Política: A Ação dos Disparadores Sociais

SUGESTÕES DE “DISPARADORES”

 

Primeiro

1) Na avaliação de uma ex-secretária executiva do Ministério das Cidades (2003-2005),  batemos no teto: “Eu acho que eu não estou dizendo que não há o que fazer. Eu sempre vou achar o que fazer. Na ditadura, eu achava o que fazer. A gente ia e trabalhava com os moradores na periferia. Nós sempre vamos ter o que fazer. Nós batemos no teto. Nós batemos no teto da produção acadêmica. Nós batemos no teto dos movimentos sociais, nós batemos no teto das estruturas democráticas. Acho que nós precisamos reinventar a luta. Agora, a reinvenção desta luta tem que levar em conta a luta anti-capitalista.” (maio de 2010)

 

2) Um possível comentário explicativo, para início de conversa. Como o diagnóstico é coletivo, as fontes não foram identificadas.

Batemos no teto subindo por uma escada que nós mesmos ajudamos a construir. Essa escada é uma tremenda máquina social produtora de consensos. O Brasil é um deles: há quinze anos éramos uma “opção”, hoje nos tornamos uma unanimidade. Na opinião de alguns estudiosos, os degraus dessa escada são formados por dispositivos sociais, isto é, um conjunto de práticas e conhecimentos, cujo objetivo é governar, num sentido que se supõe útil, os gestos e os pensamentos dos homens. Para dar logo um exemplo forte, políticas públicas é o nome genérico de um destes dispositivos. Nelas encontramos bem agenciados todos esses elementos, inclusive a vontade e os meios de pô-los em prática em que se decompõem e se conjugam o governo (político) dos homens e o governo (administrativo) das coisas. Para nós que batemos no teto, será importante saber ao certo quando e como luta de classes e políticas públicas começaram a andar uma na direção da outra. Uma resposta histórica: quando, ao longo do processo constituinte de 1988, a relação de confronto e antagonismo com o Estado, que distinguia a esquerda social desde a ditadura, foi aos poucos se convertendo na luta por espaços públicos onde o poder de Estado pudesse ser compartilhado. O destino dos Conselhos Gestores de Políticas Públicas, e sua dezena de organismos assemelhados, é bem conhecido. O decisivo é que, uma vez com o pé neste e nos degraus subsequentes, não se pode mais chutar a escada, nem se quer. Àquela altura, qualquer controle social sobre o Estado, por menor que fosse, já era uma experiência fundamental para o aprendizado dos movimentos. E não só dos movimentos populares, que por definição não podem avançar sem conquistas.

O dispositivo “políticas públicas” se expandiu para além do seu núcleo duro originário, a chamada questão social. Um bom exemplo entre muitos, colhido por um observador na área de saúde mental. Aqui também ninguém é insano a ponto de não se desejar aliviar o sofrimento psíquico alheio mediante uma calibragem daqueles elementos constitutivos de um dispositivo social. Estamos falando de transtornos obsessivos, ou impulsivos, de comportamento. Não há quem não conheça ou ouviu falar dos incontáveis TOCs e TICs, das compulsões que atormentam os milhares de transtornados mentais que felizmente não se encontram mais confinados e circulam livremente entre nós. As condutas e os respectivos fármacos estão assim dispostos: os transtornados são convocados a cuidar ativamente do seu próprio malestar psíquico, deixando a condição de leigos passivos entregues à responsabilidade exclusiva dos médicos, para assumir a posição de protagonistas, e nessa condição se informarão mais sobre o seu estado, integrando inclusive associações que por sua vez pressionarão os governos, e indústrias farmacêuticas, por políticas públicas que os contemplem. Não fogem mais do tratamento, pelo contrário, são os primeiros a demandá-lo: deixam enfim sua condição de minoridade tutelada e estigmatizada, graças a um dispositivo maior, o da participação. Em sã consciência, quem poderia ser contra essa corrida rumo à moderação e à equidistância entre os extremos? Assim como não seria razoável menosprezar o alívio da miséria psíquica graças à participação do próprio indivíduo que sofre, tampouco se poderia negar que só a participação dos pobres traz consigo o verdadeiro alívio da pobreza. Ou qualquer outra situação de vulnerabilidade, incapacitação, risco, etc. As compulsões incessantemente mapeadas e multiplicadas pelos discursos da saúde mental são um desses “riscos”, tanto para os seus portadores como para os demais. Ao contrário dos perigos e das ameaças, os riscos não podem ser jamais anulados ou reduzidos. Por isso o transtornado precisa ser continuamente estimulado a produzir o seu próprio bem-estar psíquico. Sendo no entanto, por definição, um indivíduo refratário às mais elementares normas de equilíbrio, sua conduta errática requer um sistema permanente de auto-vigilância. Participação e segurança acabam assim convergindo.

Esse dispositivo se replica e multiplica, como sabem todos os que já foram um dia atropelados pela assim chamada abordagem da participação e do envolvimento comunitário, que caracteriza a bem conhecida profissionalização da sociedade civil, ela mesma um mercado de projetos em disputa, etc. Levando ao extremo essa hipótese acerca da escalada do consenso num país emergente, chegaríamos ao muro sobre o qual está apoiada a escada dos dispositivos sociais de participação, lá onde as pessoas não só toleram o intolerável, mas colaboram na fabricação do sujeito participante: a grande mutação gerencial que redesenhou a subordinação do trabalho ao capital, tão abrangente que até mesmo o novo ativismo empresarial pode ser encarado como uma extensão desse laboratório no qual o importante é estar de acordo, inclusive com a própria eliminação.

Se é fato que batemos no teto, não é menos verdade que nunca fomos tão participativos. Assim se completa a viagem redonda no interior da fantástica fábrica brasileira de consensos. Uma escalada: nos anos 80, nunca fomos tão engajados; desde o processo constituinte, nunca fomos tão participativos; com o “engajamento” das empresas socialmente responsáveis somando-se à malha cada vez mais fina da rede de políticas públicas, pode se dizer que nunca nos governamos tanto. Resta saber quais formas anti-capitalistas a luta precisará assumir para abrir esse ferrolho.   

