Histórias da Ditadura II

Autor: 

Por Humberto

Nassif e Caros leitores (as), agradeço o incentivo pra continuidade deste relato, aceso ultimamente pelos ventos que andam soprando, novamente, na nossa America. O compromisso que tenho e somente com a historia. Obrigado mais uma vez pela oportunidade.

O abismo q se abriu diante de mim nao dava tempo para a contemplacao. Duas possibilidades de saida se colocavam claramente: uma totalmente a direita e a outra radicalmente a esquerda. A primeira seria a aceitacao da Ditadura como fato consumado, conviver normalmente com a nova ordem imposta de cima pra baixo, silenciar, colocar a camisa do time ganhador e ir pro campo, lambendo as botas dos milicos; a outra enfrentar, se organizar clandestinamente para a resistencia, possivelmente armada, ou simplesmente se ausentar, adquirir uma passagem com destino a Franca, onde alguns amigos ja se encontravam.

 

Nem uma nem outra. Me joquei de corpo e alma no abismo. Pelo que ele oferecia de desconhecido, de imprevesivel, de desafio, em ultimo caso a possibilidade de voar, alcar uma liberdade.

Meu pai me deixou como herança uma tênue e frágil descendência biológica indígena.
Perdido no espaço e no tempo (o dia que a terra parou) este resquício de sangue foi minha corda de salvação.

De repente, a latente necessidade de busca desta raiz, já fraca e submersa numa frustrada vida urbana de 20 anos, se tornou a luz no fundo do abismo.

Decidir viver com os índios.

Passei num concurso publico da Funai – Fundação Nacional do Índio, órgão tutor dos índios, para ocupar um posto numa área indígena, achando que este era o caminho (legal) para chegar ao meu objetivo. A Funai, na época, era mais um dos diversos órgãos da administração federal tomado pelos militares.
O Presidente do órgão era um general (Ismarth), nos níveis mais baixos estavam instalados os coronéis, tenentes e até sargentos, exercendo cargos de chefia.
O estagio preparatório de familiarização da política indigenista da Ditadura, se fazia na sede em Brasília.  Meu primeiro estágio se deu no famoso DGPI Departamento Geral do Patrimônio Indígena, cujo diretor era tbem um general, o Demócrito.

Este estratégico departamento era considerado a galinha dos ovos de ouro da Funai. Por ai passava um rio de dinheiro, cuja fonte ficava nos territórios indígenas. Jorrava ouro, mogno, borracha, castanha do Para, vendidos no comercio exterior, alem dos contratos milionários de arrendamentos de terras para pastagem, sem contar as expedições de valiosas certidões negativas para empresas exploradoras de minérios, que o Banco Mundial exigia para liberação de fabulosas verbas.

Um antro de corrupção. Enriquecimento ilícito descarado e impune.

Esta Renda Indígena financiava tudo, Menos a quem de direito: os índios.
Era conhecida a farra q estes generais faziam nas ferias em terras européias, acompanhados de jovens mulheres, que muitas vezes era a própria secretaria. Quem pagava a conta, todos sabiam.

Enquanto isto, os corredores de acesso aos departamentos viviam lotados de índios que viajavam de todas as partes do Brasil, em busca de proteção territorial, reivindicações de todos os níveis para melhoria das condições precárias de vida. Cansados de serem empurrados de um militar para outro, de verem suas reivindicações serem sistematicamente engavetados, voltavam para suas aldeias com o bolso cheio de promessas, jamais cumpridas.

Me chamava a atenção a quantidade de documentos que circulava na mesa da secretaria com o forte carimbo vermelho de Confidencial. Querendo satisfazer minha curiosidade comecei a trabalhar apos o expediente, a desculpa de que precisava fazer algumas horas extras.
Tive acesso ao valioso material secreto. Ai estava a cartilha de filosofia da Política Indigenista da Ditadura. O lema era “Integrar para não entregar”.
Descrições detalhadas dos grandes projetos de desenvolvimento da Amazônia. Alguns textos escritos em inglês, com timbre do governo americano.
Tratavam o índio como um empecilho. Uma pedra que precisava ser retirado a todo custo do caminho.  Fiquei pasmo. Se me contassem não poderia acreditar.
A Política Indigenista da Ditadura era o extermínio, puro e simplesmente dos índios. Tática copiada do exercito americano na ocupação do oeste, onde foram dizimados diversas nações indígenas, no século 18.

Revoltado, mas incapaz de qualquer reação, procurava desesperadamente uma saída.

Nesta angustia, encontro num belo dia, um grupo de jovens índios, fortes, altos, cabelos cortados tradicionalmente, com pinturas corporais, chefiados por um mais idoso, cujo olhar profundo e penetrante me tocou. Bateu uma empatia total. Eram Ge, guerreiros e caçadores.
Suas terras produziam a melhor castanha da Amazônia, disputada pelos exportadores, de primeiríssima qualidade.
Trabalhavam na colheita como escravos. Durante a safra recebiam somente utensílios, roupa e farinha. Toda a produção a Funai comercializava em Belém. Nada de participação nos lucros.

O chefe não falava português, seus pensamentos eram traduzidos da língua Ge para o português por um jovem tradutor que sempre lhe acompanhava. Mas sabia o que queria: Autonomia e independência do órgão tutelar.

Contei a eles tudo que tinha visto e o que a Ditadura estava planejando para os índios. Um futuro fúnebre.

No final da nossa longa conversa, me sentindo como se ja o conhecesse de longa data, estabelecido uma cumplicidade e uma incrivel solidariedade mutua. O chefe me olhando lá dentro disse: “eu preciso de você” depois completou: “se nos tivéssemos alguém com o seu conhecimento do mundo do branco, da lei daqui, e que lutasse do nosso lado, eu ja tinha declarado guerra a Funai”.

Dias depois deste encontro fatal, pedi demissão, fui pra Belém,armei minha rede num barco, que transportava mercadorias subindo o Rio Tocantins, até a cidade de Marabá, o centro da terra.
Viagem de 7 dias.

( continuo no proximo fora de pauta, vou tomar um cafe, la fora a temperatura caiu abaixo de zero, fim de outono…)

Clique aqui para ler a primeira parte.

Nenhum voto

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.