Sem-teto ocupam prédios de SP e PM organiza repressão

Do Apoio Popular

Movimentos sem teto ocupam prédios do centro de SP e PM organiza repressão

Cerca de 2 mil integrantes de diferentes movimentos sem-teto estão neste momento no centro da capital. Um dos prédios ocupados é no cruzamento da Av.Ipiranga com a Av.São Paulo, onde a Polícia Militar já organiza ação de repressão para desalojar manifestantes.

Aproximadamente dois mil integrantes de diferentes movimentos sem-teto realizaram neste domingo (06/11) uma série de ocupações simultâneas no centro da capital paulista. Eles ocuparam prédios abandonamos para chamar a atenção do poder público e da população da cidade para a necessidade de garantia de moradia para o conjunto dos habitantes de São Paulo.

Uma das ocupações é em um edifício no cruzamento da Av. Ipiranda com a Av. São Paulo. Neste início de madrugada de domingo para segunda, a Polícia Militar ameaça reprimir os manifestantes para desocupar o prédio. Neste momento (0h30), a PM já bloqueou o trânsito da Av. São João para organizar sua ação. Não há ordem judicial emitida para a desocupação.

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7 comentários
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leonidas

A questão é a demagogia no trato da questão.

Se é feita por má fé ou ingenuidade não vem ao caso.

E sim todas e todos aqueles que são rotulados de forma indevida ( seja pessoa fisica ou instituiçao, de direita ou esquerda ) é sim vitima de informação linear.

Não é só aqueles que gozam de nossa simpatia que podem ser vitimas ok?

 

leonidas

 
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Adriano Alves

Nao é a primeira vez que o movimento ocupa este predio. O prédio faz parte do patrimonio arquitetonico de SP e está caindo aos pedaços. Parece que pertence a uma construtora o que explica a reposta rápida da PM para desocupar o local. Se essa Prefeitura não estivesse de joelhos diante dessas construtoras já teria cobrado uma contrapartida ao pacote de bondades dado a essas empresas nos ultimos anos.

 
 
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leonidas

É sempre mais facil bater na PM né?

A PM cumpre ordem.

Ninguem vai lá de graça não.

Não sou PM , tenho sérias ressalvas ao formato Militar da mesma.

Mas pera um pouco tambem.

Drama relativo a moradia é responsabilidade do poder Executivo seguido pelo legislativo.

É desses e sobre esses ( que de direita ou esquerda ja estao no poder desde 85 ) que deve haver cobranças.

Chutar a PM pode até massagear ativista nostalgico que gosta de falar em repressão etc e tal

mas é quase a mesma coisa que tirar o sofa da sala para evitar traição da esposa...

 

leonidas

 
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Jair Fonseca

Tadinha da PM!!! Tão batendo muito nela, né, Leonidas?

 
 
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17 de Janeiro de 2011
HABITAÇÃO Entre desejos e despejos

Ao ocuparem quatro prédios no centro de São Paulo no fim de 2010, os sem-teto que lutam por moradia digna se aproximam de seu maior desejo: trocar o isolamento da periferia por uma região privilegiada da metrópole. A desapropriação de 53 prédios do centro pode significar o fim dos frequentes despejos

por Danilo Mekari

Vinte quilômetros de muita capital separam o número 925 da Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, da rua Henrique Perdigão, localizada no bairro de Cidade Líder, na zona leste. A distância, porém, pode ser percorrida de duas maneiras: não se trata de carros, ônibus ou Metrô, mas de sentimentos como esperança e frustração, que se alternam de acordo com o ponto final do trajeto. Fátima Gomes de Oliveira é prova disso.

Quando seu caminho, assim como de centenas de outros sem-teto paulistanos, foi de ida ao centro – especificamente para a Avenida Ipiranga, no edifício recém-ocupado pelo movimento por moradia –, havia a compreensão de que aquele deslocamento poderia significar mudanças estruturais em suas vidas; entretanto, a inevitável reintegração de posse e o retorno à favela desmoronam grande parte destas expectativas. Mas não todas.