 

Segundo

1) Na onda de choque do Pinheirinho, um lutador social reflete sobre as ironias da história recente:

“A ação do dia 22 de janeiro mostrou mais do que uma negativa do Estado em oferecer direitos básicos a uma parcela carente de sua população, pois a truculência da reintegração é o próprio expurgo desses direitos pelo Estado Brasileiro. A ação, antes de ser uma reintegração de posse, foi a total obliteração de direitos básicos desses cidadãos e, mais do que isso, uma afirmação por parte do Estado brasileiro que certas pessoas encontram-se fora da esfera da cidadania. A prefeitura ao se negar negociar com essas famílias – já que disse publicamente que só compareceria ao encontro programado entre todos envolvidos se obrigada pela Justiça –, se absteve de suas funções legais de fornecer seguridade mínima para essa população e confirma, de modo subliminar, que a população carente do local nunca foi considerada habilitada para participar da cena política. Essa quebra do Estado de Direito, perpetuado de modo unilateral, abre precedentes para uma segregação entre dois tipos de cidadãos: aqueles representados e os outros sem voz. O mais trágico de tudo é que estamos retirando da cena política os membros que ajudaram a implementar o ideal participativo no país. (...) Somos todos, de alguma forma, devedores deste tipo de movimento quando, por qualquer motivo, reclamamos nossa condição de cidadãos frente ao Estado. Assim sendo, a indisposição da prefeitura para o diálogo e a imensa força de repressão chamada demonstram o total desconhecimento por parte do poder público do jogo democrático e reforçam a tese de descaso, omissão e repressão de direitos. Segundo leis estatuídas, a população deveria ser avisada com antecedência necessária de qualquer reintegração de posse, deveria ter tempo hábil para retirar suas coisas, deveria ter o direito a ser encaminhada em condições humanitárias a abrigos apropriados. Não poderia jamais ser submetida a tratamentos cruéis ou degradantes, como vista na abordagem da PM. Ninguém pode ser privado de sua identidade jurídica, ser impedido de se identificar ou ser preso arbitrariamente devido a esse fato. Durante a desocupação deveriam estar presentes os Conselhos Tutelares, os Centros de Referência de Assistência Social, o Conselho de Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, além de serviços de saúde e educação.”

 

2) E um ativista dos Direitos Humanos, revê seu discurso:

“Participando do consenso da política contemporânea, o discurso dos direitos humanos legitima, paradoxalmente, tanto a resistência do indivíduo frente às violências sofridas quanto a política dos estados nacionais, os maiores violadores de direitos. Desta forma, o militante e o ministro, o sem-terra e as forças de segurança, o destituído e a grande mídia são seus usuários. A idéia fundamental deste discurso é a de que há um grande contingente de indivíduos que sofrem alguma injustiça ou se encontram carentes em suas necessidades básicas. A partir desta condição social, o discurso dos direitos humanos autoriza o “império da lei”, através de seus “tribunais” e de “cada órgão da sociedade”, a “decidir sobre os direitos e deveres” das vítimas de violações. (...) O novo modo de agir na política, corroborado pelo discurso em questão, vem substituindo há algumas décadas o movimento social organizado independente do ordenamento dos estados de direito, substituindo também as formas tradicionais da democracia representativa. Em lugar da ação política, os novos atores sociais são instados a fomentar, no teatro de fabricação dos resultados, a governança do sofrimento através de uma mudança social contabilizada nos índices de desenvolvimento da humanidade. (...)Democracia e estado de direito tornaram-se praticamente uma única coisa, com os direitos configurando o próprio sentimento coletivo. O jurídico diz ao legislativo o que deve e o que é melhor a ser feito, como se fosse a incorporação da vontade da nação e da sabedoria sobre as regras e leis. É a marca da submissão do político ao ordenamento, justificada pela idéia de que a regra é preferível ao autoritário, pois possibilita a liberdade civil. As práticas sociais são tratadas como um caso de justiça, objetivadas em processo judicial ou alguma política pública. Na democracia consensual, fundamentada no discurso dos direitos humanos, os danos sofridos pelo sujeito político são objetivados por meio do tratamento da falta, com políticas positivas de reconhecimento e diminuição da injustiça. O sujeito ativo da democracia é identificado com a parte da sociedade capaz de se envolver com a solução do problema.”

 

 

Terceiro

Professora de Ciências Sociais numa Unisquina encontra trabalhadores pobres que voltam a estudar:

“Eram homens e mulheres adultos, solteiros, casados, vários deles homossexuais assumidos (o que pode ser um indicador de uma certa abertura na mentalidade). Mas havia também vários representantes do pensamento conservador, inclusive militantes católicos e fiéis de igrejas evangélicas, que defendiam valores familiares tradicionais, o empreendedorismo (usando outra palavra do jargão atual) individual, o recrudescimento da lei penal e assim por diante. Tinham em comum uma vida fundada no trabalho e desempenhavam funções como ascensorista, motoboy, policial militar, atendente de telemarketing, supervisor de telemarketing, cabelereira, manicure, motorista de ônibus, condutor de trem do metrô, funcionário público de nível médio, trabalhador da Fundação Casa, funcionário da penitenciária, bancário, trabalhador de organização não-governamental com adolescente (centros da juventude e semelhantes), cozinheira, pesquiseiro (coletor de dados para pesquisa de mercado), segurança, trabalhador de escritório, auxiliar de enfermagem, professor de nível médio, inspetor de aluno em escola pública ou privada e até um coveiro, que não escondia de ninguém sua ocupação estigmatizada. Havia também alguns aposentados, homens e mulheres. A maioria não tinha filiação ou orientação político-partidária definida, nem mesmo se interessava pelo tema. Mas alguns eram militantes do Partido dos Trabalhadores (assessores parlamentares, nas Câmaras de Vereadores da capital e cidades vizinhas) e outros partidos e agremiações (PSOL, PCB, Causa Operária). Havia também um ou dois militantes pelos direitos das crianças e adolescentes e alguns auto-intitulados jovens participantes de grupos de hip hop e outros. Além dos pesquiseiros, eram os militantes de partido os mais esclarecidos ou, pelo menos, informados sobre o que se podia esperar de um curso de Ciências Sociais. Vários deles verbalizaram, em algum momento, que estavam lá à procura de um conhecimento teórico que lhes faltava na prática. Já os militantes de movimentos sociais e juvenis (havia um rapaz ligado ao Movimento dos Sem-Teto e pelo menos dois membros de grupos de jovens), pelo menos no início, estavam à procura apenas do certificado, uma vez que consideravam que a faculdade nada poderia acrescentar de importante ao conhecimento prático que já detinham. Um dos rapazes verbalizou exatamente essa idéia para mim, numa de nossas conversas, no metrô, durante o trajeto de volta para casa; mas naquele momento, ele já se dizia encantado com a faculdade e com o curso, e percebia o quanto estivera enganado.

