Mais lenha na fogueira do debate sobre direito autoral

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Cibercondição - de Hermano Vianna - O Globo - 13/01/2012

O que considero mais interessante na história de “Ai se eu te pego” não é seu atual sucesso mundial, mas sim o processo de sua composição e divulgação, antes de chegar aos ouvidos de Michel Teló. Os detalhes podem parecer únicos, irrepetíveis, mas na verdade — depois de uma análise nem tão cuidadosa assim — revelam um padrão já dominante na indústria cultural pós-internet, bem popular no Brasil (talvez sejamos até a vanguarda nesse tipo de estratégia criativa-mercadológica). Peço desculpa se vou contar o que todo mundo já sabe. Considero de extrema importância encarar o que é mais óbvio com olhar mais curioso, capaz de nos fazer entender o mundo em que passamos a viver.

Tudo começou no Axé Moi, de Porto Seguro, local descrito em seu próprio site como “complexo de lazer”, ou “a maior estrutura de praia do Brasil”. Gosto de imaginar que essa estrutura foi construída sobre areias onde o pessoal de Cabral pisou pela primeira vez em nossas terras. Pois bem, o Axé Moi produz espetáculos para entreter os turistas que visitam Porto Seguro. Sharon Acioly foi durante muito tempo a sacerdotisa da diversão no complexo, com várias funções, de cantora a animadora. Seu papel ali não era ser protagonista de uma obra de arte; ela precisava manter o público brincando sem parar. Para isso inventava jogos. Um deles virou febre nacional anos atrás. Sharon “pegou” uma brincadeira trazida para o litoral sul da Bahia por turistas universitários paulistas e mineiros e popularizou a “dança do quadrado”. Como o show não pode parar nem sobrevive com os hits da estação passada, ela criou um funk para funcionar como trilha sonora do momento em que as turistas sobem ao palco para conferir de perto, pele a pele, os dotes dos dançarinos. Esse funk, que pode ser conferido em dezenas de vídeos que viajantes publicam no YouTube como álbuns digitais de suas férias, tinha o refrão “ai se eu te pego”.

De passagem por Porto Seguro, Antônio Dyggs, produtor de baladas de Feira de Santana, foi conferir a animação do Axé Moi. Ficou com o “ai se eu te pego” na cabeça e resolveu transformar o funk num forró para ser gravado pela Os Meninos do Seu Zeh, uma das bandas (autoclassificada como “forró universitário pé de serra”) que empresaria. Apesar de ter ritmo arrastado, a música fez sucesso em várias cidades baianas, chamando a atenção de outras bandas de forró, que lançaram imediatamente suas regravações, cada vez mais animadas. Michel Teló só conheceu seu futuro hit mundial quando ele já fazia parte do repertório da Cangaia de Jegue e da Garota Safada (só para citar as mais conhecidas), botando o povo para dançar e cantar por todo o Nordeste. Antônio Dyggs acompanhava tudo maravilhado. Ele declarou para o site Nacola: “A sensação de ter uma composição sua tocada por mais de 50 bandas é fantástica. Arrepio-me cada vez que ouço o ‘Ai se eu te pego’ sendo tocado em forró, pagode, salsa, mambo, funk, arrocha etc.”

Essa é a característica mais evidente da nossa atual cena musical popular brasileira. Todos os sucessos são rapidamente rearranjados para todos os ritmos. A maior parte dos grupos atua como bandas de bailes: não se prende a um repertório próprio e toca todos os hits do momento. Tudo é funcional. Os músicos estão ali para animar a balada, como fazia Sharon Acioly no Axé Moi.

Em conversa comigo, Chimbinha, guitarrista e maestro da Banda Calypso, uma vez reclamou da nova situação, já considerando obsoleto o modelo de negócio alternativo que tinha desenvolvido para driblar a crise da indústria fonográfica. Para ele, o CD era cartão de visitas, atraindo público para os shows. O problema é que nem todas as canções desses CDs faziam sucesso. Então como competir com os CDs lançados por bandas novas, só com os sucessos dos outros? Chimbinha temia também que a nova situação acabasse por impedir a popularização de artistas em início de carreira. Se os novatos lançassem qualquer canção com cheiro de hit, as bandas mais populares logo produziriam suas regravações, fazendo sucesso em seu lugar. Certamente isso é problema. Mas não há volta: a realidade atropela todo mundo, e daqui a pouco uma outra maneira de chegar ao estrelato vai aparecer, derrubando a que predomina no momento. Talvez ninguém mais consiga ter carreira longa e estável fazendo/tocando música. Tudo pode ficar espantosamente efêmero ou veloz, como neutrinos mais rápidos (há controvérsia...) que a luz.

