria ser) um lugar onde ideias, debates e experiências pudessem ser exploradas livremente, já que se estaria num lugar onde se oferece e gera conhecimento. Lugar onde o professor se sentiria honrado ao ser questionado ou até superado. Não um lugar onde se diz "o professor tem poder pra te ferrar; melhor fazer tudo do jeito dele", como ouvi inúmeras vezes. Duvido que estamos formando bons profissionais dessa forma, a não ser gente incapaz de questionar, incapaz de não ter dúvida. Quem não duvida é incapaz de inovar.

(PS: encurtei o texto. Fui direto ao ponto)

 
 
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Anarquista Lúcida

Respondendo novamente, me lembrei de um episódio que ocorreu quando o Fillmore, um grande linguista, veio ao Brasil. Perguntaram a ele por que ele, com a posiçao que tinha, ainda dava aulas em graduaçao. ele respondeu que era porque os alunos de graduaçao fazem perguntas mais ingênaus, sinceras, que os posgraduados nao fazem mais (só perguntas muito "certinhas", rs, rs)... Perguntas instigam o pensamento. Aprendi demais com essa mocá de que falei, ela me fazia voltar a pensar em explicaçoes que eu achava que eram suficientes e nao eram.  

 
 
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Zarastro

O fato é que a coisa é assim porque nas próprias empresas brasileiras (e na maior parte do mundo?) o questionamento não é admitido. Querem robôs de carne e osso para exercitar funções que (ainda) não podem ser executadas por computadores.

Em minha curta história numa empresa de tecnologia de duas letras - uma das maiores do mundo - comecei a questionar os métodos de trabalho e os relatórios que eu deveria entregar ao nosso cliente, que deveriam seguir o modelo ditado pela matriz (usando a ferramenta desenvolvida por ela, que era simplesmente uma droga, em vários níveis) e que não serviriam para absolutamente nada, a não ser para fornecer os relatórios requeridos pelo contrato de serviços (tirando nota 5 natural, diga-se de passagem). A utilidade efetiva desses relatórios para acompanhar e planejar a atividade computacional do ambiente do cliente era zero. Questionei tudo isso - inclusive em chamadas de conferência internacionais, com a chefona ouvindo tudo - só para, ao fim de uma delas, ser repreendido por um colega: "por que é que você está trazendo esses assuntos novamente à tona? Já discutimos esse assunto à exaustão no ano passado e não deu em nada!"

Inclusive, hoje entendo porque raramente contratam profissionais técnicos experientes, com mais de quarenta anos, para que exerçam funções relevantes em qualquer grande empresa: porque trazem, junto com a experiência, um senso crítico altamente desenvolvido - uma característica que não interessa a praticamente ninguém. Isso se resume a uma das frases atribuídas a Einstein, só que ao contrário: "faça uma pergunta pertinente e receberá respostas impertinentes".

Em função disso tudo, larguei da tal empresa maravilhosa e resolvi ficar mais tempo com minha filha, já que enfrentávamos juntos um difícil processo de adaptação ao nosso lar (nós terminamos sua adoção em dezembro de 2012, finalmente). E hoje - após algumas entrevistas inacreditáveis no final do ano passado (no mau sentido) - resolvi voltar a fazer ciência. Pois apesar de tudo, no laboratório ainda existe espaço para o livre raciocínio. Já nas empresas, que são o destino da maior parte de nossos estudantes universitários, a robotização está mais forte do que nunca.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Anarquista Lúcida

Igor, você nao pode generalizar isso. Nunca me esqueço de uma aluna que tive numa faculdade em que já trabalhei, e por onde me aposentei. Eu estava explicando algo, e ela acompanhava com o pensamento, e às vezes descobria algo que nao casava com o que eu estava dizendo. Às vezes era só um caso de exceçao, e ela me dava um trabalho danado, me fazendo explicar coisas que perturbavam um pouco uma apresentaçao inicial do assunto, mas eu nao negava isso a ela. Agora às vezes ela pegava realmente um ponto fraco do que eu estava expondo, fazia uma pergunta que me mostrava que havia um problema no que eu estava dizendo. Era o máximo! Eu respeitava aquela moça como nao respeitava muito colega medalhao. Ela podia nao saber exatamente o que estava achando estranho, mas tinha o dom de captar os fenômenos, é coisa rara. 