No Jardim Ipanema, a rua Henrique Perdigão é uma das vias que cercam a ocupação Eletropaulo, que desde 2002 tornou-se destino para quem fosse despejado de outras ocupações próximas. Por isso, a favela já conta com 700 famílias que, além das parcas condições de habitação e saneamento, têm de conviver com torres de eletricidade da empresa que dá nome ao local. Quando venta e chove, o perigo aumenta; as torres emitem zunidos de alta potência, impedindo o sono dos moradores – isso quando as goteiras não encharcam suas habitações, além do perigo de um desmoronamento quase iminente.

A família de dona Fátima, 55, já montou dois barracos na área. O primeiro veio abaixo após “uma chuva que nem era forte” – na mesma noite, um mutirão de colegas ajudou-a a levantar o segundo. Mas não tem jeito: “aqui chove mais dentro do que fora”, suspira Daniela, sua filha, enquanto a mãe não para de tossir; quando o faz, porém, não pode beber muita água. “É tudo por causa do chagas, essa doença que eu tenho”, revela. A doença de chagas, transmitida por insetos, é uma infecção que, entre muitos sintomas, enfraquece os batimentos cardíacos; o excesso de água faria com que o rim se sobrecarregasse na função de expeli-la, também forçando o coração a bater mais rápido. Dona Fátima logo retoma: “meu barraquinho ta caindo, tenho o maior medo”.

                                                                               Fotos: Danilo Mekari

  

A favela Eletropaulo: torres elétricas, barracos, luzes de natal e dona Fátima

Mesmo as luzes de Natal não aliviam o incômodo da situação. Os móveis da família estão empilhados na cama de casal, sustentada por diversas caixas de plástico. Além de outros barracos, Fátima tem como vizinho um esgoto e um pequeno morro. O medo de deslizamento não a deixa dormir, e desabafa: “tenho certeza que esqueceram a gente daqui”.

O chaguismo, porém, não foi suficiente para impedir dona Fátima de participar da recente ocupação do prédio 925 da Avenida Ipiranga, no coração de São Paulo, e lutar por melhores condições de moradia. Orgulhosa de ter se instalado o primeiro andar do edifício, ela não se contém: “Quer me ver no jornal?”. Com cuidado, desdobra a página em que aparece sua foto sob a manchete “Sem-teto invadem prédios do centro”. “Era bom morar na cidade. Queria ter ficado lá”, lamenta.

Apesar do retorno à favela, dona Fátima saiu vitoriosa da ocupação: sua família receberá da Prefeitura de São Paulo uma bolsa-auxílio de R$300 por mês para o aluguel de uma nova moradia. “Minha menina viu uma casinha hoje cedo, mas vamos ter que mudar as crianças de escola, pois não é muito perto daqui”. A ajuda financeira será entregue durante 30 meses; após esse período, existe a possibilidade da sua família ter uma moradia definitiva através do programa federal Minha Casa Minha Vida – segundo a Associação dos Moradores do Jardim Ipanema, há um projeto sendo avaliado na Cidade Líder que abrigaria 160 famílias de baixa renda.

Desapropriando o centro

As últimas ocupações no centro de São Paulo aconteceram no dia 4 de outubro de 2010, quando quatro prédios ociosos foram tomados por sem-teto de uma série de movimentos pela moradia. Não apenas vazios, os edifícios ocupados acumulam dívidas de anos de IPTU (Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana) não pagos: o número 340 da rua Mauá ignora o imposto desde 1974, com R$ 1,5 milhão de débito, enquanto na Avenida Prestes Maia, 911, o saldo negativo chega a R$ 4 milhões. O prédio do INSS, na Avenida 9 de Julho, deve 400 mil para seus concessionários (Sabesp e Eletropaulo).

No edifício da Avenida Ipiranga, mais de 1200 pessoas preenchiam a ocupação, que teve reintegração de posse no fim de novembro. Os sem-teto também se reintegraram e, despejados, montaram um acampamento em frente à Câmara dos Vereadores para continuar pressionando o poder público para cumprir as desapropriações. Por fim, 111 famílias serão beneficiadas com o auxílio-moradia.