O mesmo não aconteceu, contudo, com o militante do Movimento dos Sem-Teto, que cumpriu de maneira burocrática e pragmática as obrigações escolares durante os cinco semestres que freqüentou antes de abandonar o curso. (...) Não só as experiências de trabalho, o que já seria muito importante, foram objeto de outras interpretações. Aqueles alunos, em inúmeras e inúmeras ocasiões, verbalizaram que estavam conhecendo “coisas”, que não sabiam antes, a respeito do “mundo” e da “realidade”, da sociedade, enfim. Talvez a principal descoberta tenha sido a de que existe uma “coisa” chamada sociedade, que, se não determina os destinos dos indivíduos, ao menos estabelece as condições históricas e sociais das existências individuais. A descoberta do social possibilitou que aquelas pessoas reinterpretassem suas trajetórias de vida em conexão com a conjuntura histórico-social. (...)

Aquelas pessoas, ou parte delas, pelo menos, conseguiram, mediante o exercício do pensamento, reinterpretar sua posição no mundo, percebendo as conexões entre situações e experiências individuais e conjuntura histórico-social. A minha hipótese a esse respeito é de que isso só foi possível porque os discursos do poder contemporâneo, que prescrevem um tipo de relação entre indivíduo e sociedade, não haviam atingido completamente esse segmento sui generis da sociedade. Pessoas pobres, com “dinheiro contado”, tinham acesso apenas parcial ao mercado de consumo – e ao modo de pensar – propagados pela indústria cultural. Eram adultas, já haviam aprendido a resistir aos apelos da propaganda, não usavam roupas de grife, não navegavam pela Internet. Moradores da periferia, mas que, por algum motivo, se mantiveram afastados dos movimentos sociais urbanos, de reivindicação de direitos e dos sindicatos e dos partidos. Mas também não eram tão pobres a ponto de preencherem os requisitos para se tornarem beneficiários de programas sociais, não se tornando objeto, portanto, do discurso das políticas públicas governamentais e não governamentais. Ou seja, parece que essas pessoas não foram atingidas, ou totalmente atingidas, pelo discurso do poder que coloca o indivíduo como responsável pela solução dos seus problemas e os da comunidade, transformando a cidadania em atuação social, isto é, em atividade e negociação dos indivíduos visando interesses particulares.

O discurso do protagonismo, que nega a existência do social, apresentando a sociedade como um aglomerado de indivíduos particulares em atividade e em negociação entre si, não se mostrou suficientemente integrador a ponto de impedir a descoberta do social e o exercício do pensamento por aquelas pessoas. Relativamente distantes do individualismo, padronização e coisificação promovidos pela indústria cultural, e sem participar quer das “tradicionais” quer das “novas formas de política”, essas pessoas não se transformaram em objetos de discurso do poder hegemônico na atualidade, o que lhes possibilitou inusitada abertura ao conhecimento e ao exercício do pensamento. Digo isso com certo receio, mesmo porque o simples fato de localizar a falha no alcance de um discurso, que se deseja abrangente e inclusivo, pode ser o anúncio da possibilidade de uma reação do próprio discurso no seu movimento de integração total. Cabe salientar que não se trata, absolutamente, de afirmar a formação de sujeitos desconectados com a ordem simbólica do social, mas de identificar a não-plenitude do(s) discurso(s) do poder. O não-alcance, ou a não-plenitude, do discurso do poder pode ser mais bem percebido pelo seu contrário, isto é, alguns alunos – aqueles que já participavam de ONGs e partidos políticos antes de entrarem para a “facul” – certamente se transformaram durante aqueles seis semestres, mas não abandonaram suas convicções iniciais a respeito da necessidade da atividade individual no âmbito da política pública.”

 

Quarto

Movimentos, poder popular, saber, governo, etc.

1) Recordações de um veterano:

“A esquerda conhece muito pouco o que chamamos genericamente de governo (...) Quando Lula se candidatou ao governo de São Paulo, em 1982, tínhamos no PT de São Paulo um grupo de profissionais que se dedicaram a elaborar o programa de governo. O grupo era dividido em “Setoriais” (energia, meio ambiente, saúde, educação, finanças, etc) e cada Setorial tinha um coordenador. Jamais vou me esquecer a forte impressão que aqueles debates me deixaram. Enquanto a universidade apresentava um forte declínio da capacidade instigante e criadora (como resultado da ação da ditadura sobre ela) , nos Setoriais do PT o que se verificava era o desenvolvimento de conhecimento novo, profundamente engajado na realidade social e política e atualizado tecnicamente. Na verdade, o partido serviu como aglutinador de grupos e indivíduos que vinham de práticas muito diversificadas nas periferias urbanas, nas comunidades eclesiais de base, no funcionalismo público, nas universidades.”

