PCC, PSDB e a Violência como DNA nacional
O Brasil virou urbano sem deixar de ser rural, deixou de ser analfabeto sem ter sido letrado, vai ficando digital sem nunca ter conhecido o livro. Apesar de tudo o que se fez nesses últimos dez anos no sentido de corrigir nossos atrasos, o fato é que a realidade cuida de desmentir qualquer publicidade que nos dê cores que não sejam as já conhecidas.
Enfim, o governador paulista se dignou a vir a público dizer que a situação é grave. Claro que é grave, faz 20 anos que o PSDB leva a cabo uma política que redunda num processo crescente de concentração de riquezas de um lado, dando aos mesmos de sempre possibilidades ilimitadas de gozo e fruição, enquanto a maioria se vê desalojada de qualquer política de Estado voltada para sua emancipação. Vide Educação, Saúde, Segurança pública, Cultura e Esporte e Renda.
O PCC é a verdade escondida nas belas, faustosas e pedagiadas rodovias do Estado de São Paulo. O PCC é a mais importante verdade no Brasil das últimas décadas, nascido e trazido à fama no Estado mais privatizado do país. Como não poderia ser diferente, é organizado, hierarquizado, disciplinado, financeiramente parrudo, politicamente poderoso e forte o bastante para falar diretamente com o outro poder, como foi didaticamente desenhado nas telas brasileiras com o filme de Sérgio Rezende “Salve geral”.
A violência se transformou na mais importante marca cultural brasileira nestas últimas décadas. Isso não é difícil explicar tendo em vista o fato de que do total de mortes de jovens entre 15 e 24 anos, algo em torno de 40%, é homicídios (Clique). Se não é pior, pelo menos em São Paulo, devemos “agradecer” ao PCC que vem regulando a mortandade em níveis apenas selvagens tendo em vista os prejuízos nos negócios.
Migramos da hiperinflação - que corria a moral da nação - para a estabilidade sem que o contingente maior da população viesse a ter acesso a qualquer benefício dessa mudança. A extensão disso é que a grande questão a explicar os níveis estratosféricos de homicídios no país é, ainda que fora de moda falar sobre isso, os índices obscenos da disparidade de renda no Brasil. Mais, se antes a violência e a marginalidade eram horrores a atormentar apenas as famílias pobres, eis que hoje a precarização da classe média tem levado seus filhos a ingressarem sem receios nem pudores nesse universo de delinquência.
Cada vez mais precarizados pela lógica neoliberal e sem perspectiva de acesso aos gozos provenientes desse sistema uma vez que a disparidade de renda entre nós avilta, sobrou aos tantos quantos a via da marginalidade. Numa sociedade onde os prazeres da realização pessoal estão vedados pela insensibilidade dos poucos que tudo tem, o que graça é a violência e corrupção.
A cartografia da violência entre os jovens assenta no intercambio consumo de drogas e profissionalização no crime organizado. A droga é, pela falta de qualquer outro vetor de gozo, a única maneira de acesso ao prazer e a realização. O emprego qualificado no mercado do crime organizado, que em São Paulo é dominado pelo PCC, torna-se para os jovens das cidades brasileiras a única forma de simbolização e afirmação de si como sujeito. O pano de fundo é a marginalidade a delinquência e a violência.
Entre os adultos pobres ou da classe média pauperizada sobra a vergonha e a culpa de nada ter ou ter muito menos do que aquilo que é necessário para se afirmar numa sociedade de afirmação pela capacidade de gozo dos bens. Como a disparidade pornográfica da renda entre nós não é um dado da natureza, mas uma política econômica racionalmente engendrada, o que temos é uma elite que mais goza quanto mais evidencia o que tem em contraposição aos que nada tem ou pouco possuem. É por isso que a ostentação no Brasil é um dado da brasilidade e a corrupção seu motor propulsor.
Jovens marginais morrendo aos milhares na busca desesperada por um lugar ao sol, pequenas elites hipergozando seus bens com o estado de miséria em que se encontra a grande maioria, adultos amesquinhados, culpados e envergonhados de si mesmos desabam no cinismo e na corrupção. O resultado é o esgarçamento do tecido social e a violência uma evidência de que o Estado se encontra na berlinda.
A ação do PCC em São Paulo, sempre e a qualquer hora que considere oportuno, é símbolo e materialização da falência do Estado e dos descaminhos trilhados pela nação nas últimas décadas.
Luciano Alvarenga, Sociólogo

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