É possível aumentar prazos para financiamento e estreitar as margens, mas os bancos precisam obedecer a uma agenda comum

Por Luiz de Queiroz e Pedro Garbellini

No atual momento de ajuste fiscal, muito se fala sobre a redução da oferta de crédito dos bancos privados. Paralelamente, critica-se a atuação anticíclica dos bancos estatais.

Alguns especialistas acreditam que essa atuação foi justamente o que fez com que o Brasil passasse sem grandes problemas pelo momento mais grave da crise financeira mundial.

Outros entendem que, pelo volume de reservas que o país dispunha à época, a crise teria sido superada de uma maneira ou de outra.

O assunto foi abordado por Roberto Luís Troster, diretor da Troster Associados e ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), no 65º Fórum de Debates Brasilianas.org.

Troster afirmou que não há uma correlação direta entre a participação dos bancos estatais na economia de cada país e a renda per capita desses países. E explicou que qualquer recorte é possível, a depender da posição defendida pelo economista.

“Você pode ter banco estatal e ter uma renda per capita alta, você pode ter banco estatal e ter uma renda per capita baixa. Você pode não ter banco estatal e ter uma renda baixa e pode não ter e ter uma renda alta”, disse.

Para ele, o sistema bancário brasileiro tem espaço para aumentar a relação crédito/PIB. “Dá para alongar prazos, dá para estreitar margens. Dá para reduzir inadimplência, dá para melhorar a competitividade das empresas. E, mais importante, dá para aumentar a legitimidade do setor”.

Troster entende que a questão fundamental é que o Sistema Financeiro Nacional possua uma agenda comum, coerente com as necessidades do país.

A ausência de correlação entre participação dos bancos estatais e renda per capita

“Banco estatal pode ajudar ou pode atrapalhar. Tem países que têm, tem países que não têm. E se a gente vê o resultado, aqui a gente vê a renda per capita, não tem correlação nenhuma. Você pode ter banco estatal e ter uma renda per capita alta, você pode ter banco estatal e ter uma renda per capita baixa. Você pode não ter banco estatal e ter uma renda baixa e pode não ter e ter uma renda alta. Então, o problema não é se tem ou não tem banco estatal."

O espaço para crescimento na relação crédito/PIB

“Essa relação crédito/PIB em um país de renda baixa é 20%, de renda média é 90% e de renda alta é 140%. Quer dizer, quanto mais crédito você tem, mais oportunidades. Não é uma correlação perfeita, mas o crédito é um fator muito importante. O Brasil é um país de renda média alta, tem uma relação crédito PIB baixa e está vivendo uma crise bancária."

A armadilha da dívida e a crise de liquidez

“É o peso da dívida. Aumenta a renda, sobe os juros, amortização maior, prazos mais curtos e surpresas. E aí você cai na armadilha da dívida. Hoje os números assustam. Você tem 57,2 milhões de CPFs negativados. A crise em bancos está mais ou menos estabilizada, mas fora dos bancos está disparando. Quando está faltando crédito na praça, o que acontece? Todo mundo tenta não pagar. E quem está cobrando, tenta cobrar mais rápido. É isso que o país está vivendo. Você está vivendo uma crise de liquidez."

Dívidas inteligentes suavizam o ciclo econômico

“Dever bem é bom. Você suaviza o ciclo econômico. Eu acho que o Brasil deve mal. Alguém que se endivida para viajar... está errado. Eu estou falando esse exemplo emblemático, mas que tipo de crédito a gente está dando no país? Hoje, dois terços das concessões de crédito pessoa física, recursos livres, é rotativo do cartão e cheque especial. Não faz sentido. Para pessoa jurídica, o que você dá é capital de giro."

A crise de legitimidade do setor bancário

“Chamaram os banqueiros de ladrões na campanha eleitoral. E ninguém reagiu. Quer dizer, falta o setor ter legitimidade frente à sociedade. E é muito ruim isso. Isso acaba mal, sempre. O Sistema Financeiro Nacional tem muitos méritos. O sistema funciona muito bem em algumas coisas. Tem um sistema de pagamentos eficiente, mercados futuros e de capitais. Tem coisas muito boas."

A ausência de uma agenda comum do sistema financeiro nacional

“Não existe estratégia de desenvolvimento no Brasil. Política bancária não existe. Em um evento que eu estive, perguntaram para o chinesinho: quais são as prioridades do seu banco. Na hora, mas na hora: ‘as prioridades do partido’. Quer dizer, eles têm o partido, o partido sabe o que quer, o banco está sintonizado. Então, eu acho que falta uma agenda do sistema financeiro nacional. A tributação do crédito faz sentido? O banco, para financiar o rotativo tem que pagar o IOF dele antes. O IOF é pago na frente, o banco vai cobrar o IOF do empréstimo. Vai cobrar uma taxa maior por conta do risco dele. Taxa mais alta, inadimplência esperada mais alta, você entra em todos aqueles outros custos a mais. Todo mundo subsidia o crédito ou não faz nada. A gente tributa o crédito. Podíamos substituir por um imposto de valor agregado. A gente só discute Copom, metas de inflação, tudo isso, e o resto? Quer dizer, não tem nenhuma relação entre a taxa básica e a taxa do rotativo. Uma é 14% ao ano. A outra é 400% ao ano. Faz sentido?”

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