O que a reportagem faz não é

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Henrique

O que a reportagem faz não é mais do que constatar o que qualquer conhecedor minimamente bem informado dos problemas de tráfego já sabe: o "tráfego induzido" - aquele que decorre do que Antony Downs chamou de "tripla convergência", quando se aumenta a oferta viária. 1. Convergência espacial - a transferência de tráfego de outras vias. 2. Convergência temporal - a transferência de deslocamentos feitos em outros horários. 3. Convergência modal - transferência de deslocamentos feitos por outros modos (especialmente por transportes públicos). Ou seja, aumentar a oferta viária não acaba com os congestionamentos (vide Los Angeles, que tem 60% de sua superfície dedicada aos automóveis e os piores índices de congestionamento dos EUA).

Por outro lado, melhorar os transportes públicos para "atrair a classe média", como disse o Calvin, também não é suficiente - além de ser uma injustiça com aqueles que já usam o transporte público "ruim", que são a maioria e aos quais os motoristas deveriam agradecer de joelhos, porque se não fossem eles o trânsito já teria parado em SP ou em qualquer grande cidade. Tem que melhorar os transporte públicos para todos, e não para atrair a classe média. Mas para isso, é preciso, ao mesmo tempo fazer os motoristas pagarem a diferença entre os custos que eles provocam (congestionamentos, poluição, uso do espaço público como estacionamento, etc.) e os que eles efetivamente pagam. Isso só é possível com pedágio urbano, tarifas de estacionamento - e da redução do espaço do automóvel, com corredores exclusivos para ônibus, etc. É o que têm feito cidades como Cingapura, Londres, Paris, Estocolmo, que têm bons (ou não?) transportes públicos e só conseguem diminuir os congestionamentos com medidas restritivas ao automóvel. Não, a classe média nunca vai abandonar o conforto do transporte porta a porta que lhe proporciona o seu automóvel, enquanto o uso deste continuar baixo em termos de $$ e de tempo.