A Persistência dos Conceitos espontâneos

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Na formação dos conceitos, as características essenciais e não essenciais dos objetos e fenômenos exercem uma influência fundamental.

Diante da figura de uma baleia em seu habitat natural, nenhuma criança foi capaz de reconhecê-la como animal mamífero. As explicações e demais informações a respeito do comportamento daquele animal não conseguiram suprimir as evidências das características não essenciais. Por isso, as crianças de 7 anos não conseguem provar os fundamentos das características essenciais. Baseiam-se exclusivamente nas características não essenciais, isto é, no aspecto externo, na imagem visual. As explicações não conseguem alterar seus pontos de vista.

Em decorrência disto, durante a primeira e segunda séries, justifica-se a necessidade das repetições constantes e confirma-se a inutilidade de considerar as características essenciais na avaliação do aprendizado.

Em interessante pesquisa realizada em uma de suas teses, Nélio Bizzo,[2] constatou, como fenômeno preocupante em relação ao ensino nas escolas, que, apesar de anos de estudo, os alunos que chegavam às universidades continuavam manifestando idéias errôneas a respeito da teoria da evolução.

Na verdade, idéias errôneas, em quaisquer circunstâncias, acabam sendo resistentes a mudanças e permanecem inalteradas mesmo após longos períodos de instrução.

Analisando esse problema, J. I. Pozo mostra que, determinados pela resistência a mudanças, os conceitos espontâneos, em função de sua origem na vida quotidiana e sua organização em forma de teoria, tornam-se úteis e altamente preditivos. Por isso, ensinar ciência não é propor conceitos, mas sim mudar os conceitos que os alunos já possuem. Na realidade, se o aluno não encontrar uma teoria melhor que reorganize as explicações já oferecidas pelas suas concepções espontâneas e aponte também fenômenos novos até agora incompreensíveis, ele não abandonará suas idéias.

 

“Para que o aluno consiga compreender a superioridade de uma nova teoria é necessário defrontá-lo com situações conflitivas que suponham um desafio para suas idéias. Em outras palavras, o aluno tem que se dar conta de que sua teoria prévia é errada em determinadas situações, nas quais conduz a predições que não se cumprem. Ao mesmo tempo, tem que lhe fazer ver, também, que a nova teoria faz melhores predições”.[3]

 

Na verdade, embora o conflito cognitivo seja condição importante, a tomada de consciência, isto é, a reflexão sobre as próprias idéias, se configura no passo fundamental para a mudança conceitual. Para modificação dos conceitos espontâneos dos alunos, que costumam ser implícitos, é preciso torná-los explícitos mediante aplicação a problemas específicos. Além disso, os alunos devem tomar consciência também das vantagens da nova teoria proposta.



[1] NATADZE, R.G. in Psicologia e Pedagogia II, Estampa, 1991.

[2] BIZZO, N. Tese de Doutorado sobre a Teoria da Evulução, 1985.

[3] POZO, J. I. Obra citada.

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