Caindo a ficha?

Não é fácil ser leitor de Folha, ainda que possa ser divertido, caso se goste de malabarismos estatísticos para provar que os miseráveis continuam miseráveis apesar do Bolsa Família, e tome-se  verbo no futuro do pretérito e conjunção condicional "se". De ombudsman fazendo auto-elogio ( Suzana é um caso raro de ombudsman, ao invés de criticar o jornal pela ótica do leitor, critica o leitor pela ótica do jornal) E ontem, uma reportagem mostrando que o Estádio Mané Garricha de Brasília foi entregue inacabado - o jornalista andou pelas dependências do estádio e encontrou banheiros sujos e entrevistou um operário que trabalhou na obra (sim, um operário) que afiançou que ainda há muito a ser feito.

Porém, pelo menos 3 matérias da Folha deste domingo (19/05) são jornalismo.

Festejemos:

Janio de Freitas batendo um dedo acima da linha da cintura.

Lula na Argentina, sobre os meios de comunicação: "Quando nós os criticamos, eles dizem que estão sendo atacados. Quando nos atacam, falam em democracia".

Pegou em cheio a sabedoria criada pela imprensa, e depois estendida ao rádio e à TV. No Brasil, com um aprimoramento: se um jornal falasse do outro, ou uma rádio da outra, todos se tornariam vulneráveis, logo é da "ética dos meios de comunicação" a moita mútua.

Clovis Rossi mostrando que não esqueceu de como se faz bom jornalisno, apenas não o pratica há um tempo.

Se Dilma fosse japonesa

Brasil e Japão adotam políticas parecidas, mas na mídia só brilha uma. Adivinhe qual delas

A economia brasileira cresceu 1,05% no primeiro trimestre do ano, na comparação com o trimestre anterior. A economia do Japão cresceu 0,9%, sempre na comparação entre esses dois períodos.

Quem você imagina, então, que aparece na capa da revista "The Economist", com direito à roupa de super-herói/heroína? Se respondeu Dilma Rousseff, errou feio. É Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês faz quase cinco meses.

Não é só na "Economist" que a pobre Dilma perde para Abe. Na própria Folha, o crescimento japonês ganhou manchete de página no caderno "Mundo", mas o do Brasil não mereceu idêntico privilégio no caderno "Mercado".

Até entenderia o tratamento mais rico para quem cresceu menos se, por acaso, Dilma e Abe praticassem políticas econômicas muito diferentes, ele pró-mercado, como gosta a grande maioria da mídia nacional e internacional, e ela fosse uma espécie de Hugo Chávez de saias.

Mas não é assim. Com as inevitáveis diferenças decorrentes das respectivas histórias e tamanho da economia, vale para Dilma o que a "Economist" diz da "Abenomics", como está sendo chamado o modelo do novo premiê japonês: é "um misto de reinflação, de gasto do governo e de uma estratégia de crescimento desenhada para chacoalhar a economia de um estado de animação suspensa que a sufocou por mais de duas décadas" e que pretende "tornar o governo vigoroso de novo".

(Usei o neologismo reinflação em lugar de "reflation", em inglês, para deixar claro que se trata de reverter a deflação que o Japão enfrenta há muito tempo e que, de resto, a "Abenomics" ainda não conseguiu desmanchar. O índice de preços ao consumidor mostrou queda de 0,9% em março, o décimo mês consecutivo de deflação.)

O texto da "Economist" soa a elogio, a ponto de dizer que Abe "eletrizou uma nação que havia perdido a fé na sua classe política".

Para Dilma, ao contrário, a revista britânica reservou há pouco um necrológio, ao definir como "moribunda" a economia brasileira.

Não só a "Economist", mas nove de cada dez analistas que habitualmente frequentam as páginas dos jornais não acham que Dilma eletrize alguma coisa; ao contrário, em vez de eletrizante, ela é retratada como insuportável intervencionista.

Não estou dizendo que as políticas de Dilma devam ser elogiadas ou que não tenham defeitos. O que não me parece lógico é tratar como tamanha diferença de enfoque políticas que têm um razoável parentesco -e resultados idem.