 

2) Dilemas da nova geração:

“Agora mesmo a gente está produzindo um projeto de uma padaria comunitária para o MST, numa das obras novas. E há uma moça do movimento que está fazendo as compras dos equipamentos para a padaria: forno, fogão, pias. Conseguiram um financiamento do Ministério do Desenvolvimento Solidário para isso. E aí eu liguei para uma colega, uma liderança do MST, porque eu não tinha o telefone dela. E ela falou: “Estamos aqui, agora, fazendo uma ocupação no prédio da Votorantim em São Paulo. Vou ver se eu acho ela aqui, a Natasha”. Depois ela me liga: “Olha, a Natasha está na delegacia, foi presa”. Nós estávamos aqui projetando e dependíamos de uma informação de uma moça que estava numa situação de conflito tal que está na cadeia agora. Vamos comprar como o forno, o fogão da padaria?

Nessa luta, evidentemente, há graus de compromissos diferentes. Não se pode dizer: “O nosso compromisso como assessor técnico é muito mais light. A gente vai lá, nos entusiasmamos, depois damos depoimentos para vídeo e tal e o pessoal está na paulada, apanhando, sofrendo”. Há formas diferentes de vínculos que as pessoas têm com a luta popular. Só que, acredito, se não houvesse formas diversificadas de se atuar junto ao movimento, seria muito mais difícil chegar a alguns resultados interessantes que o movimento tem alcançado nas suas lutas e nas suas experiências práticas. Porque só com ocupação de terra, atividades de formação, programas – que são fundamentais que aconteçam – não há uma materialidade física desse poder popular. O poder popular precisa fazer coisas, precisa mostrar do que é capaz. Há uma dimensão técnica, organizativa, produtiva, formal, estética, enfim, que envolve o movimento. E há pessoas que apóiam, há os agrônomos que ajudam a fazer assentamento,  há arquitetos que também estão apoiando essa experiência. E se esses arquitetos também não têm outro tipo de formação, de conhecimento, de experiência comum com os movimentos populares, ou de experiências outras no entendimento da cidade, da arquitetura, esse diálogo fica muito restrito, muito limitado e até impossível de acontecer, porque deixa de ser um diálogo. Quer dizer, não há alteridade, não se cria uma dinâmica de intelectuais e técnicos que estão organicamente apoiando o movimento. O movimento fica vivendo por si. Se não há alguns agentes externos que vão cutucando, qualificando, aprendendo nesses processos, esses processos tendem a se reduzir a experiências muito pontuais, muito limitadas.

É uma pergunta que a gente se faz o tempo todo: qual o nosso papel? Nós somos movimento? Nós não somos movimento. Trabalhamos com o movimento como? É uma assessoria profissional ou militante? Nós somos técnicos ou nossa técnica é política? É um dilema. E é nesses momentos-limites, da moça que está na cadeia agora e que ia passar uma informação pra gente, ou do outro que foi assassinado, que a gente pensa: “De fato nossa situação é um pouco mais cômoda do que a deles”. Mas também, se nós, técnicos de todas as áreas, não os estivéssemos apoiando, diversas das experiências fundamentais para que eles cresçam como organização capaz de pensar um outro Brasil não estariam acontecendo. Porque é preciso mostrar que se pode fazer experiências que são muito melhores do que as do governo e do capital. Sem isso, não teriam muito a dizer sobre o que pode ser o futuro do país.”

 

3) Recordações de uma travessia de classe:

Minha militância reduziu-se a não ter dinheiro desde 2008, quando me desliguei da base do MST e dava, pra mim mesmo, por encerrado um ciclo. Espero que  a pindaíba não dure e eu entre logo no doutorado e prolongue o que aprendi. É decisão de algum tempo já experimentada, e ratificada, que minha contribuição dentro do MST tinha de ser na base da organização, fora eu fico um pouco desnorteado.(...)Também nunca pude curar-me do Movimento Sem Teto do centro de São Paulo, e ter ingressado nessa militância coletivamente e a partir da universidade, realizando o voluntarismo do meu círculo de amigos, concretamente. Nós chapávamos o côco lendo Adorno e Hegel mas também nos colocávamos com uma atitude disposta para com o mundo; com uma “concepção épica da subjetividade”, dizíamos.(...)Como movimento mesmo de moradia às vezes o MSTC me punha descontente, por não combater a filosofia da massa do cada-um-por-si como organização política e interesse imediato economicista).(...)E descobri, e lamentei sem desistir, que a cidade vencia a resistência das famílias organizadas dentro de seu território de concreto; a razão estava em que elas tiravam seu sustento dos subempregos da própria cidade que lhes suprimia o direito à moradia e, em geral, o direito à cidade, sob permanente tensão policial, concluí.(...)Não conseguíamos implantar uma padaria ou uma reciclagem de papelão e ferro comunitária e autogestionária; não influíamos nas Assembléias, não sabíamos o que fazer.(...)

Quando eu estava para depositar o texto da qualificação, passei a freqüentar a Escola Nacional Florestan Fernandes; era 2005. Acabara de inaugurar.(...) Dar aula para os Sem Terra, na Escola Nacional, tinha imediatamente já um pouco de falar escutando a si próprio e, sinceramente, a primeira vez, deixa a gente destrambelhado. A energia que circula, na ENFF, é inominável e insistente.Um ano e meio depois, eu deixava meus alunos de francês (...) e fui com o circo para o nortão do Mato Grosso, aos pés dos sopapos da floresta amazônica. Voltei de lá gravemente doente, fiquei mais de meio ano de molho, mas só pude restabelecer satisfatoriamente minha saúde quando reingressei na base do Movimento.(...)Embarquei no ônibus rumo a uma cidade do interior, na margem paulista do rio Paraná, a 600 quilômetros do marco zero da Capital; já nem lembrava mais do MSTC, mas sabia que os assentados da Reforma Agrária dispunham, pelo menos em parte, dos meios de sua reprodução social e praticavam com consciência a diferenciação sociocultural para com as formas do capitalismo. Na fronteira fechada do estado de São Paulo, entre 2008 e 2010, acho que cumpri um aprendizado útil. Trabalhei para o coletivo que eu ajudava a se autossustentar e a engrandecer como organização de massa; e sempre pude cooperar e militar segundo minha consciência.