“Para quem vive numa favela lá no fim do mundo, esse dinheiro [auxílio-moradia] é uma vitória. Tem que comemorar e lutar pra não chegar ao fim desse período de 30 meses sem nada na mão. É tão grande o esmagamento, a desigualdade e a segregação que conseguir isso já é uma vitória. E, recentemente, nós não estamos comemorando muitas vitórias”, argumenta Ermínia Maricato, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e secretária de Habitação de São Paulo na gestão Erundina (1989-1992). Ela acredita que as próximas mudanças só acontecerão se o movimento pela moradia não se acomodar com tais medidas paliativas. “Eles não teriam essas vitórias se não tivessem força. Essa mudança não vem se não houver luta social – não falo só da luta de quem não tem moradia, mas também dos urbanistas e dos ambientalistas”.

O atual secretário de Habitação da prefeitura paulistana, Ricardo Pereira Leite, crê que as ocupações não são o melhor jeito para a resolução do problema. “A gente não faz acordo com quem ocupa prédio que nós estamos desapropriando, pois consideramos isso nocivo à política habitacional”.

Resultados do último Censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que, em São Paulo, existem 290.317 moradias não-ocupadas, equivalente a 7,4% do total de domicílios da capital; desse montante, é difícil precisar a quantidade de prédios que estão inteiramente desocupados. Atualmente, está em vigor um projeto de desapropriação de 53 edifícios ociosos no centro da cidade, resultando num total de 2500 unidades, que seriam destinadas à habitação de interesse social.

Mas o secretário lembra que há entraves a serem superados: “a maioria dos prédios que estamos desapropriando são das décadas de 1940 e 50. Hoje, eles pertencem a três espólios diferentes. A complexidade jurídica é enorme”. Além disso, existem os problemas estritamente físicos dos edifícios, que na maioria eram comerciais (sem banheiro e sem acesso a veículos) e hotéis. “Os projetos serão todos adaptados para preservar ao máximo a tipologia atual”, diz Ricardo.

Segundo Ermínia, “os pobres não cabem na cidade legal, e eles não são minoria. Isso é uma coisa que não se fala: sobre a escala da ilegalidade à que é relegada a população de baixa renda – não é pouca gente. No município de São Paulo, quase um quarto da população mora ilegalmente”. Por isso, ela ressalta que a desapropriação dos prédios no centro não vai resolver o problema, mas acredita no lado simbólico da ação: “isso está apontando para outras possibilidades”.

O centro ainda distante      

Na favela Eletropaulo, não foi só dona Fátima que fez e refez o itinerário “zona leste/centro” durante as ocupações. Enquanto arruma as trancinhas coloridas no cabelo escuro, Elizabete relembra como foi difícil manter os seis filhos no prédio da Ipiranga. “Todas as crianças faltaram na escola, mas não tinha jeito, imagina levar e buscar todo o dia?”, questiona. “Elas vão ficar de recuperação”, mas mesmo assim Elizabete não se arrepende – seus filhos também estiveram no acampamento em frente à Câmara. No rádio, escolhe a música Vida Loka (parte II), dos Racionais MC’s (“sempre quis um lugar / gramado e limpo, assim verde como o mar / cercas brancas, uma seringueira com balança / desbicando pipa, cercado de criança”), e explica que vai assinar o contrato do auxílio-moradia nos próximos dias; a expectativa é grande. “A luz acaba toda hora. Já ficamos dois meses sem água. Sabe o que é abrir a torneira e não cair um pingo d’água?”.

 

  

Elizabete e suas filhas também participaram da ocupação no centro

A radiação gerada pelas torres de eletricidade da Eletropaulo é outro fator que complica a situação da favela – o risco de câncer é elevado, principalmente para quem mora ao lado delas. É o caso de Joana Darc, que divide um barraco com seus dois filhos e algumas partes da torre. “Arrumaram esse lugar de última hora, voltando de uma ocupação despejada”, revela. Joana não pôde participar das últimas ações dos sem-teto no centro, mas garante que estará nas próximas “sem falta, para ter a chance de conseguir o aluguel”. Para Elenita, sua vizinha, também só falta assinar o contrato de auxílio-aluguel; suas filhas, que também estiveram na ocupação, agora brincam no varal improvisado dentro da torre elétrica.