Outra noção que parecia sólida, mas está cada vez mais velozmente se desmanchando no ar, é a de composição. Todo mundo se lembra ainda de “Minha mulher não deixa não”, o hit do verão passado? A origem do refrão parece ter sido uma música infantil lançada décadas atrás por uma gravadora pernambucana. E isso virou problema menor diante da avalanche de vídeos publicados na internet, com gente fazendo suas versões (claro que não autorizadas) do sucesso, um respondendo ao outro de forma não centralizada, numa conversa que não tem fim. Volto a dizer: era assim no “folclore”. Um grupo “pegava” a invenção do outro em regime de transformação contínua, sem dono. Tudo caía na brincadeira. E os participantes eram chamados de brincantes, e não de autores. Importava o processo, o remix eterno, não o produto acabado, de um só dono. Como era gostoso o domínio público. Era? É, será: o domínio público é nosso destino e inapelável futura cibercondição.

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13 comentários
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foo

Adorei a conclusão do artigo:

"Volto a dizer: era assim no “folclore”. Um grupo “pegava” a invenção do outro em regime de transformação contínua, sem dono. Tudo caía na brincadeira. E os participantes eram chamados de brincantes, e não de autores. Importava o processo, o remix eterno, não o produto acabado, de um só dono. Como era gostoso o domínio público. Era? É, será: o domínio público é nosso destino e inapelável futura cibercondição."

Era assim, sempre foi assim -- por uma breve exceção, no século XX, o século que quase acabou com o domínio público.


 
 
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Erly Ricci

O que é importante na arte e que faz o artista reconhecido é a identidade que ele imprime na sua arte. Ninguém plagia Tom JOBIM ou Hermeto Paschoal, assim como ninguém jamais vai conseguir tocar como Raphael Rabelo. Então, o direito autoral, com ou sem internet, passa por esse critério de qualidade artistica

 

"pelos caminhos que ando um dia vai ser, só não sei quando" - Paulo Leminski

 
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Erly Ricci

Esse negócio de plágio como no caso citado é igual a pirataria. Você não vê cd pirata de Edu Lobo, João Bosco, Chico Buarque, Tom Jobim, Dorival Caymmi e seus filhos,  e nem de compositores mais recentes como Lenine, Guinga, Chico César e Zéca Baleiro, só para citar alguns mais conhecidos. A pirataria e o plágio só são feitos com as coisas mais medíocres, até porque pra tocar algo de alto nível é preciso ter igual qualidade. 

 

"pelos caminhos que ando um dia vai ser, só não sei quando" - Paulo Leminski

 
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Elmer Oliveira

Direito Autoral no século 21 com bases em leis do século 19 beira o absurdo! Não existe letra, batuque, desenho ou rabisco que já nao tenha sido registrada nos últimos 50 anos! A evolução humana sempre foi baseada na aprendizagem e no crescimento baseado nas sustentações existentes. O Direito Autoral é necessário, mas precisa mudar, ou será que somente os primeiros serão os últimos?

 
 
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Marco St.

Falando em plágios, direitos autorais e quetais, o supra-sumo dessa história é essa aqui:

 Após deixar o Creedence Clearwater Revival, o líder e principal compositor da banda, John Fogerty foi impedido de cantar as músicas que compôs com a banda em sua carreira solo! A briga de Fogerty com a gravadora, Fantasy Records, chegou a surreal situação de se ter John Fogerty acusado de plágio dele mesmo, ou seja, uma música de sua carreira-solo ("The Old Man Down The Road") seria uma cópia de sua música da época do CCR ("Run Through de Jungle"), segundo Saul Zaentz, presidente da Fantasy Records. Só essa peleja rendeu 3 anos de dor-de-cabeça até a absolvição de John. Essa é a única vez na história da música que um compositor é acusado de plágio por uma música dele mesmo.

 

"Que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?" Bertolt Brecht

 
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alexandre a.moreira

Você só comenta parte do fenomeno musical e, sem querer ser pedante, é o fenomeno da música 'fast food' que sempre existiu e sempre existirá. Acho difícil generalizar tanto assim a análise do problema de sobrevivência do músico. Neste contexto que você coloca a canabalização seria tão radical que dá no que dá : A "música" não passa de um refrão, frase que pode ser óbviamente tocada ao 'ritmo', 'estilo' que o freguês bem entender.No final é só mudar de chave no sampler por que qualidade é desnecessária. 

Não dá para fugir das 'singularidades' possíveis do ser humano e são essas que são depuradas num show ou CD que fica, faz um sucesso mais prolongado e tem intrisicamente mais folego cultural e com um pouco de SORTE mercadológico.