 
 
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Zarastro

O que é interessante é que você louva a atitude dessa aluna, mas quando questionei um artigo pífio publicado pela Science você veio com a mesma atitude que os professores do Igor Eliezer tiveram com ele: "quem é você para ficar questionando o corpo editorial da Science?"

Suas palavras: "Se proponha para o corpo editorial da Science, conhecidamente formado por gente incompetente... Que falta de noçao de RIDÍCULO!"

Não surpreende que você tenha se surpreendido com a atuitude de sua aluna.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Anarquista Lúcida

Dê o link do meu comentário. Porque estou duvidando desses termos, apesar da frase estar com aspas (o que será muita desonestidade se eu nao disse exatamente isso, nao é nao?). Você pode ter dito algum absurdo, e eu ter questionado sua pretensao, mas perguntado "Quem é você para..."? Duvido muito, precisaria de ter sido um besteirol do tamanho do Himalaia. 

E outra coisa: as duas situaçoes sao diferentes. Uma coisa é um aluno em sala fazer perguntas, o que é um direito dele, ele está ali para aprender, e nao pode fazer isso sem compreensao verdadeira. Outra é um comentarista de blog se colocar a "achar" sem mais nem menos sem conhecimento na área sobre a qual comenta. Imagino que tenha sido esse o caso, mas nao lembro do episódio, parece que foi mais importante para você do que para mim... 

 
 
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Zarastro

Link para o comentário.

Quanto ao "achar", coloquei todos os meus argumentos na discussão referida acima. Como físico que sou, tenho o direito de questionar sim a relevância de um artigo publicado na Science - participando ou não da vida acadêmica.

E sobre minha suposta "desonestidade intelectual", não vou nem comentar.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Anarquista Lúcida

Comecemos por sua "honestidade intelectual". Texto do meu comentário: "se proponha para o corpo editorial da Science, conhecidamente formado por gente incompetente... Que falta de noçao de RIDÍCULO!" (por você debochar da escolha de um tópico pela Science, como se sua opiniao fosse inquestionável, e você tivesse critérios melhores que os dele -- critérios que nao deu, aliás, apenas disse que o assunto nao era relevante -- na sua alta opiniao, claro). Texto posto ENTRE ASPAS por você: ah, você EDITOU. Tirou a parte que tinha inventado! Só nao pode editar o meu comentário anterior, que duvidava exatamente que eu tivesse dito aquilo. Honesto, hem? Muito... 

 
 
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Zarastro

Seu comentário está lá com todas as letras. Dá vergonha? Dá sim, até para mim, de ver alguém que se diz tão erudita querer calar os outros com argumentos de autoridade. E que depois banca a santa do pau oco, se surpreendendo porque os estudantes brasileiros "não questionam seus professores". Na ocasião, você só não explicitou ipsis verbis o que estava pensando, mas como escreveu outro comentarista, para quem sabe ler, pingo é letra.

E depois, o que foi que eu editei? Copiei sua resposta infeliz, colei, e ainda dei a referência. Os meus posts eu posso editar, os seus não. E quem quiser ler nossas argumentações novamente, que as leia a partir dali.

De qualquer maneira, não vou mais gastar meu tempo com você. Você se desmascara sozinha a cada resposta intempestiva que dá.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Anarquista Lúcida

Cara, você teve a desonestidade de editar o seu comentário anterior, me atribuindo coisas que eu nao disse, e vem com essa empáfia. O texto do meu comentário eu pus acima, e todo mundo pode ver que foi aquele mesmo. Você tinha dito outra coisa, eu denunciei, você editou seu comentário cortando a parte que tinha inventado. Só que deixou rastro, porque a hora do comentário passou a ser a da edicáo... Como eu poderia ter respondido ao seu comentário antes dele ser feito, hem? Explica essa... Sem caráter! 

