O sonho de um ex-sem-terra

Em Alagoas, ex-sem-terra tem um sonho: virar ministro do STF

Reporter Alagoas, Odilon Rios

A luta pela terra no Brasil começa a gerar um fenômeno inverso: alguns descendentes de ex-sem-terras conseguem oportunidades nas cidades e deixam a propriedade dos pais ou dos avós para tentar a sorte e garantir uma vida melhor. Para especialistas, mesmo com o novo êxodo rural, as terras vão permanecer ligadas às famílias e os descendentes vão investir na melhoria do campo.

Alan Ângelo Ferreira tem 20 anos e, desde a barriga da mãe, enfrentou a tensão das espingardas dos fazendeiros quando a familia integrava os sem-terra, que ocupavam propriedades rurais. Chegou a comer duas únicas vezes ao dia. A vida melhorou só um pouco depois que os avós e a mãe conseguiram terras nos assentamentos Manguibura e Costa Dourada, na cidade de Maragogi, a 125 quilômetros de Maceió.

- A vida nos assentamentos não é idílica ou onírica como se diz. Há muita dificuldade, sofrimento. Ninguém sabe o que é plantar uma macaxeira em uma terra, ela não vingar e ter de ir a feira da cidade com pouco dinheiro para comprar o sustento. Temos casas nos assentamentos, mas precisamos de mais, disse Alan.

Alan estudou com muita dificuldade. O pai queria que ele trabalhasse na roça ou estudasse cursos em áreas agrárias. Entrou em uma escola agrícola na cidade de Barreiros, em Pernambuco, vizinha a Maragogi. Não era seu sonho. Fez Teologia. Também não se encontrou. Viu, na TV, um homem negro, filho de empregada doméstica, sentar pela primeira vez na cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

- O ministro Joaquim Barbosa é o meu ídolo. Por isso, minha decisão não muda: serei ministro do STF, disse. O caminho é longo. A disposição é muita, disse.

Fez vestibular de Direito e passou em uma faculdade privada em Maceió. Juntou a papelada para se ajustar às regras do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Virou vendedor para cobrir os custos da viagem e da faculdade. No assentamento de Maragogi, os irmãos, a avó, os amigos se unem para ajudar o futuro ministro.

- Não quero voltar ao assentamento. Quero ajudar minha família, disse Alan.

Casos como os de Alan se repetem nos 160 assentamentos, com 50 mil pessoas, espalhados em 130 mil hectares em Alagoas: a vida melhora e alguns descendentes iniciam um “novo êxodo rural”, segundo o historiador Golbery Lessa:

- É um paradoxo: as políticas públicas melhoram e alguns descendentes buscam outras oportunidades, fora destes locais, afirma o historiador.

- A terra não ficará vazia ou sem ninguém porque ela pertence à família. Há um tempo de carência nos assentamentos, depois as famílias assumem o pagamento das terras durante anos, até a emancipação, explica.

No Manguibura, diz Alan, alguns descendentes de ex-sem-terras estudam cursos ligados a terra, como Ciências Agrárias ou Zootecnia.

- Eles querem voltar para melhorar as condições das terras, mecanizá-las. Falam em colocar creches, incentivar o turismo rural. Será uma mudança que teremos no futuro. Eu quero deixar o assentamento, mas tenho cinco irmãos e sei que alguns não vão deixar. Para mim, este modelo adotado pelo Governo Federal não vai acabar. Ao contrário: quem ficar- e são muitos ainda- vai querer transformar a vida no campo, disse o futuro estudante de Direito.

- As famílias de assentados têm uma casa com alvenaria, luz e água, acessam ainda aos programas federais, recebem incentivos para o plantio e aqui em Alagoas as famílias de assentados usam a terra para plantar. Temos casos de sucesso nos assentamentos, analisa o historiador Golbery Lessa.

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14 comentários
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véio zuza

 


Fã do Joaquinzão? Tomara que não passe do gibi do BATMANN, senão será outro projeto de IDI AMIN...


Como dizia o Vinícius, "o homem que diz SOU, não É..."


 

 
 
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Durvalino

... nao conheço nenhuma legislaçao no país q proiba seu povo de ter sonhos.  

se o Alan tem  essa convicçao, alcança-la vai depender de quanto serah seu empenho. os resultados dela, se serah um advogado  brilhante ou mediocre vai depender se suas atitudes. mas ninguem pode negar-lhe o direito de tentar.

porem, creio q tudo isso advem de sofrer na pele os destratos q o Estado impoe ao homem do campo. concordo q mesmo para o Estado manter e cumprir uma politica minima de vida digna torna-se dificil pelo coorporativismo dos q tem mais bens.

parece q a sociedade ainda nao acordou para o fato de q a celula mais importante do país sao as prefeituras.  sao elas q por estarem em contato proximo com as necessidades deles nao se empenham minimamente para evoluirem. nem mesmo quando o Estado trabalha algum plano macro tipo Minha Casa  MInha Vida nao se ve um apoio explicito e incondicional. mas nao deixa de atrapalhar quando pode.   pura falta de BRASILIDADE...

