1) Werneck Vianna é um

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Fernando Trindade

1) Werneck Vianna é um arguto observador e analista. Desde os anos 70.

2) O problema é que as lentes teóricas com as quais ele vê o Mundo foram ficando superadas. (É como alguém que não vai a muito tempo ao oculista, mas não se dá conta de que o que vê está ficando distorcido)

3) Ele tem como pressuposto teórico uma visão de Mundo que combina liberalismo e marxismo, na verdade uma espécie de iluminismo evolucionista que acha que a contradição central no País se dá entre o centro-sul moderno e o norte-nordeste atrasado.

3) Daí não entender e não aceitar que PT e PSDB (ambos tendo tido uma hegemonia paulista no começo) sejam cada vez mais os dois polos opostos da disputa política no País, contrariando, assim, a idéia de moderno e atraso como a contradição central.

4) Para quem tem essa visão equivocada (acadêmicos em geral, em especial uspianos - Werneck não é uspiano mas parece que foi orientando de Weffort), o PT e o PSDB deveriam estar juntos para concluir o processo de modernização do Brasil.

5) A propósito, acho que foi Werneck quem escreveu um trabalho sobre a ocidentalização incompleta do PCB, defendendo, alvo engano, a tese de que o partidão nunca completou o seu processo de modernização, ficando preso no 'atraso'.

6) Embora já tenha sido seguidor de tais idéias no passado, hoje acredito que elas têm viés economicista (como, de resto, o marxismo e o próprio liberalismo clássico). Os seus adeptos não percebem que a ontologia do ser (para lembrar Lukács) não é determinada estritamente pelas relações de produção, mas antes, pela herança cultural do passado, herança adquirida pelo campo simbólico, vale dizer, pela linguagem (em sentido amplo) repassada de geração para geração. Enfim, o segundo Wittegenstein e Freud são tão ou mais importantes do que Marx.

7) E é exatamente essa linguagem cultural herdada que no caso brasileiro explica o retorno da polarização entre o campo popular/trabalhista e o campo elitista/udenista, Polarização que marcou a disputa entre Lula e Alckmin em 2006 e que deverá marcar a disputa Dilma X Serra este ano.

8) A questão da herança cultural é que explica a "surpreendente mudança do PT, que, de ácido crítico da Era Vargas e da tradição republicana em geral, passou a incorporar muito de suas práticas".

9) Me recordo agora que no livro "Lula, o filho do Brasil",um dos irmãos de Lula informa que o pai era um getulista passional. Obviamente, isso não explica tudo, mas é, sim, um elemento importante para se examinar a (re)conciliação de Lula com Getúlio, a que estamos assistindo.

10) De qualquer modo, a questão a que os nossos 'cientistas políticos' deveriam estar mais dedicados é exatamente a de entender o retorno da polarização elitistas X populares. O que na história brasileira explica esse retorno do recalcado? A extinção dos partidos pela ditadura em 1965 foi uma tentativa clara de recalque e repressão dessa polarização.