Falando assim, parece grande coisa. Na realidade, a gente vivia de sacrifícios materiais. É mentira que o Movimento vive de repasses monetários do governo e de entidades internacionais, como domina na opinião pública. São trabalhadores e trabalhadoras que dispensam suas economias e seu tempo, sem ajuda institucional, e vão montar um acampamento, praticar a desobediência civil, pra mudar de vida, e mudar de vida pra melhor é sempre difícil e custoso. No entanto, uma pobreza autogerida é o oposto da miséria, em todo o sentido que pode ter a palavra “autogestão”, que para os pobres deste país rima com “digestão” e traduz, nas rodas de conversa entre as lonas pretas, “chegar a ser proprietário de um lote de terra”, quando sair o assentamento no campo. É. Por causa da legislação brasileira, e impondo tais restrições a lei acerta, só é possível residir num assentamento da Reforma Agrária sem ter o “perfil da Reforma Agrária” (que é o de ser empregado pauperizado, menos de um salário, ou trabalhador declarado desempregado pelo governo, em idade ativa e saudável para a bruta atividade rural) edificando uma instituição de ensino ou tecnológica, como Escola do Campo; quer dizer, puxando a sardinha pro lado dos educadores que, por ventura, estejam descontentes na cidade. Montar um instituto num assentamento... em geral e no detalhe, é necessário sempre ter em mente que etapas só podem ser cumpridas coletivamente, no entanto. Eu não consegui tal proeza, mas, se o revanchismo do conhecimento vale alguma coisa, eu posso dizer hoje que só ingressando um coletivo de universitários na base do Movimento Social, reunidos e nucleados desde o tempo do ensino superior, é que tal tentativa há de vingar. Simetricamente o oposto do que eu fiz, infelizmente. É muito difícil, para o indivíduo médio brasileiro, largar o individualismo. Por isso, é o Movimento Social quem deve requalificar o nexo social e a coesão do indivíduo no grupo.(...)Na base regional, eu dirigia os coletivos de formação político-ideológica e tratava de somar nas lutas e instigar a constituição de equipes e de outros setores, sistematicamente evitando funcionar como “mediador”, para os fins da demanda social efetiva, legítima e autonomamente senão vinda do povo. Nem estou falando aqui dos coletivos de membros orgânicos do Movimento, em que a coisa se dava no nível da disputa de pontos-de-vista, mas das demandas do povo mesmo, que a ala progressista da igreja católica chama de clamores por justiça e de grito dos excluídos e que, para nós, significam exatamente aprender com a realidade do setor de Frente de Massas e formar mais líderes honestos e justos.

Vejam, não eram só cursos para assentados do Movimento Sem Terra ou para sua base rural.  A forma prática e solidária do funcionamento da Escola Nacional sugere o que pode vir a ser o PROUNI, o SISU, o ENEM. Entre o PRONERA e o PROUNI, evidentemente há uma relação de identidade no nível da demanda social, tão ideológica quando verdadeira que, em pesquisa de opinião recente, sobre a percepção do indivíduo rebaixado brasileiro sobre a educação no Brasil, a maioria assinalou que ela melhorou sob a gestão do PT, enquanto escolas do campo foram fechadas pelo país. Claro: porque, abertas, enfrentavam o sistema, o fundo do sistema educacional. Neste sentido, há diferenças que saltam aos olhos entre o PROUNI e o PRONERA. Não apenas porque o PROUNI seja democratizante à força de sobrepagamento, mas na medida em que ele pode derivar como subsídio inconseqüente e tornar-se, na esquina, um assunto restrito ao livro caixa da empresa, terminando por cobrar duas vezes do trabalhador, uma vez na fonte e outra no balcão, por um direito seu, e endividá-lo em troca de qualidade nenhuma. Não se espera dos conselhos de administração das escolas de ensino privadas, respondendo por seus acionistas, a efetivação integral do ENEM, desde a soleira da faculdade até a diplomação no curso superior; isto é tarefa do movimento estudantil, e tarefa exclusiva, uma vez que o próprio governo do PT admite que só a mobilização popular pode fazer que se cumpra o Programa Democrático e Popular, contra o próprio PT. É isto que a gente tem: um programa democrático popular que só avança no papel, mas um avanço. Seria uma estupidez de nossa parte não reconhecer por onde desfechar o ataque na conjuntura, que são, afinal, ataque e conjuntura, diferentes cada um na sua análise, mas, na apresentação, tornam-se sinônimos. Tanto lutar contra aqueles que exploram nossa renda quanto lutar com as palavras e não deixar ninguém reduzir qualquer uma dessas a uma luta vã.Costuma-se falar de duas canoas, de ter um pé lá e outro cá. Evidentemente a gente gostaria que estivéssemos todos no mesmo barco. Talvez, em relação a esse barco, estejamos com um pé numa tábua que sobrou de mais sólida da destruição neoliberal da universidade e o outro, na que sobrou da neutralização das organizações autônomas dos trabalhadores. Mesmo assim, é nosso dever remar juntos contra a maré. E não colocar fundo o pé nessas tábuas porque, na água, a gente afunda, de novo. O Movimento Sem Terra contribuiu e contribui, cada vez que conquista mais um curso dentro de um departamento de ensino superior para a classe trabalhadora, através da demanda da democratização do acesso à terra e ao trabalho, cada vez em que mais uma turma é formada num curso do qual participa pedagogicamente, para que a Universidade no Brasil não morra; para que os objetos de pesquisa sejam reencontrados; para que as políticas públicas sejam racionais plenamente.

