Como uma empresa com mais de R$ 1 trilhão em ativos tem valor de mercado de apenas R$ 120 bilhões?

Por Luiz de Queiroz

Um dos argumentos mais utilizados para colocar em dúvida o futuro da Petrobras e da produção de petróleo no Brasil é que o custo de extração é muito alto. Há quem vá além e seja capaz de garantir que com a queda do preço do barril no mercado internacional a exploração do pré-sal se torna simplesmente inviável.

Essa conta falha em considerar a inovação tecnológica e a melhora recorrente de produtividade do pré-sal em contraste com o inevitável declínio dos poços de terra e pós-sal. E parece ignorar, deliberadamente, os grandes volumes de barris recuperáveis já comprovados e ainda por descobrir.

O assunto foi tema de discussão no 57º Fórum de Debates Brasilianas.org.

Para o PhD na área de petróleo e gás, Paulo César Ribeiro Lima, é inacreditável que alguém seja capaz de considerar alto o custo de extração do pré-sal. Ele entende que os desafios para manter os índices de produção nos poços de terra e no pós-sal são cada vez maiores, enquanto que os custos no pré-sal tendem a cair.

Lima também afirma que os reservatórios do pré-sal têm capacidade muito superior e que, portanto, é possível recuperar a mesma quantidade de barris de óleo por dia com muito menos poços. “Isso aqui é um verdadeiro tesouro”, afirmou.

De acordo com ele, a Petrobras atualmente tem reservas de 16 bilhões de barris. Apenas nos campos de Lula, Búzios e Libra, há mais de 10 bilhões de barris recuperáveis em cada um. Ou seja, 30 bilhões de barris. A empresa vai triplicar suas reservas nos próximos anos.

Mas a estatal tem problemas. Para se comunicar com a sociedade brasileira a respeito dos seus negócios e para lidar com um mercado de capitais que subvaloriza seus ativos.

“Se não fosse essa confusão toda [da Operação Lava Jato], até 2023 o Brasil estaria produzindo 5 milhões de barris de petróleo por dia. Hoje corremos o risco de isso não acontecer. Nós estamos com 2,2 milhões de barris por dia. Se chegarmos a 5 milhões de barris vamos ter um excedente de petróleo de 2,4 milhões de barris. Afetando o preço [do produto no mercado global]. Isso é pouco discutido no Brasil, 2,4 milhões de barris de petróleo afetam o preço”, disse Paulo César Ribeiro Lima.

Ele questionou o rebaixamento da nota de crédito da Petrobras e a incapacidade da empresa de se defender. “A Petrobras tinha uma estratégia de negócio muito bem definida, com grandes investimentos, comprometendo o lucro no curto prazo para garantir uma curva de produção em 2020. Se você faz grandes investimentos, nesse momento não vai ter geração de caixa próprio. Então, você vai ter que fazer captação, tem que ir ao mercado financeiro e aumentar a dívida. Como você triplica as suas reservas e põe essas reservas pra produzir sem aumentar a dívida líquida? É impossível”, argumentou.

“Só que tem um problema”, continuou, “você aumenta a dívida líquida, mas não aumenta o ativo da empresa. Por quê? Porque o ativo da empresa, esses 46 bilhões de barris, são bens da União, porque ainda estão nos reservatórios. Então, isso não é lançado no ativo. Se não é lançado no ativo, quando você faz lá o ativo menos passivo e chega ao patrimônio líquido, isso não está no patrimônio líquido. Não estando no patrimônio líquido a alavancagem da empresa vai subir. E vai subir também a relação Dívida Líquida/EBITDA. E isso é um ótimo argumento para a Petrobras ser rebaixada, ter a nota de crédito rebaixada, perder o grau de investimento. Por uma contabilidade que não faz o menor sentido para a Petrobras”.

Só que isso não exime a estatal de responsabilidade. “O pior de tudo é que a Petrobras participa disso. Porque ela própria coloca no plano de negócios dela que a alavancagem vai passar de 35%, que a relação Dívida/EBTIDA vai passar de 2. Então a Petrobras também é responsável por isso”.

