Acho que isto leva a outra

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Gunter Zibell

Acho que isto leva a outra discussão importante. Qual a real importância para a "direita", se interpretada como os segmentos interessados no liberalismo econômico, das eleições.

Para o bem ou para o mal o modelo de democracia partidária representativa é o que vemos.

Os setores que podem ser chamados de "capital", "elite", etc. têm seus interesses bem preervados:

a ) o ordenamento jurídico brasileiro é bem conservador, a própria ausência de mandato definido para juízes é um freio a velocidade de mudanças. Também ainda é elitista, se não em tese pelo menos na prática;

b ) todos os partidos com chance de governar são alinhados com a responsabilidade fiscal. As poucas controvérsias são em relação a destinação de gastos (objetivos sociais ou infraestrutura?) e gestão do Estado (executor ou contratador?). Por motivos históricos ou outros os nomes e partidos que pensam diferente têm pouca expressão eleitoral;

c ) "direita", enquanto "capital", se subdivide na parte interessada no liberalismo financeiro e na parte não-interessada (industriais tomando empréstimo, agro-exportadores) Então o problema da política monetária, ainda que mais político do que técnico, não se resolve na escolha PTxPSDBxPMDB, pois há pensamentos conflitantes a respeito nos três principais partidos.

d ) mudanças relevantes, como uma Emenda Constitucional, capazes de mudar minimamente a ordem das coisas, requerem 60% das duas casas legislativas. Se houvesse algum desejo forte por mudanças PR e PMDB simplesmente não seriam governistas, prefeririam alinhar-se com o passado. Partidos do PT para a esquerda levarão ainda décadas para serem tal maioria no Congresso.

O que tal comentarista disse não tem o menor sentido, no máximo ele pode se referir a que o liberalismo como política de Estado não tem chances, mas isso não significa contrariedade a direita.

Bom, acho que podemos chegar a duas hipóteses:

- A mais aventada em discussões é que o pensamento conservador estaria se refugiando no PSDB/DEM como a alternativa que restou para retomar o poder e assim ver seus interesses preservados. Eu posso estar sendo ingênuo, mas me parece que o capital, direita ou o que quer que seja não tem seus interesses sequer ameaçados. Bancos, indústrias e serviços podem no máximo recear redução lenta de impostos na medida em que o governo atual prefere realizar ainda investimentos sociais ao invés de reduzir o patamar de tributação. E há compensações, como fortalecimento do mercado consumidor, maior oferta de mão-de-obra capacitada. Não parece um conflito potencial.

- se não for o grande capital o motor mais questionador da coligação governista então a hipótese a considerar é mais simples : um grupo partidário e a imprensa desejam retomar a influência que tinham não por interesses nacionais ou de classes sociais, mas por seus próprios interesses mesmo. Se for isso, o que é de certo modo corroborado pela total ausência de discurso programático, trata-se de uma intenção antiética, ganhar eleições tão somente para usufruir do poder.

Esta segunda hipótese não poderia ser levada a sério em situações de crise, como a hiperinflação de 1989 ou a prolongada recessão que em 2002 já estava em seu 5º ano. Mas, com a perspectiva de que nos próximos 4 anos o PIB (e por conseguinte os orçamentos em todos os níveis) cresçam 20% reais em um país com parte das mazelas históricas mitigadas, parece-me que a chance de interesses menores prevalecerem pode ser real.