Na missão de ocupar território, da terra e do ar, não temos uns gatos pingados por aí, mas uma pequena multidão de professores, de educadores anônimos e discretos, disputando o pensamento ao obscurantismo e à imobilização nas salas de aula e nas coordenações pedagógicas das instituições privadas de ensino, nas instituições públicas, nas teses de pós-graduação, travando a pequena política quando a grande não esteja disponível, ainda; com sorte, preparando-a. Eu participei de um encontro de assistentes sociais de instituições mistas, privadas com públicas, neste interregno afastado da base do MST; foi absolutamente interessante a opinião deles de como executar o Bolsa Família e os demais programas sociais da governança do PT.

Eu fico um pouco constrangido de falar sobre “a minha geração” porque compreendo que a gente não foi o primeiro nem será o último grupo a tentar juntar os dois extremos da dominação nacional brasileira, a elite instruída e os injustiçados do pauperismo. Mas toda história importa, por mais mesquinha ou sem graça que seja, como eu aprendi no MST.

 

Quinto

Cena 1: NA PERIFERIA

“São Paulo, 2008. Remoções se sucedem nas favelas da zona sudoeste de São Paulo. O confronto direto entre ricos e pobres nunca esteve tão evidente. Os terrenos das favelas são cercados pelo entorno que se valoriza. A repressão policial é feroz. No meio desse turbilhão, numa favela cercada pelas grandes obras que se edificam em seu entorno, um grupo de hip-hop se levanta. Jovens entre 18 e 22 anos. A maioria negros. Sua ação na favela baseava-se na realização de eventos culturais, festas, vídeos e oficinas. Alguns eram funcionários da ONG do local, com a qual o coletivo tinha certa rivalidade. Ambiguidades da vida real. Necessidade de sobrevivência.

Remoções. A ONG não quis se intrometer. Os movimentos sociais não estavam ali. O grupo com seu rap e com sua mínima estrutura passa a organizar a população. Assembléias, discussões, reuniões com a Prefeitura, reuniões com coletivos parceiros. A coletividade que a atividade artística havia criado começava a entrar em uma seara organizativa com a qual ainda não estava acostumada. Antes, a corrosiva denúncia da situação social, os corres para conseguir gravar, as oficinas com coletivos de hip-hop, a gramática anti playboy. Depois, a visita porta em porta na favela, a mediação dos conflitos, as brigas com a prefeitura.

A situação é tensa, delicada. Desorganização interna da favela, revolta, outras remoções podem ocorrer, repressão policial. Chegam os coletivos “de fora” que querem ajudar. Os universitários oferecem os contatos: advogados e imprensa livre. Os movimentos sociais oferecem a fórmula de ação política. Os universitários admiram-se da força do coletivo em meio a tanta pobreza. Os movimentos sociais crêem estar enxergando ali uma nova “vanguarda”: jovens moradores de favela, forjados na gramática do rap, como verdadeiros organizadores da massa. Em síntese: todos jogavam as fichas naquele coletivo.

O tempo passa. O clima tranquiliza. Ainda que as ameaças de remoção continuem ocorrendo. O coletivo passa a fazer cursos de formação política com os movimentos sociais maiores. As mulheres se dedicam mais. Estabelecem relações com coletivos externos à favela. Os rapazes são mais desconfiados. Afirmam sempre a quebrada contra o externo. Pra lá da Ponte, todos são boys. Querem gravar seus CDs, e para isso precisam de estrutura. As mulheres do grupo conseguem parceria com uma ONG que trabalha com audiovisual. A ONG capacita os jovens tecnicamente e com seus pressupostos políticos. A saída negociada. O empreendedorismo de si mesmo. Os rapazes possuem mais facilidade para gravar seus raps. As letras continuam ácidas. As mulheres fortalecem suas relações com movimentos sociais. Frequentam reuniões das mais diversas e circulam por outras quebradas. Sempre tentam levar os rapazes para estas reuniões. Os rapazes resistentes. Desconfiam de tudo que é externo. As diferenças começam a ser maiores. Mulheres querendo afiançar aliança, instituir relações para além da favela. Afirmam a necessidade da política. Os rapazes afirmam cada vez mais a favela. Querem gravar seus raps, fazer seus shows. Para eles, movimento sociais e deputados são a mesma coisa. Todos fazem política. Todos são corruptos. O negócio é nóis por nóis. Vamos cantar. Salve a quebrada.

O tempo passa. O coletivo começa a se esgarçar internamente. Ainda assim existe. Fazem coisas juntos. Corres do cotidiano. Segredos que só quem é da favela sabe. Mas algo entre eles aconteceu. A relação das mulheres com os movimentos sociais também arrefece. A necessidade cotidiana, os problemas da quebrada impediam maiores vôos. Não deixavam ver o todo. Reino da necessidade. “Não tem nem leite em casa, vai gastar para ir em reunião no centro?” Os rapazes também sentem suas dificuldades. O financiamento da ONG acabou. Gravações escassas. Nenhuma circulação. Pouca divulgação. O rap não é mais moda. Um gosto amargo entre todos. Não conseguiram instituir relações duradouras para além da favela. O coletivo está brigado. A Prefeitura se aliou com o tráfico. A favela vai sair. Aquele coletivo que era a vanguarda da transformação social vira um bando de jovens em busca de emprego. Individualizados. Assombrados por todo tipo de ameaça que perpassa qualquer favela. A fala de uma das jovens do coletivo sentencia as mudanças e seu desencanto: “Nada contra cantar, eu curto também. Mas os meninos deixarem de cantar rap para cantar funk em outras favelas em troca de maconha... aí já é demais”.

 

 

Cena 2:  NO TRIBUNAL POPULAR

 

PROJEÇÃO EM PANO BRANCO GRANDE DEPARTE DO FILME “TERRA EM TRANSE” (SOU UM HOMEM DE ESQUERDA/QUAL O SENTIDO DA SUA MORTE/APRENDERÃO/QUAL O SENTIDO DA SUA MORTE? – AGORA CORTANDO A RESPOSTA DO JARDEL À PERGUNTA).

