O MPL e os riscos do sucesso.

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O MPL corre agora o risco do sucesso.

Como não enxergar um caso clássico de fogo amigo na violência não premeditada da PM contra funcionários de seus órgãos midiáticos de apoio quando temos a foto da jornalista da Folha sangrando diante dos nossos olhos?

Ocorre que fogo amigo causa danos e é fogo como qualquer outro na ótica de quem o recebe. Pode ser assimilado ou não entre as partes como "danos colaterais". Não o foi na cobertura da repressão aos manifestantes do MPL na semana passada.

Rasgou se a cortina de ocultação que caiu sobre a opinião pública apolitizada, por exemplo, na desocupação da USP. Lá, os estudantes foram apresentados como maconheiros ou como "Os bebês da USP" (Vinícius Mota) ou "Delinquentes mimados" (Gilberto Dimenstein). Para quem tem estômago, os links estão no final da página.

Nesse caso, a ação da polícia foi tratada como exemplar. Ainda que não houvesse ou fossem divulgadas fotos da desocupação no quente da batalha, as imagens do antes e do depois da ação policial foram apresentadas pela grande imprensa como evidência definitiva da civilidade da nossa polícia.

Nos protestos do MPL os estudantes são os mesmos e a apresentação era a mesma. Desta vez, como um grupelho de baderneiros e vândalos, em função dos manifestantes terem adotado a violência como forma de ação política. Erro que os órgãos de mídia sabem bem como explorar.

A polícia era a mesma, sua ação igual, mas a partir de quinta-feira houve uma novidade - o sangue dos jornalistas.

A imagem da moça branquinha, jornalista da Folha,  com o supercílio dilacerado por uma bala de borracha desnudou o que é a ação policial na repressão às manifestações dos movimentos sociais. Rasgada a cortina, vimos a cara dos manifestantes, ouvimos o que tinham para dizer. Era confuso o que diziam, mas não eram frases de um grupelho de baderneiros. Reconhecemos seus gestos, seus olhares e postura. Não havia o que confundir ou com o que nos enganarmos. Não  eram meninos de periferia sobre os quais se poderia insinuar terem a sua revolta patrocinada por traficantes que quisessem expulsar a polícia do local. Eram os nossos meninos e meninas.

Tinham apelo e agora ganharam apoio popular. Quem negará que eles nos falam de coisas bonitas, amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor?

Ninguém. 

Bem, passamos agora para uma segunda fase.

Ocorrerão novos protestos? Ocorrerão.

Pelo menos até o final do mês. Depois vem julho, férias... e aí, haverá firmeza de propósito que resista?

A PM agirá da mesma forma? Não. PM e os órgãos da mídia estão em contato para estabelecer uma forma de ação e divulgação que recupere ao governo a imagem de mantenedores da ordem? Provavelmente sim.

E o MPL? O pessoal das pedras nas mochilas, das vidraças quebradas e dos sacos de lixo queimados é sua fragilidade.

A oferta do Haddad e sua ação com perfil de professor que dialoga e procura ouvir os estudantes leva o movimento a um impasse? Claro que sim.

O grupo deverá se dividir? Creio que fatalmente isso ocorrerá.

Vejamos, depois de toda a água que correu sob a ponte nas duas últimas semanas, parece-nos razoável pensar que se o governo voltasse atrás e anulasse o aumento das passagens o movimento se dissiparia e os manifestantes voltariam para as suas casas com seus vinte centavos no bolso? 

A causa por trás dos protestos aos poucos parece ser outra que o aumento, ademais totalmente palatável, das passagens. Mas qual? Algo assim "contra tudo isso que está aí". Ou, para resgatar um lema sessentista, "não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos. E o que não queremos é isso tudo que está aí". 

Movimentos assim são fortemente agregadores, reúnem de cybers-punks (eles ainda existem?) e anonymos a trotskyquistas. Fora quem está no topo da cadeia alimentar social, todos têm algum motivo para ser contra alguma coisa em relação a tudo que está aí.

Mas e agora? Haddad quer conversar. Se aceitarem, ganham status de oficialidade, ganham um canal de comunicação privilegiado para apresentarem suas reivindicações atuais e futuras, mas abrem automaticamente negociações. E, em negociações, cada lado acaba tendo de ceder algo em nome do consenso.

A parte mais consequente do movimento deverá aceitar. Mas e a turma das pedras na mochila e dos sacos de lixo incendiados?Com grupo dividido, essa turma pode ser reprimida com o pretexto da intolerância ao diálogo aberto?

A falta de uma estrutura programática mais firme por trás das reivindicações pode levar o movimento a ser cooptado por outros movimentos mais estruturados. PSTU, PCO, e principalmente PSOL,  são partidos estruturados e próximos ao movimento, podem desenvolver uma pauta que estruture minimamente as idéias e ideais do PLM para que se possa avançar no atendimento de objetivos definidos. Mas muitos integrantes ficarão de fora dessa estruturação e o movimento corre o risco de ser tornar mais um departamento desses partidos.

Essa estruturação é necessária, ainda que o movimento pareça não se importar muito com isso no momento. Por quanto é possível manter protestos semanais "contra tudo que está aí" antes cair no descrédito e retroagir à condição de "grupelho de baderneiros"?

Pode ser pior, o movimento ser instrumentalizado por algum interesse.

A dor dos parentes das vítimas do acidente da TAM não foi instrumentalizada em uma passeata "contra tudo isso que está aí"? 

A Folha de hoje já traz informação de alguns movimentos nesse sentido.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1295768-trabalhadores-devem-aderir-a-protesto-contra-tarifas-em-sp.shtml

Jovens com visibilidade pública e dispostos a lutar por alguma causa são um ativo político valioso. Coisas e pessoas valiosas sempre atraem interesses diversos.

Ou seja, o MPL corre o risco do sucesso.

Quem apoia a garotada deve começar a analisar com cuidado os movimentos do entorno.

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0711201103.htm

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/1003264-sao-apenas-delinquentes-mimados.shtml

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