Mas o desejo de habitar o centro da cidade ainda está distante. As famílias da favela auxiliadas pela prefeitura procuram moradias próximas de onde moram, devido ao baixo valor do aluguel que poderão pagar. “Um dos méritos desse movimento pela moradia que ocupou o centro é justamente querer morar no centro, onde se encontra a melhor situação de acessibilidade e mobilidade da região metropolitana”, argumenta Ermínia. Segundo o secretário de Habitação, os edifícios desapropriados serão destinados às faixas de renda de zero a dez salários mínimos e também para a terceira idade. “As faixas de renda menor (zero a três salários mínimos), que não conseguem comprar a moradia, provavelmente serão atendidas com programas de locação social. As faixas de renda mais alta vão comprar de acordo com o valor de avaliação”, diz Ricardo.

 

  

Varais são montados em qualquer espaço que sobra, até dentro da torre elétrica

Enquanto os moradores da favela Eletropaulo dividem barracos com água de chuva e torres de eletricidade, o prédio que foi ocupado da Avenida Ipiranga continua às moscas – os 20 quilômetros sempre os separarão do centro da cidade. Apenas a manutenção da luta pela moradia digna pode aproximá-los, aos poucos, do seu desejado destino. O primeiro passo já foi dado, e dona Fátima garante: “vou te convidar pra tomar um café na minha nova casa”.

Quem sabe no primeiro andar do número 925 da Avenida Ipiranga?

Danilo Mekari

é jornalista e integra a equipe do Le Monde Diplomatique Brasil

http://diplomatique.uol.com.br/acervo.php?id=2963&tipo=acervo

 

"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"

 
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Movimentos sociais / Brasil Os sem-teto às portas de São Paulo

Após visitar o acampamento do MTST, no Morro do Osso, em Itapecerica da Serra, o repórter francês transmite sua visão sobre a crise habitacional da maior megalópole da América do Sul e a força dos movimentos sociais brasileiros

por Philippe Revelli Do “Morro do Osso”, em Itapecerica da Serra, a vista abarca um mar de barracos de lona plástica preta, esticados com estacas de madeira ou bambu. Aqui e ali, colunas brancas de fumaça indicam que o fogo do café-da-manhã está aceso. Neste lugar, cerca de 3 mil famílias provenientes das favelas de São Paulo ocupam um terreno particular onde foi fincada a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Ruídos de martelo, serrote, picareta. Nesta nova cidade, sempre há um poço ou latrinas a serem escavados, buracos de telhado a serem tapados, divisórias a serem erguidas.

O MTST nasceu em 1997, por iniciativa do Movimento dos Sem Terra (MST). Gilmar Mauro, membro da coordenação do MST, lembra que “a criação do movimento partiu de um dado oficial — 85% da população brasileira reside em zona urbana — e foi uma tentativa de articular a luta pela terra e a luta por moradia”. A primeira operação de envergadura do MTST ocorreu em Campinas, quando 5 mil famílias invadiram uma área inaproveitada que batizaram de Parque Oziel, em homenagem a uma das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. Dez anos depois, o Parque Oziel transformou-se em um bairro propriamente dito, com infra-estrutura adequada, e cujos habitantes compartilham de forte sentimento comunitário.
  Nos anos seguintes à sua criação, o MTST estendeu suas atividades à periferia paulistana, aos estados do Nordeste e ao Rio de Janeiro, onde uma série de ocupações resultou na construção de 10 mil casas em Nova Sepetiba. Porém, conforme reconhece Rosildo Santos, antigo militante do MTST, “a gente não tinha nenhuma experiência de viver em um meio urbano e se contentou em reproduzir a estratégia empregada durante as lutas pela terra”.

Mas o ambiente das favelas é complexo, a identidade é mais difícil de ser constituída aí do que em uma comunidade rural. O MTST sofre com a hostilidade das organizações criminosas, de seitas religiosas e dos políticos locais, que temem perder o controle de seu público de costume.

No âmbito nacional, as diferentes seções do movimento evoluíram de forma independente umas das outras, algumas mudaram de nome, o MST e o MTST se tornaram organizações autônomas. Neste início de década, duas ocupações bem-sucedidas, realizadas na periferia de Guarulhos e Osasco, propiciaram um novo ímpeto na Grande São Paulo. Em julho de 2003, o MTST organizou outra ocupação, esta em São Bernardo do Campo. O terreno pertencia à empresa alemã Volkswagen e a reação das autoridades foi imediata: com o apoio de helicópteros e de atiradores de elite postados nos prédios das redondezas, as tropas de choque da polícia investiram contra o acampamento, fazendo inúmeros feridos e prendendo várias dezenas de militantes. A brutalidade da repressão gerou indignação na Alemanha e provocou uma manifestação diante da sede da empresa, contribuindo assim para divulgar internacionalmente a existência do movimento dos sem-teto no Brasil.