 

ENTRA UM CORO CARNAVALESCO – ATORES E ATRIZES COM PLACAS DE PUBLICIDADE, “OFERECEDORES DE CRÉDITO”, FAIXAS E CARTAZES DO PAC, MINHA CASA MINHA VIDA, JOGADORES DE FUTEBOL, POP STARS –

 

A TELA PROJETA, AO MESMO TEMPO, A CARA DO PAULO AUTRAN RINDO, RINDO, RINDO, QUE SE MISTURA COM FLASHES DO COLLOR, FHC, LULA, DILMA, SERRA, KASSAB, ANTONIO ERMIRIO DE MORAES, OLAVO SETUBAL, ABILIO DINIZ, DANIEL DANTAS, ROBERTO MARINHO, EIKE BATISTA – EMBARALHADOS, NÃO NESSA ORDEM. A PROJEÇÃO TERMINA COM A CARA DO PAULO AUTRAN RINDO, RINDO, SAINDO EM “FADING”.

 

BREQUE NA MÚSICA. O CORO EXPLODE, AGORA CANTANDO PRÁ VALER, NO MAIOR CARNAVAL E ALEGRIA. (ATENÇÃO: O CORO NÃO DEVE SER SATIRIZADO, AVACALHADO PELA INTERPRETAÇÃO/MONTAGEM. É UM CORO ALEGRE, CARNAVALESCO, ELE, SIM, SÁTIRO, CHEIO DE VIDA, MERGULHADO NA MAIOR FESTA). SE POSSÍVEL, SEMPRE QUE O CORO CANTA, PROJETAM-SE, NA TELA, TRECHOS DE FUTEBOL, FAUSTÃO, AXÉ, ESCOLA DE SAMBA, PASTOR EVANGÉLICO, JORNAL NACIONAL, GRANDES OBRAS, PLANTAÇÕES, INDÚSTRIAS, NAVIOS SENDO CARREGADOS...

 

CORO

(CANTANDO)

Eu quero, eu quero, eu quero

Eu quero é me dar bem

Não dá, não dá, não dá

Não dá pra ser feliz

sem ter, sem ter, sem ter

um grande,

brilhante,

enorme big bem!

 

Vou badalar, vou badalar

Com meu grande, enorme big bem

Vou badalar, vou badalar

Com meu grande, enorme big bem

 

 

LÍDER POPULAR

(LEVANTA-SE, INTERROMPENDO O CORO E A PROJEÇÃO)

(A INTERPRETAÇÃO NÃO PODE SER CARICATA. TEM QUE SER SÉRIA, APAIXONADA E, CONSEQUENTEMENTE, TOTALMENTE DESLOCADAEM RELAÇÃO AO CORO)

Camaradas! Companheiros! Amigos! Irmãos! Todos os dias, jovens, a maioria negros, são assassinados nas periferias das grandes cidades. Famílias estão sendo despejadas e suas vidas destruídas na maior violência. Índios e quilombolas continuam sendo massacrados, um genocídio que começou há 500 anos e continua,em pleno século XXI!  O trabalho precário e o trabalho escravo invadiram até mesmo São Paulo, a grande cidade moderna. O massacre continua! A luta de classes não acabou!

 

CORO

(VOLTA A CANTAR COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO)

Geladeira, fogão, televisão,

minha casa, minha vida,

me embolsa a família

big bem, big brother, celular.

Big emprego, futebol, gol de placa:

me vendo a crédito e a perder de vista

ao comprar meu big bem, big brother, celular.

 

É, é, é-é-é

É celular!

 

LÍDER POPULAR

(INTERROMPE O CORO, MAS, NO MEIO DE SUA FALA, O CORO VOLTA A FESTEJAR E QUASE NÃO SE ESCUTA O QUE ELE FALA. ACABA DESISTINDO)

Companheiros! Estou falando de massacres, de vidas humanas, de gente como a gente! E isso em nome de quê?! Pra quem?! Em nome de um crescimento econômico feito no nosso lombo! As riquezas vão pra eles, os donos de bancos, do agronegócio, os madeireiros, as grandes incorporadoras e construtoras, as multinacionais! E é o Estado, o governo, os políticos que promovem isso, com o dinheiro público, com o nosso dinheiro! Usam a riqueza que produzimos para financiar o capital! É uma escolha política para manter o lucro deles e a canga sobre nossas cabeças!

 

CORO

(VOLTA A FESTEJAR NO MEIO DO DISCURSO ACIMA)

Eu quero, eu quero, eu quero

Eu quero é me dar bem

Não dá, não dá, não dá

Não dá pra ser feliz

sem ter, sem ter, sem ter

um grande,

brilhante,

enorme big bem!

 

Vou badalar, vou badalar

Com meu grande, enorme big bem

 

Geladeira, fogão, televisão,

minha casa, minha vida,

me embolsa a família

big bem, big brother, celular.

 

É, é, é-é-é

É celular!

 

LÍDER POPULAR

(INTERROMPE NOVAMENTE, INDIGNADO, REVOLTADO – NÃO COM O CORO, MAS COM A SITUAÇÃO. EXIBE UMA CAMISA ENSANGUENTADA)

Irmãos! Mataram mais um pai de família! Um camponês, um índio, uma liderança foi assassinada!

 

CORO

Você viu, você viu

O vovô que tombou atropelado?

E o netinho, em prantos, abandonado?

 

LÍDER POPULAR

Outro líder popular assassinado! Os assassinos estão soltos! Riem, zombam, nos ameaçam! Até quando?! Até quando essa impunidade, essa injustiça, essas mortes?!

 

CORO

Você viu, você viu

O jovem que matou os pais?

(O CORO SE DIVIDE NUMA CACOFONIA DE INDIGNAÇÃO)

Que barbaridade!

Um jovem!

Matar os próprios pais!?