Acho que a volta do show é um bem para o músico e um desafio para os agentes deste mercado. A máquina moedora de carne da indúdtria fonográfica e seu monopólio de fabricação e distribuição ganharam um concorrente de peso via novas tecnologias. Não deixa de ser um ambiente instigante e definitivamente MUITO mais democrático e anárquico.

 

alexandre A. moreira

 
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Odorico Carvalho

Atuando na área musical há bastante tempo, já tive que enfrentar esse tipo de problema. Tem músicas de minha autoria já com mais de vinte regravações sem que eu tenha autorizado uma única vez. E o pior que nas capas dos CDs nem citam o nome do autor. Enfim, a música virou território sem lei.

 
 
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Rodney

E ainda tem hipócrita que diz que o que vai falir os artistas (aqueles que cobram 500 mil por show e tem casa em Boca Raton) é o carinha que faz download de música.

 
 
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Michel

Ah, as versões e os direitos autorais... Se fosse levar à risca, não escaparia nem o hino do América F.C. do RJ, considerado um dos mais bonitos do futebol brasileiro. Muitos brincam que a beleza do hino é pelo fato de o autor, Lamartine Babo (que tb compôs os hinos dos maiores clubes cariocas) ter sido americano de coração.  

http://www.youtube.com/watch?v=QuIbW0wGSAY

 
 
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Luciano Rosas

Lobão que o diga, né Herbert?

 
 
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Ivan Moraes

Resumindo tudo, Carlos, voce disse que a tal "musica" de Michel Telo eh um plagio descarado de outro trabalho.  Sei disso porque ja apareceu o mesmissimo caso aqui ha dois anos atraz quando alguem postou ambos a musica brasileira mais licenciada no Japao e no mundo com o original que originou aquela "musica".

Ooooookkkaaayyyyy...

Esperando a gravacao originao de "Se eu te agarro" ou coisa parecida.  Exceto dessa vez a pobre.  A original.

Que ninguem entenda errado:  eu DETESTO a propria ideia de "propriedade intelectual".  Nao eh esse o assunto.  O meu assunto eh esse:  uma industria procura alguem disposto a se apropriar das ideias alheias -sob nome proprio- e vender pro resto do mundo, renquanto o dono ou donos originais termina(m) sem ganhar um centavo por causa de tecnicalidades.

Entao ta...

 

ECHELON saiu da internet. ECHELON agora esta no seu proprio computador.

 
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César Feira

Nesse caso específico do Ai se eu te pego não houve plágio, Ivan. Michel Teló pagou a Diggs pra gravar a música (falam em 80 mil Reais) e ele, Diggs, e a Sharon tem participação nos direitos autorais. Falam aqui em Feira de Santana que é coisa de 3 milhões de Reais pra cada um. Aliás, Diggs, que é professor de inglês, traduziu a musica pra lingua bretã a pedido da produção de Teló. Em resumo, os dois são amigos, Diggs fazia sucesso com a música mas sabe que foi Teló quem deu a projeção e este, Teló, tem sido até então super correto no campo dos direitos autorais, aliás, um só fala bem do outro nas entrevistas e nos twitters e faces da vida. Tenho brincado que Feira de Santana é a capital mundial da música, pois além de Ai... outro hit sertanejo - Balada, interpretada pelo Gustavo Lima também é de um compositor feirense. hehe

 
 
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Ccarvalho

Oi Ivan

Não, eu não disse nada. Apenas postei um raciocínio do Hermano Vianna que é uma pessoa super antenada no contemporâneo. Achei pertinente. Ele está nos dizendo em resumo que essa é a realidade atual, consequência da utilização das novas tecnologias. O Gil tem uma posição parecida. Eu sou fotógrafo e venho questionando isso da mesma forma que sempre questionei que a globalização era inevitável. Parece que tenho que rever algumas coisas. Inevitável ela foi e é. Que tipo de participação nessa globalização, foi debatido e colocado em prática por dois governos diametralmente opostos, o do FHC e o do Lula. Acho a internet fantástica e o uso das novas tecnologias tudo que nós, cidadãos, sempre desejamos: uma canal de voz e comunicação. Mas, eu sempre vivi do meu direito autoral que hoje está sendo tachado como vilão da contemporaneidade. Mas tem gente graúda que também questiona o direito autoral, por exemplo Facebook e Google e "ha perigo na esquina"na relação com esses dois. O texto do Hermano Vianna é muito bom. Fala, em alto nível, de uma realidade que estamos vivendo e as vezes nem percebemos. Mas acho sim, que tem muita lenha ainda para queimar.

 

Carlos Carvalho [email protected]

 

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