Ipea entra na briga contra IDH

Da Carta Maior

Ipea diz que desigualdade caiu 22% e entra na briga contra IDH

Diferença na renda domiciliar recua 22% de 1980 a 2010, segundo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Presidente do Ipea, Marcio Pochmann, reforça críticas do governo e diz que desenvolvimento humano do país medido pela Pnud sofre de falta de transparência e precisa passar por escrutínio. Credibilidade do IDH estaria ameaçada, e Ipea fala em criar índice próprio.

BRASÍLIA – A desigualdade de renda entre as residências brasileiras diminuiu 22% entre 1980 e 2010. Depois de subir 2% na hiperinflacionária e estagnada década de 80, caiu nas duas seguintes – de forma mais acentuada nos anos 90 (19%), quando os preços foram domados pelo plano real, e menos na seguinte (8%), em que baixou à base de crescimento, emprego e programas sociais.

A melhoria na distribuição da renda per capita entre domicílios do país foi calculada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir de dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010 e divulgado este ano. 

Sem ter certeza de que este tipo de avanço, especialmente o mais recente, tenha sido todo captado pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apontado para o Brasil, o Ipea começa a botar em cheque a credibilidade do relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). E diz estar pronto para produzir um IDH próprio, caso o Pnud não se mostre convincente.

Após a divulgação do IDH 2010, o Ipea procurou o Pnud para dizer que estava desconfiado da nota brasileira, fez críticas metodológicas ao relatório e pediu para conhecer dados e metodologia. 

Em resposta, a agência decidiu convidar especialistas para participar de um “grupo de peritos” que acompanharia a preparação do IDH 2011, ao longo do primeiro semestre. O representante brasileiro foi o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

As críticas e desconfianças foram reafirmadas durante o acompanhamento mas, para Pochmann, em vão. Em 2011, o Pnud teria repetido o comportamento merecedor de reparos. O Ipea quer saber com que dados exatamente a ONU trabalha para fechar o IDH - índice que leva em conta expectativa de vida, escolaridade e renda -, como eles são escolhidos e se são consolidados ou projeções.

“Não sabemos se o IDH brasileiro vai melhorar ou piorar, mas precisamos saber como é calculado”, disse Pochmann. “Há uma insatisfação que não é só do Brasil. Há uma preocupação exagerada [do Pnud] com tabelas e não com conteúdo. Do jeito que está, o IDH não pode ser reproduzido por especialistas”, afirmou o economista, que deu entrevista coletiva nesta quinta-feira (10) para apresentar os dados da desigualdade domiciliar e aproveitou para contestar o Pnud.

A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, que falou em nome do governo sobre o IDH brasileiro – o país está na posição 84, entre 187 países – havia feito as mesmas críticas.

O trabalho do Ipea, sintetizado numa nota técnica, vai subsidiar considerações que outros órgãos federais venham a fazer sobre o assunto, como os ministérios da Saúde e da Educação. Inclusive uma reclamação oficial e por escrito que o ministério das Relações Exteriores, em linguagem diplomática, deve mandar ao escritório central da ONU, em Nova York.

O governo queixa-se do IDH desde a gestão Lula pois acha que as melhorias do país ao longo da última década estariam subdimensionadas no relatório do Pnud. É uma reclamação também de caráter político, já que o resultado pode servir para os adversários do governo criticaram as gestões petistas.

Procurada pela reportagem, a agência da ONU respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa no Brasil, que precisa conhecer a nota técnica do Ipea primeiro, antes de se manifestar.

(*) Confira a íntegra da nota técnica "Considerações do IPEA acerca do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2011, do PNUD"

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10 comentários
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Gunter Zibell - SP

É útil isso para tornar os países comparáveis. Não dá para usar dados de 2004 para uns, 2008 para outros.

De qualquer modo, mais cedo ou mais tarde os dados são incorporados e as estimativas para trás recalculadas se necessário. O crescimento do PIB de 2010 também ainda não foi incorporado. Aguarde-se o final de 2012, com números até 2010, para se ver que ocorrerá mudança na posição do Brasil.

Essa não foi a 1a. rata do PNUD com o Brasil. Os dados de evolução de educação (alfabetização e cobertura escolar para até 14 anos), de 15 anos (1985 a 1995) foram todos imputados de uma só vez, em 1995 (com divulgação em 1997). Por isso houve um crescimento súbito do IDH naquela ocasião (em que as estimativas históricas eram divulgadas para cada 5 anos.) Isto é, foi como se de 1981 a 1985 e de 1986 a 1990 não tivesse havido evolução.

Mas nada disso é intencional. As agências têm número limitado de analistas. É até engraçado se alguém baixar as planilhas do PNUD, vê-se nas células "dado imputado por fulano de tal, estimativa feita por sicrano".

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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DanielQuireza

É sempre interessante se discutirem e esmiuçarem os indicadores sim. Não se pode aceitar fórmulas prontas. É discutindo, acertanto e errando que se aprende.