Que mundo é esse?

E a mulher que chutou o cãozinho até a morte?

As baleias! Continuam matando as baleias!

Horror! Horror! Horror!

 

LÍDER POPULAR

(JÁ DESESPERADO)

Estou falando de heróis! Mártires da luta popular! Estou falando da impunidade dos grileiros, banqueiros, proprietários! Das famílias despejadas, comunidades massacradas! E tudo pra proteger a propriedade para uma minoria! Um patrimônio que é público! É nosso! Uma riqueza que nós produzimos! É por nós que eles estão sendo assassinados! (EXIBINDO A CAMISA ENSANGUENTADA) Vejam! É mais um pai de família! Como eu! Como vocês!

 

CORO

(POR UM INSTANTE, SILÊNCIO. PARECE QUE O CORO VAI REAGIR, MAS VOLTA À FOLIA. NUMA SAÍDA TRIUNFAL DE CENA, SEM PERCEBER, PASSA POR CIMA DO LÍDER POPULAR)

Nhém-nhém-nhém, nhém-nhém-nhém

não enche a barriga de ninguém.

Nhém-nhém-nhém, nhém-nhém-nhém

não enche a barriga de ninguém.

 

É hidrelétrica! É casa própria,

estaleiro, rodovia.

É o progresso!

É o crescimento!

É mais emprego,

é a alforria!

Bye bye pra tanga

e pra miséria.

Agora tenho o que comprar!

 

 

Geladeira, fogão, televisão,

minha casa, minha vida,

me embolsa a família

big bem, big brother, celular.

Big emprego, futebol, gol de placa:

me vendo a crédito e a perder de vista

ao comprar meu big bem, big brother, celular.

 

É, é, é-é-é                   OU                  Vou badalar, vou badalar

É celular!                                            Com meu grande, enorme big bem

 

COM A SAÍDA DO CORO, SILÊNCIO. O CORPO DO LÍDER JAZ NO CHÃO. NA TELA, VOLTA A PROJEÇÃO DO PAULO AUTRAN DIZENDO “APRENDERÃO, APRENDERÃO”. SEGUE-SE A IMAGEM DELE RINDO, RINDO, RINDO, ENQUANTO, DA PLATÉIA – NESSE CASO, DO TRIBUNAL POPULAR –, LEVANTAM-SE TRÊS ATORES E CARREGAM O CORPO SOLENEMENTE PARA FORA. PARALISA-SE A PROJEÇÃO NO RISO DO PAULO AUTRAN. CENA JÁ VAZIA, É A ÚLTIMA IMAGEM. ELA SAI EM “FADING”.

 

 

Cena 3: NO MINISTÉRIO

Brasília, julho de 2010.

Um professor, encerrando sua intervenção no Colóquio “Consolidação institucional de uma política cultural pública”:

“O Congresso deve se pronunciar proximamente sobre o novo enquadramento jurídico da cultura. Se aprovado, as bases para um salto cultural do país estarão lançadas. Mas o disparo já foi dado: de todas as iniciativas do MinC, a meu ver a mais original e promissora foi a criação de 2.500 pontos de cultura pelo Brasil afora, abrindo para 8 milhões de pessoas oportunidades de acesso à produção e à fruição de bens culturais. A meta é criar 5.000 pontos adicionais, no mínimo um por município. Se pensarmos que a eles devem se somar a adoção do Vale Cultura e a ampliação do acesso à Banda Larga móvel para 125 milhões de pessoas, não restam dúvidas de que o MinC está mudando a paisagem cultural brasileira. O surto de criatividade que deve surgir nestas condições será contaminado pela dinâmica de um país emergente que já emergiu. Em termos de nossa inserção na segunda globalização, isso é importantíssimo. Afinal, será por meio da sua cultura que o Brasil poderá, mundialmente, dizer a que veio.”

 

 

Sexto

 

Uma proposta. Ditada pela experiência militante:

“1. Entre as forças de oposição estilhaçadas no Brasil, predominam grupos sindicais e grandes movimentos sociais, portadores de referências marcadas pelos combates travados desde a Encruzilhada Natalino e do ABC até a greve dos petroleiros encerrada com os tanques de FHC, linhagem que por sua vez incorpora sobretudo experiências russas, cubanas, nicaragüenses e salvadorenhas. São referências da maior importância, cuja predominância, contudo, parece dificultar o vínculo com outras referências.

2. Existem outros conjuntos de combates, que raramente são relacionados entre si e com aqueles mencionados acima. Em termos diretos – e simplificados – não conseguimos articular as lutas relacionadas a racismo, patriarcado, crise ambiental e exploração do trabalho. Não é um conjunto fechado, de modo que se poderia afirmar a dificuldade de relacionar o suplício do trabalho doméstico, o encarceramento massivo, as crises econômicas, os transgênicos, a extração de mais-valia, a objetificação do corpo feminino, a favelização, a precarização, os desastres ambientais espetacularizados, o extermínio da juventude, a mortalidade materna etc. etc. Não se trata de listar demandas ou buscar teoria unificada, mas de resgatar e relacionar diferentes matrizes teóricas e práticas referidas a uma variedade de zonas de sofrimento mutuamente alheias. Do ponto de vista da formação, seria esse um modo de contribuir para a criação de pontes entre aquelas zonas e suas respectivas organizações.

3. Existem também, fora de sindicatos e grandes movimentos, um número considerável de ativistas realizando permanente trabalho de base, junto a um número considerável de lideranças de base em atividade constante e relativamente afastadas das (embora não imune às) políticas públicas.

Acredito que tais ativistas e lideranças são sensíveis àquelas zonas e matrizes, e interessadas em articulá-las. Tal articulação poderia entrar, futuramente, em diálogo (se não for pedir demais) com a tradição sindical e social mencionada. Aqui estaria, creio, uma possibilidade para o trabalho de formação hoje – apenas uma parte, claro, do trabalho organizativo.”

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

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