O revisionismo jornalístico do poeta Baudelaire

Por jc.pompeu

Comentário ao post "Os Ninja no Roda Viva: o futuro explodindo o velho"

Baudelaire considerado o poeta crítico arauto da modernidade que vingara na passagem do século xix para xx explodindo/implodindo o velho regime e inaugurando o futuro burguês-socialista também teve um momento político imprensa libertária subversiva "mídia ninja" pautada no calor frenético dos acontecimentos da revolução de 1848, na Paris da reincidente velha monarquia do rei Luís Felipe, com os banais recursos tecnológicos e materiais de se fazer jornal naquela época que guardam certa relação do "entusiasmo romântico alemão" com os jovens ativistas de hoje produtores dessa nova mídia internet em redes sociais abertas e nos coletivos culturais de accountability originalíssimo de contabilidade sofisticada sistêmica onlineque rodou e rodou e rodou a cabeça tonta dos jornalistas de mercado acostumados a fazer contas a receber PJ pela velha matemática caminho suave do ministro desonerativo 2+2=Mantega...

Eis um revisionismo jornalístico do poeta Baudelaire afetado por suas relações pater família e conflitos patronais, por ocasião da revolução de 1848, a primeira revolução socialista moderna.

"Quanto a Charles Baudelaire, ele se consola de não ter conseguido aproveitar a revolução de 1848 para abater Aupick (seu odiado padrasto e general francês que roubara a mãe do menino mimado edipiano), ao constatar que o governo provisório, formado há pouco, instituiu, além do sufrágio universal (ideia esquisita!), a liberdade de reunião e de imprensa. Não há mais censuras, caução prévia, imposto do selo! De repente, Baudelaire e Champfleury decidem fundar um jornal. Não são os únicos. De todas as partes, folhas efêmeras vêm a lume. A que Baudelaire e amigos têm em mente já está intitulada, Le Salut Public, e sediada: na sala do segundo andar do cafè Turlot fica a redação, onde os colaboradores se sentirão em casa. E o financiamento? Todos esses jovens estão à dependura. Mas, raspando o fundo do baú, Charles Toubin e o irmão acabam por juntar noventa francos.

O primeiro número, redigido no botequim em menos de duas horas, com tiragem de quatrocentos exemplares, é confiado a vendedores voluntários (operários sem emprego) que se espalham pela cidade. Porém, não voltam com a féria. Guardaram-na para eles. Por ocasião do segundo número, Coubert faz uma vinheta representando um homem de blusão, cartola e que, de pé numa barricada, segura numa das mãos um fuzil e, na outra, uma bandeira trazendo esta divisa: Voix du peuple, voix de Dieu (Voz do povo, voz de Deus). Baudelaire, que mistura à vontade poesia, religião e revolta, vai levar um exemplar ao arcebispo e um outro a Raspail, o fogoso redator de L'Ami du peuple. Em seguida, com camisa de proletário, dirige-se para a rua Saint-André-des-Arts a fim de ofertar o seu jornal aos passantes. Uma jovem disfarçada de operária faz o mesmo na rua dos Saints-Pères. Ambos recolhem uns quinze francos. Em vista da modicidade do capital restante, fica decidido que não haverá terceiro número e que o lucro da venda servirá para pagar um banquete, limitado a cinco convivas, num restaurante da rua de Beaune.

[...]

Nesse intervalo, o ardor republicano de Baudelaire se arrefeceu. A tal ponto que ele aceita ir para o interior dirigir um bissemanário conservador recém-criado: Le Représentant de l'Indre. Mas, já na sua chegada a Châteauroux, ele indispõe os principais donos dessa publicação, reunidos para um banquete de boas-vindas ao manter durante a refeição toda um silêncio desdenhoso. À sobremesa, como um conviva observa: "Mas o senhor Baudelaire não diz nada", ele explica: "Senhores, não tenho nada a dizer. Não vim aqui para ser o empregado das suas inteligências?". No dia seguinte é uma viúva de certa idade, diretora da tipografia do jornal, que tem um sobressalto de indignação, ao ouvi-lo pedir: "Onde está a aguardente da redação?". Quanto aos sábios abonados de Le Représentant de l'Indre, eles esfregam os olhos ao lerem, num artigo intitulado "Actuellement", esta afirmação atribuída ao novo chefe da redação: "Quando Marat, aquele homem doce, e Robespierre, aquele homem limpo, pediam, respectivamente, 300 mil cabeças e a permanência da guilhotina, eles obedeciam à inelutável lógica do sistema."

E esta outra, segundo a qual a insurreição é "legítima - como o assassínio". Pouco depois, Baudelaire, o amigo dos agitadores socialistas, é secamente despedido pelos seus contratantes e volta para Paris."

Baudelaire, de Henri Troyat (3,00 reais num sebo do centro da cidade).

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1 comentário
imagem de Gilberto .
Gilberto .

Bom, poética comparação, sem dúvida. Mas Baudelaire conseguiu bem menos durante toda sua vida do que a Mídia Ninja conseguiu até agora.

Não conseguiu nem realizar o seu maior desejo: Publicar a versão final de Flores do Mal. 

 

Gilberto .

 

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