 
 
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Anarquista Lúcida

Como está difícil de abrir, vou deixar aqui um trecho especialmente relevante: 

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não

sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”,

eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da

luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava

totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu

perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha

correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando

“Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos…

são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são

considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam

todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza

de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o

único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era

difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre

momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se

coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão

fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois

corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques

iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa

coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado. 

 
 
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Anarquista Lúcida

Nao sei se o blog aceita um texto tao grande (sao 4 páginas de um pdf) mas vou colocar aqui; se nao sair, deixo um trecho selecionado: 

Ensino de Física no Brasil segundo Richard Feynman

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito

interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que

se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas

oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses

estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso

mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell,

e assim por diante.

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta

e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a

pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu

conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando

sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.

O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei

como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou

claro.

Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da

luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma

direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então,

perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.

Eles não faziam a menor idéia.

Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá

fora”.

Ninguém disse nada.

Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”

– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice

de refração é completamente polarizada.

– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?

– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor. Mesmo hoje em dia, eu tenho de

pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!

Eu disse: “Bem?”

Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal

como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada.

Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaróide”.

– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não

sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”,

eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da

luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava

totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu

perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha

correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando

“Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos…

são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são

considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam

todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza

de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o

único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era

difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre

momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se

coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão

fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois

corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques

iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa

coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.

Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha

permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo

certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu

perfeitamente. Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de

material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?

– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.

– E em quanto ela é deslocada?

– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época,

eu tinha minhas suspeitas.

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu

queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A

primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?”

– Não.

Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa

sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o copo?”

– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.

Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”

– Não senhor!

Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a

imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo

calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material

com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.

Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei

demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não

aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso

porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre

realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo

que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os

problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível

deles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho

estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que

acontecia: eles não conseguiam fazer!

Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante

explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai

ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando

aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam

os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um

estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros

adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante

que ele está desperdiçando o tempo dos outros.

Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também

não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a

outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa

estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil,

definitivamente inútil!

Uma palestra para as autoridades brasileiras

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas

experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também

professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro.

Esse é um país livre”.

Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade.

Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as

coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por

diante.

Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está

aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.

– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse. O auditório estava cheio. Comecei

definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual

um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos

que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.

Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de

igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não

apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição

para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.

Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está

ensinando ciência alguma no Brasil!”

Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas

aulas”.

Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da

escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no

Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não

houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há

resultado.

Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não

há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo

estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um

estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a

relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao

estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue:

“Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um

grego muito bom.

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a

Beleza!

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo

primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem

recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas

realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as

traduziu em palavras que os estudantes possam entender.

Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui

no Brasil” (Uma pancada, certo?)

Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados

resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola,

descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois

segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm Erros – ou seja, se você olhar, você

pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um

pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais –

muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem

uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta

correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo

de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais

teriam obtido tais resultados!”

“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de

uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os

casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público,

colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”

Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência.

Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em

termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando

você os fricciona, por que eles produzem luz? Alguém viu algum estudante ir para casa e

experimentar isso? Ele não pode”.

“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com

um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem

isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa

e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.” Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas

não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de

autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas

ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que

se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve

ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”

Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e

disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele

realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar

atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o

que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se.

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se

levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras,

antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo.

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse:

“Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não

estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor

que eu havia mencionado levantouse e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando,

felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo

sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.

Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!

Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados

Unidos, o Departamento de Estado pediu me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências

no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer. Mais tarde

descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova

como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar

problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no

Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de

cursos e descrições, era assim que era.

Extraído do livro “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman!” (título original: “Surely You’re Joking, Mr.

Feynman!”), publicado originalmente em 1985, nos Estados Unidos. O autor, Richard P. Feynman,

nasceu no ano de 1918 no estado de Nova Iorque, nos EUA. Estudou física no M.I.T. e em

Princeton, e lecionou em Cornell e no Instituto de Tecnologia da California. Deu importantes

contribuições à Física e foi considerado uma das mentes mais criativas de seu tempo. Ganhou o

prêmio Nobel em 1965 e faleceu em 1988. Na década de 50 ele viveu e lecionou por quase um ano

na cidade do Rio de Janeiro.

 
 
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