O governador de São Paulo na época, Geraldo Alckmin, advertiu que qualquer tentativa de ocupação organizada pelo MTST seria reprimida. Em 2005, contudo, o movimento invadiu terreno situado em Taboão da Serra. Após oito meses de luta, os sem-teto do acampamento Chico Mendes obtiveram junto às autoridades a promessa da construção de oitocentas casas. E finalmente, na noite de 16 para 17 de março, em Itapecerica, foi a vez de estabelecer o acampamento João Cândido — assim batizado em homenagem ao “Almirante Negro”1.

A operação fora preparada com meses de antecedência. “Foi na ocasião de um encontro com moradores de uma favela que protestavam contra o fechamento da escola local que constatamos a existência do terreno desocupado”, explica Guilherme Boutos, membro da coordenação do MTST. “Chamado de Fazendinha, o lugar era usado como desmanche por ladrões e também como depósito de cadáveres pelos criminosos.”

Situado entre o extremo sul de São Paulo e Itapecerica da Serra, numa região que padece de grande déficit habitacional, o terreno fora repassado em 1991, sob condições um tanto quanto obscuras, ao Banco Noroeste (mais tarde adquirido pelo Santander), e depois cedido à Sociedade Itapecerica Golf e Urbanização Ltda. O local é objeto de um vago projeto, jamais concretizado, para a construção de um clube de golfe. Boutos explica: “Na realidade, trata-se de terra improdutiva destinada à especulação imobiliária”.

Uma pequena cidade

Uma vez definido o local, o MTST pôs em ação sua rede ramificada nas favelas, fez contato com as famílias, estabeleceu uma lista de candidatos à ocupação. No dia D, cerca de trezentas pessoas, munidas de lanternas, facões, picaretas, martelos, arame, estacas de bambu e rolos de lona plástica, invadiram a Fazendinha. Na manhã de 17 de março, as primeiras barracas do acampamento João Cândido já estavam erguidas. Muito rápido, a notícia da ocupação se espalhou e centenas de moradores de bairros populares de São Paulo acorreram ao local. Ao cabo de uma semana, o acampamento adquiriu dimensões de uma pequena cidade.

Patrícia Cardoso, advogada e integrante da equipe do Instituto Pólis, estima: “A repercussão obtida por esse tipo de ocupação é reveladora da amplitude da crise habitacional na Região Metropolitana”. Em 1980, os moradores de favelas representavam 7,4% da população paulistana. No início da década atual, a porcentagem subiu para 11,1%2. Patrícia Cardoso explica: “A maior parte das favelas é resultante do crescimento desordenado e excludente das cidades brasileiras, que empurra os pobres rumo a espaços situados fora do mercado formal de terras (áreas de proteção ambiental e áreas de risco). A infra-estrutura e serviços públicos como abastecimento de água, iluminação, coleta de lixo, coleta de esgoto, saúde e educação são notoriamente insuficientes nessas regiões”.

Ao lado das favelas propriamente ditas, o Instituto Pólis aponta ainda os loteamentos irregulares e os cortiços, onde várias famílias dividem um mesmo cômodo pelo qual os proprietários cobram aluguéis exorbitantes. Patrícia Cardoso continua: “Na Região Metropolitana de São Paulo, cerca de 2 milhões de pessoas vivem precariamente em áreas de manancial e o déficit habitacional é de 600 mil moradias. Ao mesmo tempo, o censo do IBGE3 apontou 400 mil domicílios vagos só na cidade de São Paulo e 540 mil no conjunto da megalópole. Haveria portanto imóveis vagos suficientes para corrigir em grande parte o problema da população sem moradia adequada”.

Longe de caminhar nessa direção, as políticas públicas de revalorização do centro fomentaram sobretudo a especulação e provocaram uma disparada de preços no mercado imobiliário, ao mesmo tempo em que sucessivos governos afetaram dura duramente as camadas mais pobres com ataques repetidos aos direitos trabalhistas, provocando uma deterioração geral das condições de trabalho.