 

@DanielQuireza

 
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Clever Mendes de Oliveira

Luis Nassif,

Deixo aqui um link para um comentário que enviei quarta-feira, 09/11/2011 às 18:52 para junto do comentário de Chico Pedro que ele enviara sexta-feira, 04/11/2011 às 12:02 para o post “O Brasil policêntrico”. O endereço do post é:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-brasil-policentrico

Não sei o teor das críticas de Marcio Pochmann, mas creio que o governo está dando muita importância a algo que não tem essa importância que se propala. Primeiro há que se vê um problema do IDH. Trata-se de um índice em construção e ainda bastante precário. Segundo há que se levar em conta a realidade brasileira. A distribuição de renda no Brasil é uma das piores do mundo e, portanto, o IDH vai de certo modo evidenciar isso e a evidência é maior quando o IDH dá mais destaque à desigualdade. E a melhora da distribuição de renda só vai trazer melhora no IDH no longo prazo à medida que a melhora na distribuição permitir que as pessoas tenham melhor saúde e tenham mais horas de estudo. E terceiro, e esse para mim é o ponto mais relevante, é que o IDH tem um suporte muito grande na renda per capita. Se se coloca os países com base territorial superior a 500.000 quilômetros quadrados vai-se observar que a colocação desses países com base na renda per capita aproxima da colocação com base no IDH. Enfim o que conta para o IDH ainda é o PIB e o tamanho da população. E ai eu lembro que o que eu chamo de relevante nesse terceiro ponto não é a renda per capita, mas o ano do PIB que se escolheu para entrar no cálculo do IDH de 2011. O PIB que se utilizou não foi o de 2010, mas o de 2009. E cabe para o PIB de 2009 uma particularidade. Como o Brasil tem uma economia muito liberal no sentido de capitalista e uma relativamente grande inserção no mercado internacional, a crise de 2008 nos atingiu muito mais do que atingiu a países com características econômicas diferentes. Percebe-se que a crise de 2008 nos atingiu mais fortemente, principalmente quando se compara o Brasil com países que tinham mais no comércio a sua base econômica, a grande maioria deles, principalmente dos pequenos países, ou quando se compara o Brasil com países que tinham a base em serviços mais especializados. Assim, a queda do PIB em 2009 afetou mais os países já bem desenvolvidos e outros países em desenvolvimento que não tinham um controle muito centralizado sobre a economia e a base da economia ainda tinha e tem uma parte expressiva no comércio exterior e na índústria como é o caso do Brasil. No caso dos países desenvolvidos a perda do PIB não faz cócegas no índice de IDH, pois são índices muitos altos já não tão dependentes do crescimento ou decrescimento do PIB. E assim, no cálculo do IDH para o ano de 2011, o Brasil sai mal na fita, mas no ano que vem com os dados de 2010, o Brasil ganha muitas posições.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 11/11/2011

 
 
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Clever Mendes de Oliveira

Luis Nassif,

Nesse meu comentário enviado sexta-feira, 11/11/2011 às 13:47, eu fiz referência ao comentário de Chico Pedro no post “O Brasil policêntrico”, mas não justifiquei a minha referência. Embora o meu comentário tenha sido para fazer algumas observações à concepção de planejamento estratégico de Chico Pedro, eu aproveitei também para analisar o IDH uma vez que Chico Pedro fez referência à critica de Lula à falta de reação do governo diante dos dados do IDH. Dai porque eu tenha indicado neste post “Ipea entra na briga contra IDH” o comentário que eu enviei para o Chico Pedro.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 11/11/2011

 
 
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Marcos_Vinicius

É sempre assim, quando o indicador não mostra o que se quer, ataca-se a metodologia e busca-se fazer um próprio. 

É claro que todo indicador agregado tem problemas, mas criticar a metodologia de um indicador que existe há mais de década e contou com o apoio de prêmios Nobel sérios não faz sentido. Achar que um indicador próprio vai ter mais credibilidade que o IDH é ridículo.

Se o IPEA apresentar algum argumento e exmplos claros e sólidos, até dá para colocar o resultado do IDH em cheque. Mas a nota técnica do IPEA é forte apenas na retórica, mas em termos técnicos muito pouco consistente: por exemplo, questionar agora a forma de utilização do IDH é mostrar ignorância sobre os argumentos do próprio Amartya Sen no tema quando da preparação do primeiro relatório do IDH.

 
 
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cariry

Onde está reproduzida a Nota Técnica do IPEA? Não falo da notícia sobre tal mas da própria nota. Não consta do post a tal Nota.

 

"Seja realista: exija o impossível"

 
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raquel_

(*) Confira a íntegra da nota técnica "Considerações do IPEA acerca do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2011, do PNUD"

 

"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"

 
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Cascudo

Certo, certo, certo.

Mas se os cálculos do tal indicador não pode ser reproduzido por terceiros, significa que não tem transparência e portanto não é confiável.

 

 

 
 
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rique

Desnecessário   reflexões  tortuosas e sofisticadas:quando a Unesco sofre represália do presidente dos EUA,pode se  levar em conta, a fragilidade das decisões,técnicas  com consequências políticas,possam vir a ter numa organização que sobrevive das contribuições da  bolsa dos  extramente ricos.

Espertamente,  a ONU,é divida em feudos,com o propósito estratégico de  vulnerabilizá-la.Ficando  na frágil dependência da manipulação dos "acionistas  controladores".Aliás,  oportuno,  ler,o relatório sobre a  destruição da  agricultura   do Haiti,por quem   tinha o dever de protegê-la e  incrementar.

 

rique

 
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armando botelho

A verdade é que o Ipea não confia nos dados do IDH divulgado pela ONU .  Como ja dizia a cartomante : As cartas não mentem jamais , e eu acrecentaria :Os numéros não mentem jamais , resta questionar a metodologia científica aplicada , por sinal a matéria com a qual dificilmente eu entrava num acordo ,detesto números . Mas voltando aos dados , tem jente que tambem sempre questionava a dita popularidade do Lula , e na hora do voto , não houve o repasse para as urnas nas quantificação lógica que seria 85% de votos para Dilma , mas não foi o que aconteceu . Quanto ao IDH , estamos la pelos 86° lugar no mundo , talvez pelo IBOP , estariamos entre os primeiros , ai estariam todos felizes como pinto no lixo .

 
 

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