A cidade que ensinava aos seus habitantes o medo e a desconfiança da rua está resignificando suas relações

Por Luiz de Queiroz e Pedro Garbellini

A cidade de São Paulo, como tantas outras metrópoles do país, tem problemas sérios de abandono, pelo poder público e a iniciativa privada, do centro antigo.

Nos últimos anos, no entanto, alguns empresários enxergaram, nos aluguéis baixos e na atmosfera sombria da região central, oportunidades para atrair novos públicos.

Foi o caso de Facundo Guerra, que apostou na casa noturna Vegas Club, entre prostíbulos e terrenos baldios, no Baixo Augusta.

O que se deu foi uma reação em cadeia, de pequenos empresários que viram a viabilidade do local para o entretenimento.

A isso, se seguiu a valorização da região e um interesse renovado do grande capital, de grupos imobiliários, que acabou por elevar os aluguéis e expulsar a primeira linha de investidores.

O assunto foi tema de discussão no 66º Fórum de Debates Brasilianas.org

Lá, Facundo Guerra falou sobre o caso do Baixo Augusta, mas também sobre o Mirante 9 de Julho e as mudanças recentes da relação do paulistano com a cidade.

A reapropriação e a gentrificação do Baixo Augusta

“Quando eu pensei em entrar na Rua Augusta em 2005, o que eu estava pensando era em aluguel barato. Isso propiciou que a gente instalasse um negócio ali que acabou criando uma reação em cadeia. Eu mesmo fui vítima do preço do metro quadrado da Rua Augusta, eu saí e estou muito bem, obrigado. Não falta área ainda com aluguel possível em São Paulo e que são interessantes do ponto de vista cultural”.

Cartão postal invisível: O Mirante 9 de Julho

“O túnel da Nove de Julho era encimado por um mirante, que foi derrubado na década de 70, naquele desenvolvimento malufista que a gente teve na cidade, que foi quase uma metástase. Ele foi derrubado para a construção da Bernardino Tranquese para desafogar um pouco a Avenida Paulista. Eu fui checar as reportagens de época e não teve nenhum tipo de impacto no fluxo da Paulista. Obras superdimensionadas e superfaturadas, enfim. Depois que o Maluf passou a Bernardino Tranquese, ele decapitou o mirante. E para vocês terem ideia, o mirante não tinha nem logradouro público mais. Se você não tinha logradouro público, você não tinha luz, água, esgoto. Então, o lugar praticamente não existia”.

A relação clássica do paulistano com a cidade

“Todo paulistano tem em si um ‘amo e odeio São Paulo’. Quando você começa a pensar em todos os fatores que nos dimensionam e que nos identificam como paulistanos, são sempre relações de repulsa com a cidade. A minha geração foi criada com medo. Pelo viés do medo da rua. A gente não tem muito o costume de praticar empatia aqui nessa cidade. Exatamente por esse modelo inicial de identidade que a gente tem que é o Non Dvcor Dvco: eu não sou conduzido, eu conduzo. Então, a gente foi clamado a criar uma espécie de batalha constante, tanto com a cidade quanto com os habitantes dela”.

A nova geração de paulistanos

“Meu público tem 18 anos. Então, eu estou em contato constante com essa geração e eu estou percebendo que essa geração não aceita mais o ethos do trabalho como dimensão principal de relação com a cidade. Ela não aceita o carro como o ethos principal de relação com a cidade. Ela não aceita a separação, ela não quer mais o shopping center. Ela quer rua. O centro hoje está virando um eixo psíquico de identidade. E se antes a gente tinha uma identidade que passava pelo bairro, hoje em dia a gente está começando a desenvolver uma ideia de São Paulo, que passa pelo centro”.

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