Arquitetos reinventam favelas em SP

Por Marcos Costa

Da Folha de S. Paulo

Arquitetos reinventam favelas em SP

Escritórios prestigiados da cidade ganham concursos para reurbanizar ocupações e construir ‘cohabs’ de qualidade


Responsável por setor na prefeitura nega que profissional encareça projeto; área na Billings ganha parque linear

RAUL JUSTE LORES
EDITOR DE MERCADO

Escritórios de primeiro time da arquitetura paulistana estão trabalhando na reurbanização de favelas, criando parques em áreas mananciais ocupadas irregularmente e criando 17 mil apartamentos em conjuntos habitacionais no lugar dos barracos.

Depois de décadas de Cingapuras ou cópias de Cidade Tiradentes e Cidade de Deus, bons arquitetos foram convocados para combater a monotonia de dezenas de prédios iguais enfileirados.

“O valor do projeto do arquiteto representa um percentual mínimo no total da obra, uns 2%”, estima a superintendente de Habitação Popular da Prefeitura de São Paulo, Elisabete França.

A arquiteta é considerada madrinha da invasão de arquitetos no mundo de cachês e orçamentos modestos e dificuldades superlativas da administração pública.

“Antes, passavam-se dois anos e já havia invasões, a manutenção era falha e havia problemas com a arquitetura”, diz Bete, como é conhecida, dizendo que moradores estão recebendo treinamento e cursos para síndicos na Universidade Secovi.

Ela cita janelas maiores, ventilação cruzada e chuveiro econômico como as principais mudanças implementadas. “Heitor Vigliecca fez algumas salas e cozinhas conjugadas, pedidas pelos moradores, que adoram receber visitas e cozinhar.”

O escritório Andrade Morettin está reformando Cingapuras na zona norte. Mário Biselli projeta 500 unidades em prédios com passarelas e pátios internos. O escritório MMBB faz prédios altos no Jardim Edith.

Entre outros escritórios vencedores nos concursos da Secretaria Municipal de Habitação, estão Una, Brasil Arquitetura, Marcos Acayaba, Ciro Pirondi, Cláudio Libeskind e Álvaro Puntoni.

Na média, as unidades custam R$ 75 mil, têm dois quartos e 52 m² (exíguos, como lançamentos nas áreas nobres). O financiamento é por 25 anos, com mensalidades que não podem ultrapassar 25% da renda da família (prestação comum é de R$ 120).

“Ao entrar no apartamento novo, o morador vira classe média, com endereço registrado. Quase ninguém leva os móveis da época em que vivia na favela”, compara.

CANTINHO DO CÉU

O xodó da Secretaria de Habitação (Sehab) é a reurbanização de área no Grajaú, às margens da represa Billings, onde 40 mil pessoas vivem, pouco mais que a população de Higienópolis.

Chamado de Cantinho do Céu, a 30 km ao sul da avenida Paulista, o projeto substitui barracos sem esgoto por casas, pavimenta ruas e cria um parque linear de 7 km

(2 km já concluídos).

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas desenvolveu tijolos permeáveis para colocar no calçadão do parque linear, e os bueiros das ruas recém-pavimentadas foram instalados em um declive no meio delas, em vez das laterais, para evitar que as chuvas alaguem as casas.

Pista de skate, campinhos de futebol, deques de madeira, lixeiras para material reciclável, playgrounds e aparelhos de ginástica para idosos foram instalados.

Como o bairro fica vazio durante a semana -boa parte dos moradores trabalha a duas horas dali em transporte público- é no fim de semana que rodas de samba e grupos de ginástica ocupam os deques.

Transporte e segurança são reclamações frequentes de moradores, que admitem que seu bairro, pelo menos, ficou bem diferente da cinzenta periferia paulistana.

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9 comentários
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jucapastori

Se fossem levados à sério...

 
 
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André LB

  URRAH!!! MAS ESTAVA DIFÍCIL DE ALGUÉM RESOLVER FAZER ALGO DECENTE, HEIN???

  Deixando de lado o necessário embelezamento MESMO em conjuntos habitacionais, o fato é que o mercado imobiliário precifica tais melhorias e logo surge a tentação dos proprietários venderem seus imóveis populares. Nada mais natural, eu próprio me sentiria tentado.

