A aposta na violência e no individualismo

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Percebo uma tendência a retomarmos, na crítica aos acontecimentos recentes, o conceito de classes sociais. Embora reconheça a validade deste conceito, a sua eficácia para entender determinados problemas, é precoce a sua utilização para entender as manifestações de junho. Não temos ainda a dimensão exata e inconteste da participação efetiva que tiveram as várias classes nas manifestações.

Criou-se de repente um certo consenso, não sei baseada em qual verdade incontestável, apontando a "classe média" como responsável pelas manifestações. Me pergunto a qual classe pertencem os formuladores deste consenso? Bom, temos vários problemas aqui. De qual classe média estamos falando? Estabelecemos quem é esta classe, somente pelo teto de renda baseado nos padrões (diferentes) do IBGE, IPEA, DIEESE? Incluimos outros fatores como idade, grau de instrução, nível de participação social, ocupação profissional, etc?

A maior parte da população brasileira, independente de classe ou origem, é conservadora, violenta, desagregada e individualista. Poderíamos, aqui sim, encontrar as razões desta violencia como resultante de uma luta de classes. O problema é que, neste momento, compramos todos a ideia da diferença e a da "razão" violenta e excludente da classe dominante brasileira. Encontramos no nosso maior problema, a solução. Tiro esta conclusão à partir das estatísticas que nos colocam entre os povos mais violentos do mundo. Encontraremos alguns indícios do nosso individualismo ao observarmos os limites entre o espaço público e privado entre nós. Não somos capazes p.e. de conservar nossas calçadas pois elas estão situadas nesta fronteira. Não somos capazes de cuidar para que nosso lixo não se espalhe pela rua. Não somos capazes de apoiar as nossas escolas públicas. Achamos que pagando impostos (os que realmente pagam), todo resto deve ser resolvido pelo estado. Em todos os países que "dão certo", o envolvimento dos indivíduos com o público é grande. O resto, os resultados desta postura, penso eu, é decorrência das nossas próprias escolhas ou aceitação pacífica dos caminhos de desenvolvimento que nos foram oferecidos.

Quais foram as nossas escolhas? O crescimento explosivo dos centros urbanos, sem planejamento e sem apoio suficiente aos que chegam. É evidente que eles criaram novas oportunidades, empregos e riqueza. Mas é obvio também que nos trouxeram o conflito, o estranhamento, o isolamento dos indivíduos e falta do investimento necessário para combater estes males. A mobilidade imensa de uma população que não se sente pertencente, acolhida e  não estará, em função disto, comprometida com o futuro do lugar onde (sobre)vive, inviabiliza as cidades e o país. Podemos observar isto nos imensos problemas para escola em lidar com crianças provenientes de famílias sofridas, desestruturadas e com pouco ou nenhum apoio para que sua integração seja facilitada. Na falta de tecido social nos bairros, ricos ou pobres, que se verifica no total descaso verificado na maior parte dos espaços públicos. Nos episódios de violência familiar causados por esta falta de inserção e busca de condições de sobrevivência. Se não fomos nós que escolhemos isto, aceitamos. O que dá no mesmo.

Os problemas de São Paulo e de todas as grandes cidades brasileiras é o mesmo. Compostas por gerações vindas de todas as partes do país ou de cidades menores do estados sem que se assegurem as condições necessárias para sua real inserção, assimilação e convívio humano. É um trabalho árduo corrigir todas estas falhas pois permanece um alto índice de moblilidade, embora as populações estejam mais estáveis. Como criar este convívio, como estabelecer metas decentes de inclusão, não apenas econômicas mas também culturais, de real pertencimento, de perspectivas de um futuro onde a violência seja um fato ocasional e não uma das formas de reagir individualmente a uma situação de violência generalizada? Violência verificada na família, nas brigas de rua, no trânsito, na aflição cotidiana para resolver os problemas mais banais, nas péssimas condições de bem estar oferecidas pela cidade, verificadas no transporte, na falta de lazer, no acesso à cultura, à educação, à saude.

Quando descobriremos que não construiremos nada enquanto não formos iguais?   Iguais nos direitos, no acesso aos serviços básicos, na condição digna de vida, na igualdade de oportunidades oferecidas, na inserção plena e participativa de todos.

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