No início desta década, segundo o IBGE, cerca de 54 milhões de pessoas — 53,4% da população economicamente ativa do Brasil — trabalhavam no mercado informal e 70% dos trabalhadores urbanos tinha empregos incertos. Ao lado de catadores de sucata, camelôs e empregadas domésticas, atividades tradicionais do setor informal, operadores de telemarketing, caixas de hipermercados, funcionários de manutenção e vigias constituem hoje um novo exército de trabalhadores em condições precárias. Excluídos do mercado imobiliário, os casais de baixa renda migram para a periferia das grandes cidades. Ao longo da década, a população das favelas paulistanas cresceu a um ritmo cinco vezes mais rápido que o do conjunto da megalópole, agravando uma situação que já era difícil e carregada de potenciais conflitos.

Negociações em diversas frentes

“Foi com os vizinhos que ouvi falar sobre a invasão de João Cândido”, conta Rose Mary dos Anjos. Vinte e quatro anos, mãe desempregada depois de ter tido diversos trabalhos — telefonista, vendedora, empregada doméstica —, mora temporariamente no morro do Jardim Guarujá, favela de São Paulo. “Não tenho muita coisa a perder!” Ela guardou seus móveis na casa de uma amiga e uniu-se ao MTST. “Nunca me preocupei com política, é a primeira vez que participo de uma ocupação”, explica.

Em Itapecerica da Serra, assim que o acampamento foi erguido, os dirigentes do MTST iniciaram negociações nas mais diversas frentes — com os governos municipal, estadual e federal, assim como com os representantes da Itapecerica Golf e Urbanização Ltda. Sustentando que a área em litígio não preenche função social alguma, o MTST reivindica sua expropriação e a construção de moradias para as famílias ocupantes. No fim de março, 5 mil sem-teto marcharam até o Palácio dos Bandeirantes. Mensagens e visitas de apoio foram dirigidas ao João Cândido: deputados de esquerda, sindicalistas, representantes da pastoral social, do MST, de organizações que lutam pelo direito à moradia etc. A imprensa reservou ao acontecimento mais espaço que o de costume.

Após três semanas de ocupação, as propostas formuladas pelas autoridades foram consideradas insuficientes pelo MTST, mas um acordo firmado com o proprietário do terreno descartou provisoriamente qualquer ameaça de expulsão. Em troca do acerto, os sem-teto se dispuseram a recusar a instalação de novas famílias na área contenciosa. Para os moradores de João Cândido, teve início uma nova fase, de consolidação do acampamento.

Divididos em 36 grupos, de 100 a 180 famílias, os ocupantes escolheram não só coordenadores como também os responsáveis pela disciplina, infra-estrutura e condições sanitárias. Cozinhas coletivas foram supridas com o auxílio de organizações amigas que enviam alimentos e, principalmente, com a participação voluntária dos sem-teto. Artistas contribuíram com apresentações e shows musicais. Estudantes animaram oficinas de teatro e atividades culturais.

Todas as tardes são dados cursos de formação política. Durante as reuniões diárias, realizadas dentro de cada grupo e entre os responsáveis pelos setores, os ocupantes são informados dos últimos acontecimentos, debatem a organização do acampamento, decidem as ações a serem empreendidas para popularizar a luta e fazer pressão sobre as autoridades. Assim como Rose Mary dos Anjos, eleita coordenadora do grupo quinze, as mulheres estão muito presentes no movimento e assumem responsabilidades em todos os níveis. “Ajudar esse mundo de gente a coexistir não é tarefa das mais fáceis, principalmente nestas condições: sem água corrente, sem eletricidade, numa total falta de privacidade a todo instante”, afirma. “Ao mesmo tempo, existe entusiasmo. Na favela, cada um tenta sobreviver como pode, cada um por si. Aqui é outra coisa, a solidariedade é a regra número um.”

Essa revolução nos valores, a consciência de ter sacudido o manto de resignação que pesava sobre seus ombros, a dignidade recuperada e o orgulho de ter-se tornado parte ativa de um empreendimento coletivo são sentimentos de que os moradores de João Cândido dão testemunho recorrente.