  Para ser franco, não sei como é o sistema atual, mas... não seria mais lógico um sistema de alugueis subsidiados pelo poder público? Com o compromisso de conservar adequadamente o imóvel, ninguém teria interesse em buscar outro lugar para morar e a especulação imobiliária não pressionaria o deslocamento desses habitantes.

  Ah é, esqueci que o prefeito e os vereadores de São Paulo comem na mão dos incorporadores imobiliários. Que bobo que sou.

 
 
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Raí

Planos, apenas planos !

Em São Paulo, sempre permearam os melhores e mais revolucionários planos de ocupação inteligente do espaço público, para fins imobiliários, que sairam das maquetes dos melhores arquitetos e urbanistas do Brasil, como os citados na matéria da Folha, porem todos estes "planos"esbarraram na burocracia e na falta de vontade política da Prefeitura, e nas prioridades dos investimentos municipais, quando estes são direcionados aos ocupantes destes espaços, de forma irregular, como acontece com a maioria das favelas paulistanas e das ocupações em áreas de mananciais e encostas, e nada sai do papel, embora nas vésperas das eleições municipais, os candidatos apresentem estes planos milagrosos, que voltam às gavetas, logo após o fim das eleições.

Planos, somente planos !

 

Sempre ficamos mais experientes, após perdermos algumas batalhas, na guerra diária da vida.

 
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Luiz Eduardo Brandão

Que coisa mais grotesca a secretária ter de responder à pergunta de que a contratação de arquitetos de primeiro time, como o Acayaba, "encareça" os projetos! Pobre não merece coisa boa? Acayaba só pode projetar para a massa cheirosa dos diferenciados? Quando vai acabar essa mentalidade repugnante de escravocratas, que o autor da matéria da Folha houve por bem veicular? A superintendente está de parabéns pela iniciativa mais do que oportuna. Tomá-la já a desculpa pela tímida resposta à pergunta cretina (preconceituosa, seria melhor dizer) da Folha.

 

"Quem não se comunica, se trumbica", Chacrinha

 
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Fabio.

Quando se ocupam areas de mananciais , encostas ( Estrada de Santos) varzea de rio e deixam tomar esta dimensão ,  qualquer planejamento urbano pode ser jogado no lixo. Depois inunda , falta água potável ,cai morro não sabem porque de tudo isto. Planejamento Urbano no Brasil é uma peça de "ficção cientifica".Primeiro começa com um vereador distribuindo "direito de posse para qualquer invasão" e depois vem o governo municipal ou estadual sacramentar estas  ocupações, enquanto areas enormes urbanizadas ( centro de SP) ficam abandonadas. é a nossa maneira de ocupar , quando se planeja não leva adiante as politicas urbanas deixando um contingente enorme de pessoas sem uma casa para morar. Em 2012 o plano diretor de Sp vai ser revisto novamente , e tanto faz pois a especulação imobiliário  e os posseiros de plantão já traçaram o rumo desta cidade. 


 

 
 
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Lucinei

Essas arquitetices de alguns sempre custaram mais caro que o saneamento para multidões, mesmo com o superfaturamento dos empreiteiros. São muito chiques...

 
 
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Rom

Comentando a foto:

Vejo mais uma praça ou parque, onde nenhum banco tem encosto. Banco sem enconto são horrivéis! Vá numa praça da Europa ou EEUU, dificilmente vai encontrar banco sem encosto. A velha história de economizar e assim se cria uma coisa que pouca gente vai ter vontade de usar.

 
 
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Vinicius Carioca

Bela iniciativa...os prédios de cohab realmente são muito feios. Dava a impressão de sair pra favela e ir pra um cortiço. O preço do imóvel, com a especulação que tomou conta do mercado no Brasil, até que está razoável, considerando que é SP.

 
 
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Jakson Alencar

Vi essa matéria na Folha. Fiquei bestificado de ver na foto como as favelas da chuíça são chiques!

A matéria só não fala de favelas que são incendiadas criminalmente com frequência em SP para dar lugar a empreendimentos imobiliários.

 
 

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