Moradores derrubam muro na Favela do Moinho

Sugerido por implacavel

Da Agência Brasil

Moradores da Favela do Moinho derrubaram muro para construção de rota de fuga em caso de incêndio

Camila Maciel

São Paulo - Uma rota de fuga para os moradores da Favela do Moinho, localizada sob o Viaduto Orlando Murgel no centro da capital paulista, foi feita hoje (3) com a derrubada de parte de um muro de contenção, com cerca de 3 metros de altura, que circunda a comunidade. Pretende-se que eles tenham pelo menos mais uma forma de sair da favela, especialmente em caso de incêndio. Atualmente, existe apenas uma saída da comunidade, pela qual é preciso passar pelos trilhos de linha de trem.

Cerca de 400 famílias moram na área, segundo a associação comunitária. A comunidade foi atingida por dois grandes incêndios nos anos de 2011 e 2012. No primeiro incêndio, 1,2 mil famílias ficaram desabrigadas e duas pessoas morreram  e no do ano passado, pelo menos uma morte foi registrada e mais 300 pessoas perderam suas casas.

De acordo com a líder comunitária Alessandra Moja, 29 anos, o muro foi construído após o primeiro incêndio com a justificativa de que seria por medida de segurança. "Existia um prédio do outro lado do muro, que também estava ocupado, e foi esse prédio que pegou fogo. Falaram que era preciso construir, porque iam demolir o prédio", explicou. Hoje, no entanto, ela considera que o muro é um dos principais fatores de insegurança para os moradores. "O Corpo de Bombeiros já deu um laudo [dizendo] que se pegar fogo no começo da comunidade, morre todo mundo queimado".

O trabalho de derrubada começou por volta das 11h30. Com marretadas, os moradores abriram as primeiras passagens. Cerca de meia hora depois, a Polícia Militar chegou ao local com cerca de 20 homens. Segundo os policiais responsáveis pela operação, que não quiseram gravar entrevista, eles receberam um chamado pelo 190 e foram ao local verificar a denúncia. A chegada da PM, que entrou na comunidade com carros em velocidade, provocou apreensão na comunidade.

Alessandra apresentou uma liminar conseguida na Justiça em março deste ano que autoriza a prefeitura a derrubar o muro. "Ficaram de quebrar em julho, mas não fizeram e não deram resposta. Derrubar não é ilegal. Ilegal é ele estar aí", criticou. Ela disse que o ato de derrubada do muro feito hoje, além de ser emergencial pela segurança da comunidade, é também uma forma de pressionar o Poder Público por outras melhorias importantes, como a implantação de um sistema de água e esgoto. Após dialogar com moradores, a polícia deixou o local.

Para as lideranças da comunidade, a área tem grande interesse do mercado imobiliário, pois está situada em um terreno valorizado da região central. "A gente também tem direito à cidade. Não é porque somos pobres que temos que viver na periferia. Aqui, a gente tem trabalho, escola, creche, posto de saúde. Moro aqui há 18 anos, não são 18 dias", disse Alessandra.

A mesma opinião é compartilhada pela moradora Josefa Flor da Silva, 62 anos, que vive há 12 anos na Favela do Moinho. "O que querem mesmo é tirar a gente daqui. Pobre não pode morar em lugar bom", disse. Apesar de a justificativa apresentada para a construção do muro ter sido a segurança da própria comunidade por causa da demolição, ela acredita que a real motivação era garantir que o terreno do prédio não seria novamente ocupado. "Primeiro fizeram de madeira e depois subiram o muro. Passei por dois incêndios e nada mudou aqui".

Alessandra explica que a proposta de ocupação da área que é isolada pelo muro será apresentada amanhã pela comunidade na primeira reunião do grupo de trabalho (GT) formado pelas famílias da Favela do Moinho e por órgãos da gestão municipal, entre eles a Secretaria de Habitação (Sehab), a subprefeitura da Sé, a Secretaria de Relações Governamentais (SMRG) e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SMDU).

A prefeitura informou, por meio de nota, que é preciso aval dos laudos dos órgãos envolvidos para derrubar o muro, são eles: Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Eletropaulo e Corpo de Bombeiros e disse que a prefeitura e o Corpo de Bombeiros fizeram uma vistoria no local na última quarta-feira (31) para estudar a abertura de rotas de fuga na favela.

Segundo o governo municipal, o processo de desocupação da Favela do Moinho teve inicio em 2012, após o primeiro incêndio. Na época, foram cadastradas 810 famílias e, desse total, cerca de 50% recebem auxilio-moradia e aguardam as unidades definitivas. Foram oferecidas moradias definitivas na Ponte dos Remédios, na Lapa, cujas obras estão em andamento.

Ainda não há uma definição sobre a destinação a ser dada para a área, que hoje é ocupada pelas famílias. O terreno, que é 100% cercado por trilhos, é titulado em nome da União. A rede ferroviária atualmente é operada pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e, segundo a prefeitura, não há nenhuma utilização viável para a área que não seja para atividades decorrentes do funcionamento do sistema.

Edição: Fábio Massalli

Moinho.jpg

Nenhum voto
7 comentários
imagem de Leonardo Ja.
Leonardo Ja.

Segundo os lulistas, são "coxinhas" manipulados, tentando desestabilizar o governo de Haddad. Vandalismo puro!...

 

Não se trata de tomar o poder, mas sim de destruí-lo. O Estado é irmão gêmeo do Capital.

 
imagem de Antonio C.
Antonio C.

Moradores da Favela do Moinho 1000 X 0 Brazilian Middle Class Revolt Black Kombi Blocs 

 
 
imagem de Ivan de Union
Ivan de Union

O que vem a ser um "muro de contencao de favela"?????????????

Eh obvio e evidente que em caso de incendio eles nao teriam muita chance de escapar sem mortos ou feridos.  Mas acho que derrubaram o muro pela razao errada.

 
 
imagem de Dê

Ivan...muro de contenção de favela é a forma "bonitim"......de se dizer  segregação!!!

 

Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar. Carlos Drummond de Andrade

 
imagem de RodB
RodB

Não ter pra onde correr em caso de calamidade não é razão suficiente pra remover um muro?

 
 
imagem de Ivan de Union
Ivan de Union

O que vem a ser "muro de contencao de favela" e porque foi construido pra comeco de conversa?

 
 
imagem de Luiz C
Luiz C

Não sei se vocês conhecem o lugar, mas eu passo lá todo dia e inclusive passei por lá enquanto ocorria o primeiro incêndio e testemunhei a construção do tal muro. Esssa favela fica entre duas linhas da CPTM - as linhas 7 e 8. Para as pessoas sairem, existe uma passagem em nível na linha 8, que fica embaixo do viaduto orlando mungel (acho que é esse o nome), que liga as avenidas Rudge e RIo Branco. 

 

O primeiro incêndio que teve ocorreu em um prédio abandonado que fica ao leste da favela, também cercado pelas linhas da CPTM. O incêndio foi feio, a ponto de você conseguir ver a fumaça de vários pontos distantes da cidade. Como o prédio ficou instável após o incêndio, resolveram derruba-lo, e para isso, construíram esse muro (já que era um prédio grande). Hoje você só tem lá um terreno vazio cercado por trilhos e lotado de escombros.

 

 

Se de fato é ou não um muro de contenção de favela hoje, eu não sei. Mas a princípio, não era.

 
 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!