Conforme afirma Helena Silvestre, uma das coordenadoras do MTST, “um acampamento de sem-teto é uma escola de democracia participativa onde se formam os futuros dirigentes comunitários. A partir de uma preocupação concreta — a moradia —, queremos contribuir para lançar as bases de um genuíno poder popular”. Zeloso de sua independência em relação aos partidos políticos, o MTST não se permite dar orientação de voto e recusa integrar qualquer uma das coordenações dos movimentos populares existentes. “O que não nos impede de manter relações cordiais com estes últimos e com o conjunto das forças de esquerda”, completa Helena.

Desse modo, ao longo do mês de abril, os sem-teto participaram de manifestações organizadas pelos sindicatos de professores, pelos sem-terra e, no Primeiro de Maio, desfilaram na ala da esquerda radical. “Pensamos que é possível unificar, em torno de objetivos comuns, as lutas que são atualmente travadas isoladamente nas diversas comunidades4. E é por meio dessas lutas que nosso movimento ganha força e incorpora novos militantes”, diz Helena. “Enquanto isso”, sorri, “não dispomos sequer de sede própria, tampouco de meios para pagar salários dos coordenadores.”  

Osso duro de roer

A despeito do inegável dinamismo e da notável organização de seus acampamentos, o MTST segue sendo um movimento um tanto informal. Em torno de uma direção colegiada cuja legitimidade está acima de qualquer contestação, embora não eleita, gravita um nódulo militante composto de elementos heterogêneos — trânsfugas do MST, líderes comunitários, famílias que se juntaram ao MTST durante ocupações anteriores, sindicalistas, estudantes oriundos de círculos de esquerda radical ou de esferas de influência antiglobalizantes etc. “Mas nossa força”, insiste Helena, “reside na capacidade de mobilização da população favelada.” Apontando um grupo de barracos construídos no flanco da colina sobre a qual tremula estalando a bandeira de um osso, ela acrescenta: “Morro do Osso. Os companheiros do grupo oito escolheram esse nome porque acreditam que, para as autoridades, os sem-teto serão um osso duro de roer”.

No dia 18 de maio, os sem-teto de João Cândido acabaram sendo obrigados a abandonar a área ocupada. No entanto, obtiveram por escrito dos governos federal e estadual o compromisso de construção de moradias para todos os ocupantes. Com esse fim, a prefeitura de Itapecerica da Serra sugeriu um terreno no qual 350 famílias sem qualquer outra solução de abrigo imediato ergueram um novo acampamento.

Philippe Revelli é jornalista.

1 Filho de ex-escravos, João Cândido Felisberto (1880-1969) liderou os marinheiros brasileiros na célebre Revolta da Chibata (1910). Nesta, insurgindo-se contra os baixos soldos, a má alimentação e os castigos corporais praticados na Marinha, os tripulantes dos navios de guerra ancorados no porto do Rio de Janeiro voltaram seus canhões contra a então capital federal. A rebelião terminou com a promessa governamental de abolir o uso da chibata. Mas João Cândido foi, pouco depois, expulso da Marinha e sofreu discriminações até o fim da vida. João Bosco e Aldir Blanc homenagearam sua memória na música “O Mestre-Sala dos Mares”. 
2 De acordo com estudo do CEM — Centro de Estudos da Metrópole.
3 Fonte: Déficit Habitacional no Brasil 2000, estudo da Fundação João Pinheiro.
4 Considerando que o conceito de sem-teto não dá conta da totalidade de sua ação, o MTST fundou, em 2005, a associação Periferia Ativa. Esta prepara uma campanha visando reivindicar a outorga de uma “tarifa social da eletricidade” para famílias de baixa renda. Ver também o site do MTST: www.mtst.info http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=90

 

"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"

 
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Não é de espantar que a PM planeja uma repressão...

Para quem se interessa sobre o assunto e gosta de um bom doc, tem ótimo À Margem do Concreto de 2006 que mostra o dia-a-dia das ocupações do Movimento Sem-Teto de São Paulo:

