Re: Os Ninja no Roda Viva: o futuro explodindo o velho

imagem de ArthurTaguti
ArthurTaguti

"Há uma salada ideológica até na cabeça de quem tá na rua. Muitas delas enquanto rechaçam o partido de esquerda ou a bandeira vermelha na manifestação, são favoráveis a estatização de bancos, reforma agrária, distribuição de renda, saúde pública"

Muito interessante esta assertiva de um dos Ninjas, é mais ou menos isto que grande parte dos comentaristas do blog sustentam desde que as manifestações eclodiram. A realidade ainda está a ser construída e é de uma miopia muito grande usar de reducionismos para classificar manifestantes como reacionários, coxinhas, e por aí vai.

Grande parte destes cidadãos rechaçam sim partidos, PT, MST, esquerda e por aí vai, simplesmente porque aprenderam isto repetindo cantilenas da mídia oligopolizada. Por outro lado, assumem e defendem posições claramente esquerdistas, tendo uma ideologia muito aproximada da social democracia/Welfare State.

Esta esquizofrenia política parece até estranha a primeira vista, mas faz todo sentido depois de uma análise mais detida. Falta arcabouço teórico para estes jovens incluirem seus desejos e suas demandas em arquétipos direita-esquerda. Isto significa que a direita, representada pela grande mídia, tem sido muito mais competente que a esquerda em impor o seu ponto de vista.

O desserviço e a irresponsabilidade que se prestam intelectuais, jornalistas e até políticos em propagar a era do fim das ideologias, propicia o surgimento de jovens que detestam bandeiras vermelhas, mas defendem pautas esquerdistas; que se utilizam de simbologia fascista, mas ao mesmo tempo pedem mais democracia e mais participação popular.

Esta molecada é fruto de um ambiente pós-URSS, com o capitalismo considerado como única alternativa, com PT e movimentos sociais ("vermelhos") sendo criminalizados na mídia pelo "mensalão", com o deus consumo por todos os lados, com Cuba sendo retratada unicamente como um país atrasado em que - horror dos horrores! - bugigangas tecnológicas de última geração não podem ser consumidas.

Só que, mesmo em uma época em que a esquerda é enxovalhada pela grande mídia, que a liga sempre que pode aos conceitos de pelegagem, vandalismo, populismo bolivariano e ditadura cubana, a ideia de uma sociedade igualitária, das políticas redistributivas e da maior participação popular consegue ganhar respaldo da molecada,

Daí, mesmo odiando Cuba, socialismo, bandeira vermelha, MST, não importa. Se defendem bandeiras progressistas, defendem ideias de esquerda. A bandeira da igualdade é o signo identificador da esquerda, como já dizia Bobbio. Difícil agora é convencer os partidos progressistas tradicionais e os seus militantes que esta é uma realidade nova, e por esta razão novos discursos terão que ser construídos para atrair estes jovens para a esquerda.