Até porque a opinião pública, no Japão como no Brasil, trata igualmente seus respectivos governantes. Abe, lembra a "Economist", tem 70% de aprovação. Dilma, lembra o Datafolha, está com 64%, o mais alto índice desde que tomou posse há dois anos e cinco meses.

Pode ser que, mais lá na frente, a diferença de tratamento se justifique, sabe-se lá. Mas, por enquanto, faz lembrar, com sinal trocado, antiga propaganda de um produto japonês fabricado no Brasil que dizia algo como "nossos japoneses são mais criativos que os outros".

E Mario Cesar Carvalho com um bom artigo mas fazendo malabarismos para não citar o Governo de São Paulo nem o PSDB

Brasil é único que não puniu envolvidos no caso Alstom

Escândalo mundial de propinas com empresa francesa estourou em 2008

Zâmbia e Indonésia estão entre os que já têm provas e sanções; investigação brasileira não produziu efeito

MARIO CESAR CARVALHODE SÃO PAULO

O Brasil está sozinho na impunidade num grupo de 11 países que apuram as suspeitas contra a Alstom, conglomerado francês que é um dos maiores do mundo em transporte e energia.

Enquanto até locais como Zâmbia e Indonésia já têm provas e punições sobre as suspeitas de a empresa ter pago propina para obter contratos, uma investigação iniciada há cinco anos no Brasil não produziu efeito algum.

As investigações sobre a empresa começaram em maio de 2008, quando o "Wall Street Journal" revelou que ela usava um banco e uma filial na Suíça para distribuir comissões para conseguir contratos entre 1995 e 2003. Até o ano 2000 a França autorizava empresas a pagar comissões para obter negócios.

PRISÃO E MULTA

Há um certo padrão no tipo de punição imposta aos suspeitos de receber comissões e à Alstom. Eles são presos e a empresa é condenada a pagar uma multa.

Suíça, Itália, México e a Zâmbia adotaram multas. O maior valor foi pago à Suíça, onde a investigação foi iniciada. A Alstom fez um acordo com a Procuradoria do país para encerrar as apurações. Pagou US$ 43,5 milhões, doados à Cruz Vermelha, e não sofreu condenação, mas uma de suas subsidiárias foi acusada de "negligência corporativa" por ter pago propinas depois que a União Europeia havia transformado a prática em crime.

Os EUA foram um dos últimos países a adotar medidas contra a empresa. No último mês prendeu um vice-presidente da Alstom sob acusação de violar a lei que proíbe empresas que atuem nos EUA de pagar propina no exterior.

A Zâmbia é um dos países mais miseráveis da África. Ocupa o 148º posto numa lista de 195 países das Nações Unidas. Apesar da penúria, o país conseguiu com que a Alstom fosse suspensa por três anos das licitações do Banco Mundial e pagasse uma multa de US$ 9,5 milhões à instituição.

COMPLEXIDADE

A demora na apuração brasileira decorre da lentidão da Justiça e da complexidade do caso, segundo autoridades ouvidas pela Folha. A principal dificuldade é que todas as provas estão na Suíça e o Brasil depende desses papéis.

A Suíça já bloqueou uma conta de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de SP, Robson Marinho, com cerca de US$ 1 milhão, porque há suspeitas de que ele teria ajudado a empresa a obter um contrato de US$ 110 milhões com a Eletropaulo em 1997. A Alstom teria pago US$ 8,25 milhões de comissão a políticos.

A advogada Dora Cavalcanti, que defende um dos investigados no Brasil, diz que o envio de documentos será difícil pois não houve condenação da Alstom na Suíça e muitas provas foram anuladas porque havia documentos falsificados. "Não tem sentido mandar provas que foram consideradas ilícitas".

O promotor Silvio Marques e o procurador Rodrigo de Grandis, que atuam no caso nas esferas estadual e federal, discordam da visão da advogada. "O acordo na Suíça não elimina a possibilidade de envio de provas para o Brasil", afirma De Grandis.

A maior problema, segundo ele, é o risco de os crimes prescreverem. Isso pode ocorrer porque os suíços enviaram, a partir de 2007, documentos sobre supostos crimes que ocorreram em 1997.

Marques é mais otimista. Cita como exemplo o caso de Paulo Maluf: Jersey demorou 12 anos para decidir devolver US$ 28,3 milhões ao Brasil.

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