 

 
 
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boiadeiro

COM TANTA CASA DESTRUIDA E TANTAS FAMILIAS SEM EIRA NEM BEIRA, FOI SÓ O QUE RESTOU DOS DESGRAÇADOS DA SUIA-MISSU, QUE FORAM COVARDEMENTE EXPULSOS DE SUAS VIDAS, CASAS , E SONHOS. O GOVERNO  NEMMMMMMM ,DEFECOU E ANDOU. 

 
 
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roubrdario

 

E depois virar mais um capacho da casa grande. Parece que o unico pobre que não renega as origens é o LULA

 
 
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Francisco Ernesto Guerra

 


"- O ministro Joaquim Barbosa é o meu ídolo. Por isso, minha decisão não muda: serei ministro do STF, disse. O caminho é longo. A disposição é muita, disse."


Bem, considerando o ídolo dele, torcerei para que não chegue sequer a juiz de direito. Se chegar vai ser outra tragédia...


 


 

 
 
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aliancaliberal

Somos 200 milhões de ex sem terra.

 

"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.

 
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Ivanisa Teitelroit Martins

 "A vida nos assentamentos não é idílica ou onírica como se diz. Há muita dificuldade, sofrimento. Ninguém sabe o que é plantar uma macaxeira em uma terra, ela não vingar e ter de ir a feira da cidade com pouco dinheiro para comprar o sustento. Temos casas nos assentamentos, mas precisamos de mais, disse Alan."

Alan luta por um sonho. Se não houver plantações como a dos assentamentos, dos pequenos agricultores em cooperativas com apoio técnico, se não houver condições para o plantio sequer da macaxeira, se vier a prevalecer somente o agronegócio, nós aqui nas cidades não teremos o prazer de nos alimentar de frutas e de legumes fresquinhos. Joaquim Barbosa é um exemplo de alguém que conseguiu superar grandes dificuldades ( não cabe nesse caso comentários sobre o resultado do julgamento ). Alan quer vencer para trazer benefícios para a sua família e sua comunidade. Esta é a beleza do depoimento.  

 

 

Nisa

 
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Bran Mak Morn

>>>> A luta pela terra no Brasil começa a gerar um fenômeno inverso: alguns descendentes de ex-sem-terras conseguem oportunidades nas cidades (...)

Vida no campo não é pra quem quer ou, mais apropriadamente, pra quem acha que quer, mas pra quem tem vocação para trabalhar a terra. Nos dias de hoje, muito pouca gente esta realmente disposta a viver a 10, 20, às vezes 30 km da cidade mais proxima. Ou seja, quase isolado.

 
 
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Cassio Tonsig

Alan foi tocado pela imagem:

"...um homem negro, filho de empregada doméstica... na cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)..."
 

Pena que nosso capitão-do-mato está mais para o personagem Stephen do filme Django (de Tarantino), que dá a vida para servir ao patrãozinho (Monsier Calvin Candie).

Vamos torcer, por isso,  para que Alan vá além da imagem!   

 
 
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Cláudio Romero

És realmente um sonhador. Mas para quem vence uma luta, conforme narrado, no meio dessas desiguldades sociais em que vive, há sonhos melhores e mais dignos. Me parece que seu sonho, hoje, se assimila ao do ministro J.B., que ficar famoso, a qualquer custo.

Sonhemos com a dignidade!

 
 
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Mateus de Campos

  O jovem, parece inteligente, mas pode esforçar para mudar seu ídolo Min. Joaquim Barbosa, além de  agredir a esposa, não suportou os holofotes, e esforço herculeo  para condenar com provas frágeis filiados do PT, lutadores pela justiça social, apesar dos pesares de pouco, mas melhor que os tucanos e o DEM

 
 
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SHERLOCK

Acho que, mirar-se em alguém que obteve sucesso em sua vida profissional é sempre salutar. Porém, no exemplo citado, penso que o jovem terá, com o tempo e com estudos, oportunidade de rever seu "ídolo". O Sr. Barbosa, ao meu ver é tão prepotente que, no próximo carvanal é capaz de utilizar-se da própria máscara. Nosso jovem poderá se mirar em outros baluartes das ciências jurídicas brasileiras, pois, nomes não faltam. Nomes de firmeza, de conceitos inabaláveis quanto á pureza e o real sentido das leis. Quanto a Joaquim Barbosa, como já foi dito e repetido , a história fará a prova dos "nove" de sua conduta como Ministro. Isso, sem nada a ver com sua raça, pelo amor de Deus!

 
 
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Svibra

O ídolo do Alan, Joaquim Barbosa, coordena o Grupo Jurídico da elite conservadora que tenta brecar e retroceder as conquistas sociais, dentre as quais, a que permite que o Alan tenha um sonho de ser ministro do STJ.  Aí está o verdadeiro paradoxo.

Quando o Alan acordar ou se politizar, vai levar um susto!

 
 
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Flavio Martinho

Ou talvez não. Será um novo carrasco para os seus e um juiz 'tecnico' para os mesmos e esquecerá, talvez não os seus diretos, mas todo o seu passado e todos aqueles colegas de infortúnio. Afinal, estará recebendo convites para sentar à mesa dos ricos. É certo que para chegar a essa mesa precisará de uma ajudazinha - pois salario de ministro é uma merreca (em termos) para se deslocar (jatinho), para o hotel (hotel digno de ministro), etc. Mas aí não faltarão amigos advogados.

 
 

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