O alerta dos tropeços das empresas do grupo EBX

Por Assis Ribeiro

Do Correio Braziliense

O show de Eike

Brasil S.A - Antônio Machado

Tropeços do grupo EBX no setor de infraestrutura servem de alerta para apurar as novas concessões

O inferno astral do empresário Eike Batista, visível como reality show graças à transparência obrigatória para “empresas abertas”, ou seja, com ações na bolsa, reforçada pelo seu lado midiático, merece reflexão. Não pelo sobe e desce de sua fortuna nos rankings globais dos bilionários, assunto cativo das colunas mundanas da imprensa.

Eike investe em projetos bilionários de infraestrutura nos setores de petróleo, gás e minério de ferro, além de toda a estrutura anexa de logística, envolvendo ferrovia e porto, e até estaleiro próprio para a construção de plataformas petrolíferas. São as mesmas áreas de infraestrutura, em linhas gerais, priorizadas pelo governo para licitar a construção e a gestão ao setor privado.

O seu estilo de administração e o baixo sucesso na exploração dos blocos de petróleo são contingências também possíveis para qualquer interessado nas licitações que virão, e não algo fortuito. O atraso na liberação de licenças ambientais, por exemplo, bate em Chico e em Francisco, implicando custos não compensados pelos resultados.

Quase como um espelho das oportunidades em logística e petróleo, áreas com licitações já agendadas pelo governo para este ano, cada projeto do empresário é tocado por uma empresa autônoma, batizada sempre com a letra X, como OGX (petróleo), MMX (mineração) e LLX (responsável pelo porto de Açu, no litoral do Rio, concebido para ser o hub dos campos de petróleo da Bacia de Campos e do pré-sal).

Não há no setor privado nacional nada com tal magnitude, meio como uma mini Vale e Petrobras reunidas, nem seu modelo de capitalização — essencialmente voltado às chamadas de capital no mercado de ações junto a grandes investidores, com a banca estatal de coadjuvante, embora com volumes de financiamento expressivos, R$ 5 bilhões só do BNDES, além de R$ 2 bilhões da Caixa Econômica Federal.

As cinco empresas abertas de sua holding, a EBX, carregam dívida líquida superior a R$ 16 bilhões no fim de 2012, e de R$ 24 bilhões de dívida bruta, segundo análise de Fernando Torres, do Valor. Em contrapartida, essas cinco empresas investiram R$ 9,7 bilhões só em 2012. Ele faz o perfil do empresário-investidor ousado e destemido, que o governo procura para as licitações de infraestrutura, com um volume de investimento total de R$ 470 bilhões, quase 11% do PIB.

Risco de muito otimismo
Ousadia é algo escasso na narrativa dos investimentos brasileiros. Os governos buscam compensá-la com crédito subsidiado e aportes de capital ou, em certas situações históricas, como no governo Geisel, estatizando a execução e a gestão. Destemor costuma ser visto como atributo temerário, relacionado à pouca importância aos problemas.

Eike compôs os dois perfis, mas talvez tenha sido otimista demais com os riscos operacionais, parte derivada de atrasos burocráticos que não dependem de sua iniciativa, parte ou de má avaliação ou má sorte dos resultados dos blocos de petróleo explorados pela OGX. É essa a principal razão da queda de suas ações na bolsa. Mas parece haver algo mais: a concentração de muitos projetos com maturação no longo prazo e custos pesados. É o que serve de reflexão ao governo.

Compromissos excessivos
A lista de obras públicas que o governo cogita licitar talvez seja excessiva sob vários ângulos. O desafio para fechar os editais das licitações demonstra por si só o baixo consenso no governo. Pior, a indecisão, ampliada pelo viés da chamada “modicidade tarifária”, um parâmetro de preço imposto pela presidente Dilma Rousseff, que leva o governo a tentar compensar com dívida subsidiada a rentabilidade da concessão não assegurada pela receita operacional.

À luz das dificuldades das empresas de Eike, que, além de trânsito no governo, dispõe da flexibilidade de uma operação privada, podem-se antever os obstáculos a superar pelos futuros concessionários. É o que constataram as autoridades enviadas duas semanas atrás a Nova York e Londres para sondar potenciais investidores. Foram cobrados sobre os ricos regulatórios, ambientais e cambiais. O que fazer?

Fatiar para não arriscar
A ideia cogitada por setores influentes do governo seria fatiar as licitações, pondo menos ativos em leilão que o previsto, de maneira a avaliar melhor a receptividade, os valores de tarifa propostos e a qualidade executiva dos grupos interessados. Ao se lançar em sua empreitada, Eike começou sozinho e depois foi atrás de sócios para bancar com ele os investimentos. O governo não pode fazer igual. Ou licita tudo ou não licita nada. O meio termo é a ideia em pauta — começar devagar. O ônus é chegar a 2014 com menos obras a exibir. O benefício é mitigar os riscos e potencializar os resultados.