Há uma distorção muito grande entre os ativos da empresa e o seu valor de mercado. “Vai lá no balanço da Petrobras. O ativo imobilizado é de R$ 350 bilhões. Isso aí não é nada perto do ativo da Petrobras. O ativo da Petrobras, o patrimônio líquido da Petrobras é por baixo R$ 1 trilhão”, garantiu. “Mas o que está no balanço? Tem um ativo imobilizado de R$ 344 bilhões, patrimônio líquido de R$ 347 bilhões. Se você pegar os ativos, você vai ter só na área de E&P [Exploração e Produção] 46 bilhões de barris de óleo equivalente. Na cessão onerosa, o petróleo lá no fundo do mar foi de US$ 8,51 por barril. Então eu coloquei por baixo US$ 5 por barril. Aí você multiplica 5 por 46 daria uns US$ 250 bilhões. Você multiplica por 3, só aí você já está falando em US$ 750 bilhões de dólares. E eu achei US$ 8,51 baixo! Aí você pega todos os poços, as 63 plataformas, todas as linhas, os navios, a sede da empresa, toda a infraestrutura da empresa. Quanto vale a Petrobras? Vale mais de R$ 1 trilhão. Qual é o valor de mercado dela? R$ 120 bilhões”.

Lima afirmou que a Petrobras só tem uma concorrente no mundo do mesmo porte, a norte-americana Exxon. “Se a Exxon produz 2,1 milhões de barris de petróleo por dia, a Petrobras vai ser mais de duas vezes a Exxon. Se a Exxon tem 25, sei lá, 30 bilhões [de barris de petróleo de reserva], a Petrobras vai ter 46. Isso já mostra que tem alguma coisa errada que é misturar um grande patrimônio público que é o petróleo com o mercado. E o mercado subvalorizar um ativo desses”.

O outro lado

Também presente no Fórum Brasilianas, Ronaldo Mascarenhas Lima Martins, gerente de Desenvolvimento de Mercado da área de Materiais da Petrobras, fez questão de dizer que concordava com muitas das afirmações feitas por Paulo César. Mas discordou do ponto de vista sobre o custo de produção do pré-sal.

“Infelizmente o pré-sal tem motivo para ser mais caro do que os outros poços que a gente opera. A camada de sal é uma camada espessa. Em alguns lugares tem dois quilômetros de espessura, em alguns lugares 300 metros. Mas, numa média, 1 quilômetro, de uma rocha que não é rocha, ela é uma esponja, altamente abrasiva, altamente corrosiva, e absolutamente instável. Cruzar isso em uma perfuração é a primeira fase. A segunda é manter o poço produzindo ao longo de vários anos sem que se corroa tudo que se coloca ali dentro, sem que ele venha a ruir durante a produção”, explicou.

De acordo com ele, questões simples, como o mero deslocamento até as plataformas, se tornaram desafios complexos na região do pré-sal. “Por exemplo, voar de helicóptero até lá. Os helicópteros que operavam na costa brasileira tinham um range [alcance] de operação de 500 km. Os poços do pré-sal estão a 300 km da costa de Santos, ou do Rio de Janeiro. Ah, é fácil né? Você vai até lá, abastece e volta. Não é assim. Se você for até lá e tiver um problema climático - que acontece, no meio do oceano acontecem essas coisas - e você tiver que voltar, se você estiver olhando a plataforma, não tem mais combustível pra voltar. E não tem nada pra pousar no meio do caminho, ou seja, o helicóptero vai cair. Então a primeira barreira trivial que teve que ser vencida foi aumentar o range de voo dos helicópteros que operavam”.

De acordo com ele, não dá para dizer que o custo do pré-sal vai se igualar ou ficar abaixo do pós-sal. “Isso não é verdade. Vai ser sempre mais caro porque os desafios são muito maiores. Porque se baixar o custo do pré-sal por desenvolvimento tecnológico, essa tecnologia será aplicada na Bacia de Campos e lá vai se baixar o custo também. Então o custo relativo sempre será maior no pré-sal”.

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