Primavera de esperança, Verão de caos

Na última semana o Brasil vem sendo sacudido por diversos protestos em diversas capitais brasileiras, que vem ganhando repercussão e musculatura nos últimos dias. Originalmente era um movimento contra o aumento das passagens de ônibus, liderado por setores anarquistas e do PSTU, uma agremiação minúscula de esquerda. Hoje se tornou algo maior e mais difuso.

Esta é uma grande questão a ser debatida. Pelo quê exatamente as pessoas foram às ruas? Existe um sentimento difuso contrário aos políticos e especialmente à democracia representativa, contra a “corrupção” e por “mais saúde e educação”. Também há revolta quanto a setores da mídia, em especial a Tv Globo.

Entretanto, em minha avaliação isto é algo complicado. Por mais que os líderes iniciais e as bandeiras originais sejam “esquerdistas”, por mais que exista este sentimento de revolta, vale lembrar que setores da oposição já há algum tempo vem se movimentando para tentar retomar de forma extra constitucional o poder que não retomam no voto. E este tipo de manifestação se torna um prato cheio para um pretexto deste tipo.

O leitor mais novo talvez não se lembre, mas em 1963/64 se viveu um quadro parecido. Protestos à esquerda por reformas de base, articulação à direita para a derrubada de João Goulart – que, a propósito, passou à História injustamente como fraco e pusilânime, algo que não era. As “Marchas com Deus pela Democracia e pela Liberdade” (foto), foram exatamente a utilização dos protestos como massa de manobra para legitimar o que se preparava nos gabinetes e na caserna. O quadro era o mesmo: uma oposição conservadora sem voto, mas com o comando dos meios empresariais e especialmente da mídia fazendo uma campanha francamente golpista.

Soa familiar ao leitor? Pois é.

Estes protestos, sem uma plataforma definida, na prática podem acabar servindo como mote para outra interrupção da normalidade democrática, que vem sendo cogitada e preparada pela oposição sem voto há tempos. E nenhuma interrupção da normalidade democrática é boa: é cláusula pétrea que deve ser mantida custe o que custar. A oposição quer voltar ao poder? Que construa propostas e volte pelo voto.

Não estou dizendo que isso é coisa orquestrada pela oposição, mas que sim pode ser apropriado por ela a fim de alcançar os seus objetivos de volta ao poder pelo caminho da força – ou do Judiciário, o que me parece mais provável.

As palavras de ordem vem demonstrando uma ignorância (no sentido de desconhecimento) que chega a ser espantosa. Coloca-se a culpa nos políticos como um todo (independente de partido) como se estes brotassem por geração espontânea do solo em Brasília. Exige-se o cancelamento da Copa e das Olimpíadas para que os recursos sejam aplicados na educação e na saúde, sem saber que estas obras aumentam o orçamento e, com isso, os valores destinados a estas duas rubricas. Prega-se contra a “corrupção”, mas não se apóia uma reforma política que diminua a necessidade de acordos pela governabilidade.

Chega a ser curioso, aliás, que muitos a bradar pelo fim da corrupção nos protestos sejam os mesmos que dão uma “cervejinha” ao guarda, que furam fila ou querem privilégios. Ou não se lembram do deputado em quem votaram. Protestar sim, mas acompanhar o dia a dia de seus representantes não faz parte da prática política da população.

Percebo também, como comentei ontem nas redes sociais, um certo componente de classe. As manifestações, basicamente calcadas na classe média, estão expressando também algo que venho percebendo há tempos: existe um crescente sentimento de inconformismo contra o movimento de ascensão social ocorrido por parte das classes mais pobres. Li muitos comentários ontem em redes sociais na linha de “os pobres tem de ser devolvidos a seu lugar”, o que é revelador. O movimento é de reação, não de ação.

Por outro lado, as invasões ao Congresso Nacional (abaixo), à Assembleia Legislativa do Rio e ao Palácio do Governo paulista (onde queriam bater no Governador Geraldo Alckmin) expressam uma insatisfação clara destes setores com a democracia representativa. A questão é que a única opção conhecida hoje é a ditadura – que a meu juízo é muito pior. Pessoalmente, independente de posição política A ou B acho assustador que manifestantes invadam prédios públicos para tentar se bater em políticos.

 Uol

Foto: Uol

Outro ponto importante de análise é a atuação da imprensa. Ontem tentou-se invadir a sede da Rede Globo em São Paulo (embora pelo menos o canal a cabo GloboNews tenha omitido isso) e os profissionais da emissora estão tendo de trabalhar “camuflados” nos protestos sob pena de serem expulsos e agredidos. Em minha análise é óbvio que a grande imprensa e em especial os veículos ligados à Globo também pagam pelo fato de terem abandonado há tempos o jornalismo para fazer política partidária explícita – o que não significa que concorde com ataques e agressões a profissionais, longe disso.

Diga-se de passagem, o referido canal a cabo ontem tentava reduzir os protestos a uma mera insatisfação com o governo federal, se esquecendo que o palácio do governo paulista – que é do PSDB – também foi invadido. Sem dúvida alguma, a falta de pluralismo do canal – hoje à imagem e semelhança de seu Diretor Ali Kamel após uma série de “limpezas ideológicas” – é um entrave sério à verdadeira democratização do Brasil.

Por outro lado a postura de certos integrantes do PT defendendo a invasão da emissora é totalmente contraproducente. Por que não defenderam uma lei de regulação no setor que estimule a concorrência e proíba a Globo de deter rádio, televisão, jornais impressos, revistas, conteúdo de tv a cabo e distribuição de tv a cabo no mesmo espaço? Nem nos Estados Unidos este monopólio virtual é permitido. Agora ficar fazendo bravatas é fácil.

Diga-se de passagem, a postura de certos setores da mídia em vender um Brasil “que atravessa uma grave crise econômica” também contribui para esta ida às ruas. Contudo, o Brasil hoje atravessa um período de salários reais em alta e praticamente pleno emprego, apesar de alguns problemas pontuais. Os manifestantes desejam que sejamos uma Espanha, onde metade da população até 35 anos está desempregada? A política econômica da oposição é essa, não se esqueça o leitor.

Por seu turno, a Presidenta Dilma precisa abandonar a sua posição olímpica de “gerente” e vir à arena política. Ela pode não gostar de política, mas sua função é política e ela precisa adotar uma postura firme neste caso. Dar uma satisfação é fundamental neste momento, porque onde há ausência, vácuo de poder este é imediatamente ocupado. E isto é perigoso. A comunicação do governo também precisa melhorar, pois hoje está muito aquém de algo minimamente aceitável.

A história recente nos mostra que nos países onde houve uma “primavera” de esperança, seguiu-se um verão de caos. O Egito está dirigido hoje por um partido teocrático (ainda que moderado), a Líbia ainda atravessa convulsão social e a Síria, por exemplo, está em guerra civil. Aqui no Brasil o “verão”, quase certamente, será uma ditadura – não necessariamente militar.

Os tempos exigem moderação e prudência. Para que a longa noite de 1964 não se repita. E este blog é defensor incondicional do respeito às leis e a Constituição.

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