À Margem do Concreto

À Margem do Concreto, de Evaldo Mocarzel, Brasil, 2005 - É Tudo Verdade

  À Margem do Concreto é a segunda parte da tetralogia de um dos mais premiados documentaristas brasileiros dos últimos anos, Evaldo Mocarzel, dedicada a uma São Paulo que existe à margem da São Paulo “oficial”.
Mocarzel é um diretor que aposta na função social do cinema, de conscientização de uma parcela da população e de espaço de expressão para uma outra que, não fosse por esse veículo, permaneceria relegada à invisibilidade. Foi assim em À Margem da Imagem, longa de estréia do diretor sobre moradores de rua em São Paulo, e também em Do Luto à Luta, documentário premiado em Gramado sobre portadores da Síndrome de Down.
Neste seu mais recente filme, ovacionado no Festival de Brasília, de onde saiu com o prêmio de público, Mocarzel foca sua câmera no movimento social dos sem-teto. Partindo da estatística de que a região central de São Paulo possui uma taxa de desocupação de imóveis próxima a 30%, enquanto muitos paulistanos não possuem um lugar para morar, o diretor busca documentar quem são as pessoas por trás das ocupações de edifícios que, de tempos em tempos, irrompem nos meios de comunicação.
“Como a mídia os rotula de ‘invasores’ e ‘baderneiros’, vários filmes podem ajudar a legitimar uma luta que é digna”, diz o diretor, justificando a alcunha de “anti-reportagem” que ele próprio designou ao filme. Pois é justamente esse o principal objetivo de À Margem do Concreto: desestigmatizar as pessoas envolvidas nos movimentos de luta por moradias.
Sente-se falta, para um panorama mais amplo da questão, de um histórico sobre a origem do déficit habitacional e de propostas para sua solução, bem como de depoimentos dos outros lados envolvidos, mas esse foco exclusivo nos integrantes dos movimentos reivindicatórios parece fazer parte consciente da estratégia do diretor. O que temos é simplesmente a exposição de um problema e as motivações e histórias de vida por trás das pessoas envolvidas, em um retrato de força rara em um gênero que costuma priorizar uma suposta imparcialidade acima de tudo.
Os depoimentos dos líderes dos movimentos dos sem-teto impressionam pelo nível de conscientização e organização desses grupos. Longe da imagem de um povo cordial e submisso, eles tomam a responsabilidade por seu destino nas mãos, a despeito das dificuldades impostas pelo poder público. “Às vezes, temos que virar foras da lei para fazer valer a lei”, afirma uma das entrevistadas. A presença maciça das mulheres na liderança do movimento, a propósito, é outro fator que chama a atenção não apenas neste documentário, mas também em Dia de Festa, filme de Toni Venturi sobre o mesmo tema.O discurso dos líderes é por vezes anacrônico (citações a Lênin, Marx e Guevara são freqüentes), mas demonstram que a luta de classes, longe de ter sido extinta pela globalização, continua cada vez mais forte.Há diversos momentos interessantes no documentário, como os que retratam a auto-gestão dos moradores de prédios ocupados (o que inclui aulas de reforço para as crianças utilizando-se a metodologia de Paulo Freire), a ênfase dada pelas lideranças no termo “ocupação” em contraposição ao “invasão” utilizado pela mídia, o momento em que o diretor reúne todas as lideranças entrevistadas para assistirem reportagens realizadas sobre as ocupações e discutirem a visão da mídia e da sociedade sobre eles, e por último, numa das imagens mais fortes do documentário, uma criança, sonolenta e assustada, chupando o dedo em meio ao choque com policiais em uma ocupação.
E é justamente com uma ocupação real, captada por três câmeras simultaneamente, que Mocazel encerra o filme, num clímax que o aproxima de um thriller. Acompanhamos desde os preparativos, a ocupação do edifício durante a madrugada, a chegada da polícia e o conflito com os manifestantes, incluindo tiros e bombas, em cenas normalmente vinculadas a guerrilhas urbanas em lugares como Iraque ou Afeganistão, mas que ocorriam a poucos metros do Teatro Municipal de São Paulo.

Aproximando-se perigosamente da espetacularização, o final catártico de À Margem do Concreto busca na verdade um chamado à conscientização, a uma tomada de atitude por parte do espectador diante das imagens e pessoas que lhe foram mostradas, numa tentativa do diretor de atuar sobre a realidade retratada. Infelizmente, o histórico de documentários sociais de nossa filmografia nos alerta para a ineficiência desse tipo de filme em alterar o status quo de nossa sociedade. Mas a insistência nessa tentativa, apesar das evidências em contrário, não é uma das funções mais nobres do documentário?

http://enquadramento.blogspot.com/2006/03/margem-do-concreto.html

 

"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"

 

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