O direito e a responsabilidade de exigir

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Discursivamente, existe a busca de uma mudança nas relações entre o cidadão e poder público no Brasil. Comparecer às urnas a cada dois anos não basta para que uma parte da população se sinta partícipe das decisões dos poderes, legalmente constituídos, porém fragilizados. Atravessamos certamente uma crise de representatividade e de responsabilidade (de todos os atores). Isto nos coloca algumas indagações: Quantos de nós estão dispostos a analisar a totalidade dos fatos? Quantos realmente motivados por razões maiores e mais nobres que seus interesses pessoais? Quem, dentre os manifestantes, está disposto a participar da resolução dos problemas? Quem está disposto a mudar sua própria forma de pensar e agir? Abrir mão, em alguns casos, de seus próprios privilégios? Quem investe numa real mudança e no surgimento de novas formas de diálogo entre o indivíduo e o poder? Quem propõe caminhos claros para esta mudança? Como chegar a uma síntese que revele nosso real mal estar? Repensar a sociedade requer repensar as nossas próprias convicções, alterar nossas posturas. São estes pontos fundamentais que nos assegurarão o direito de exigir. Fazer isto requer esforço, dá trabalho. Não é tão simples quanto criar um hashtag ou uma palavra de ordem. 

Por ora, há no ar uma crítica de pouca profundidade, simplificação das idéias, falta de conteúdo e fulanização das responsabilidades. Um exercício desta, assim chamada e ainda frágil, democracia digital. Esta nova democracia que tem como maior atributo sua rapidez. Que é ao mesmo tempo a razão da sua da sua maior fragilidade, a superficialidade, a inconsequência e o anonimato. Não dá para produzir uma boa síntese em 118 caracteres. E quantos irão se dar ao trabalho de ler mais que 30 linhas na web? Aonde, portanto, estará a crítica profunda e uma proposta realmente transformadora? Certamente algumas idéias já estão na web, mas quantos terão interesse,  capacidade, vontade  ou paciência de acessa-la? 

Estamos em busca de um novo pacto social. Em busca de uma urbe ressignificada. Em busca de melhores e mais prazerosas condições de trabalho e produção. Quais tentativas concretas surgiram desta busca? As ONGs que, imaginávamos,  seriam um elemento facilitador para este diálogo se agigantaram, se especializaram, encontraram fontes de financiamento conflitantes ou suspeitas e passaram a ocupar um espaço muito semelhante às pesadas instituições que pretendiam criticar. Como avançar a discussão numa direção precisa? Transformar simples queixas em algo que traga, de fato, uma mudança de rumo da política e do convívio social. Para isto, com certeza não bastará estarmos o tempo todo na rua ou criarmos um hashtag.

A questão é que há muito mais em jogo do que aquilo que transparece. Para resolver os problemas, mudar a forma de atuação dos poderes é necessário desmascarar o poder real escondido atrás destes governos, legalmente constituídos, porém não representativos. Isto exige mudarmos nossa forma de pensar e agir, chegar de fato a uma síntese que explicite as razões da atual crise de representação, produção e poder. Por enquanto, consumimos, e nos consumimos em queixas estéreis sabendo que apostamos no nada ou na permanência com apenas uma troca de nome ou de sigla. Talvez movidos por uma forma de esperança que, este nada, ganhe magicamente um significado. 

É comodo criar um hashtag. É comodo postar uma fala indignada no Face. É comodo pedirmos que cabeças rolem. É comodo escolher uma nova cabeça para ocupar o lugar da que rolou. É comodo transferir aos outros uma responsabilidade que também é nossa. Há portanto algo a ser explicado e explicitado em tudo isto. Assisto e acompanho a este embate sem ter respostas convincentes. Há ainda muita coisa a ser apurada para entendermos  e modificarmos realmente a amplitude deste jogo. Quem irá dar algo além deste primeiro passo?

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