As desigualdades de acesso às tecnologias digitais

Sugerido por Sérgio T.

No QTMD?

As tecnologias não desfazem exclusões e desigualdades 

Por Dênis de Moraes(*), especial para o QTMD?


Dênis de Moraes

Devemos reconhecer avanços proporcionados pelas tecnologias digitais, como, por exemplo, as funcionalidades dos celulares, os serviços públicos online, os espaços colaborativos, os intercâmbios audiovisuais, os acervos multimídias, as redes educativas, as mobilizações virtuais por afinidades eletivas e a divulgação descentralizada através da Internet. Mas não podemos deixar de ressaltar que existem sérias contradições e desigualdades nos acessos e usos dessas mesmas tecnologias. Parcelas expressivas da população mundial continuam excluídas da evolução técnica. E são as classes e o capital dominantes que absorvem as maiores vantagens da cultura digital, impedindo a partilha equânime das riquezas e do progresso tecnocientífico e material.

A explosão inovadora não representa um bem comum, nem uma conquista repartida pela maioria das sociedades. Grandes empresas e instituições hegemônicas detêm a prerrogativa de utilizá-la em função de ambições particulares. São elas que dispõem de poderio financeiro, influência política, capacidade industrial e esquemas de distribuição pelos continentes — tudo isso facilitado pelas desregulamentações e privatizações neoliberais dos últimos 30 anos.

A própria intensificação das inovações tecnológicas frequentemente obedece à diretriz de acumulação de dividendos competitivos. Portanto, existem diferentes aspectos a considerar, se não quisermos aceitar passivamente nem ceder ao culto celebratório do novo e das euforias tecnológicas. Precisamos separar as mudanças potenciais que as tecnologias podem introduzir nas relações e práticas cotidianas dos modismos efêmeros, das graves exclusões que se mantêm na órbita da chamada explosão digital e dos apelos consumistas que inundam os meios de comunicação.

É fundamental avaliarmos a multiplicação veloz e ininterrupta de conteúdos nos suportes, canais e plataformas digitais. Dizem-nos que nunca houve tanta oferta de informação e entretenimento. Mas cabe questionar este slogan propagandístico do neoliberalismo. Quem controla essa variedade de ofertas? Qual é a sua natureza ideológico-cultural? Quais são as linhas dos conteúdos e das programações? Que linhas de abordagem são adotadas na interpretação dos fatos? Penso ser essencial verificarmos em que medida a informação está posta a serviço dos interesses ideológicos da mídia hegemônica – não raro, interesses antipopulares, que se expressam na carga brutal de discriminação, de deturpação, de silenciamento das reivindicações de entidades e movimentos sociais e comunitários.

Quando aprofundamos a análise, percebemos que, se, de um lado, cresceu a oferta de informação e diversão, de outro há um processo de centralização das fontes emissoras dos conteúdos multimídias e uma comercialização generalizada dos bens simbólicos, com o propósito de alimentar os padrões de rentabilidade das grandes empresas do setor. A alegada multiplicação de materiais informativos e culturais se inscreve mais na órbita das conveniências econômicas e ideológicas dos grupos privados do que propriamente na variedade qualitativa dos conteúdos. Frequentemente, as necessidades e aspirações sociais ficam em segundo plano.

A verdadeira diversidade pressupõe valorizar as múltiplas vozes que se manifestam na sociedade, confrontar pontos de vista e estimular trocas horizontais entre as culturas de povos, cidades e países. Diversidade se assegura, principalmente, com políticas públicas que valorizem os direitos da cidadania e contribuam para deter a oligopolização da produção cultural. Para isso, são indispensáveis mecanismos democráticos de regulação, de descentralização da mídia, de universalização de acessos, de proteção do patrimônio cultural e de apoio a usos comunitários e educativos das tecnologias.

*Dênis de Moraes é jornalista, professor do departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e pós-doutor em Comunicação pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. É colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Batalha da Mídia“.

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1 comentário
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Miguel A. E. Corgosinho

"Grandes empresas e instituições hegemônicas detêm a prerrogativa de utilizá-la em função de ambições particulares. São elas que dispõem de poderio financeiro, influência política, capacidade industrial e esquemas de distribuição pelos continentes — tudo isso facilitado pelas desregulamentações e privatizações neoliberais dos últimos 30 anos."

A suas observações são importantes e não pretendo reivindicar o seu alcance. Queira me desculpar, meu caro Denis, mas é preciso reconhecer, não menos, que o comportamento analitico do confinamento digital acima mencionado ja foi qualificado como tal há mais de quatro anos pelos meus artigos no Portal Luiz Nassif e aqui no blog. 

A problematização do poderio financeiro e o tratamento das funções para sequencia com as instituições interpretativas do esquema digital, propriamente dito para distribuições de relatividade nos continentes, se preenche com o poder de absoluteza de um novo Estado mundial.

Contudo, para dar apenas alguns nomes, é preciso fazer distinsões dos caracteres de valor de equivalência, cuja egide os países existirão a partir de um espaço neutro - que prossegue com o empenho de uma esfera universal (tempo espaço) - pela construção do rigor que a ciência deixou a mais-valia no vazio.

A ciência da Razão se reserva o privilegio de assumir a Sociedade Industrial, e fazer valer o interior da tecnologia digital, segundo a qual para que ela meça a economia com a fidedignidade e periodicidade - disto já fiz exemplos - é necessário que a implique concomitantemente pelo lado do mundo exterior.

 
 

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