Eike mostrou o caminho
A crônica de Eike Batista no mundo da infraestrutura fornece outra indicação relevante: o interesse, suposto nulo por muita gente, do mercado de ações por projetos de longo curso. Eike construiu o que tem com os fundos oscilantes da bolsa, implacáveis com a frustração de resultados, mas sem contraindicação. Ao contrário: eles forçam o gestor a não relaxar para continuar empregado. A emissão de ações e de papéis de dívida privada respondeu em 2007 por 12,2% dos investimentos, contra 11,4% do BNDES e 17% do capital estrangeiro. O mercado de capitais é o caminho para não se fabricar deficits em conta corrente, a contrapartida de alto risco do modelo de crescimento movido a fundos externos. Com tributação adequada, o capital de risco pode permitir ao BNDES partilhar responsabilidades no processo de desenvolvimento e dedicar-se a projetos com retorno social. A Fazenda tem uma reforma pronta, apoiada pelo BNDES, nesta direção. Que faça. O provável é que alivie a tensão do governo.

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8 comentários
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marcio gaúcho

O que Eike, espertamente, está fazendo é o seguinte: coloca algum caraminguá pessoal, capta junto ao mercado de investidores e bancos estatais a maior parte do capital e abre um negócio. Inicia lentamemente, opera com prejuízos constantes, magoa os investidores, a cotação das ações do negócio caem na Bolsa de Valores, ele pede mais dinheiro emprestado aos bancos estatais, compra essa ações por preço inferior, se livra dos sócios investidores se tornando o dono do negócio, vende a empresa por um bom preço, sempre ficado no lucro, não paga e renegocia os empréstimos junto aos bancos estatais e sai à procura de novos investidores para um novo e ambicioso projeto. Simples, assim, fazer fortuna no Brasil e no mundo, sem realizar coisa produtiva nenhuma, com prejuízo aos incautos investidores e dívidas impagáveis junto à banca da viúva.

 
 
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Alexandre Weber - Santos -SP

Dois tostões que vão, como sempre quando dou palpite no negócio dos outros, gerar uma inimizade, mas como têm dinheiro do povo vou dar.

Primeiro, o que me impressiona no Eike é como ele ganhou os dois primeiros Kilos de ouro.

Mas vamos lá, no enrosco de suas empresas.

Falta aos projetos do Eike como aos do governo um elemento que dê liga a eles, quando o projeto para de pé, ou seja, é lucrativo e exequível, sempre aparece quem quer investir.

Este elemento misterioso, o que dá liga, é imaterial, faz parte dos gabaritos das obras universais e que transitam pelo campo dos sistemas complexos, como são os casos das empresas coligadas do Eike e a responsabidade sobre o Brasil do governo.

Os projetos bons começam por ele, o modelo, que têm unidade e transmite, equilibrio, harmonia e qualidade  às ações que se sucederão na implantação das empresas.

O Eike no Açu, de forma intuitiva e atabalhoada tentou unir diversos negócios díspares em busca de uma sinergia entre eles que proporcionasse um lucro coletivo superior á soma dos individuais, não foi feliz nos parceiros e complexidade disto foi superior à sua habilidade de se desvencilhar dos empecilhos, no entanto, o Açu é de longe a sua melhor opção para se salvar, se conseguir colocar lá uma Zona Especial de Produção, com certeza suplantará os obstáculos que o impedem hoje, mas no final será um projeto diferente do previsto inicialmente.

O do petróleo, com o rolo com o sócio já sinalizava para maiores dores de cabeça, percebam, que o dinheiro ai é tudo, se se está lucrando, ninguém reclama. Indústria do Petróleo é alto risco, a BP que o diga.

As outras empresas são subsidiárias destas duas, não trazem problemas maiores se estas estiverem funcionando lucrativamente e de forma sustentada.

 

Follow the money, follow the power.

 
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mucio

Pra ser investidor e empreendedor tem de ter estômago, e o cara tem.

Quantos dos comentaristas tocam negócio próprio e tem custo de entrada elevado?

 
 
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Marcelo Nascimento

O que mostra que nao basta ser somente empreendedor para virar empresario ...

Tanta gente que estuda MBA em faculdades de renome, aprende "business" e sai achando que para montar qualquer empresa, basta contratar diretores, logisticas, terceirizar empresas, fornecedores, capitalizar ...

No final das contas, o que toca a empresa eh o chao de fabrica ... eh o corpo de engenharia que sempre eh esquecido pelos businessmen. Na cabeca do burocrata, do manager, do MBA, fazer aviao, tecnologia, mineracao, etc eh tudo a mesma coisa, o que muda eh o "modelo de negocio".

 
 
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Conejo 10

Sempre disse que Eike vende sonhos e entrega espuma.

Uma inteligência, um determismo, uma capacidade de trabalho sem limites fazem dele o modelo do "primeiro milhão antes dos 20"...

Mas agora que seu império balança, ele devia - enquanto tem tempo - perguntar a seus bem remunerados assessores: onde errei?

Na minha provinciana visão, ele se arriscou demais ao abrir o leque de seu império: dos ricos retornos ao pré-sal até uma poluidora e demodê siderúrgica movida a carvão produzido artesianamente.

 
 
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Estevão Zanchetta

Sei lá... vende um produto que não existe, vai juntando bilhões, anuncia na bolsa, e depois vira fumaça... seria uma Eiskefree?

 
 
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Nira

EikeXfree, sem o X não multiplica. Resta saber pra quem.

 
 
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Athos

Finalmente um bor artigo.

 
 

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