Amor de perdição: Globo e Kamel

Ainda não caiu a ficha dos Marinhos sobre o mal que o estilo Ali Kamel causou aos interesses das Organizações Globo – quando foi incumbido de definir a linha política da cobertura da TV.

O grande adversário da Globo é a Record, da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). É uma congregação agressiva, de pouco jogo de cintura, com uma objetividade dura, sem verniz, descolada de todos os grupos de opinião mais influentes – poder Judiciário, universidades, outros veículos de mídia, partidos políticos. E, no entanto, tem “torcedores” cada vez mais influentes.

Cada vitória da Rede Record, por pequena que seja, provoca regozijo, torcida ardente em muitos e muitos segmentos sem nenhuma simpatia por Edir Macedo. A maioria absoluta desses “torcedores” teria calafrios na hora se pensasse na possibilidade da Record ser a líder absoluta de audiência. E, no entanto, torcem entusiasticamente pela Record.

O inacreditável é como a Record – que avança na religião, na mídia e no Congresso – conseguiu se tornar um mal menor que a Globo.

​Essa a grande obra de Ali Kamel quando destruiu até a encenação do Jornal Nacional de se apresentar como objetivo e isento, construída a duras penas por Evandro Carlos de Andrade depois do desgaste com as “diretas”. Hoje em dia, nos congressos de sociologia e ciências sociais do país pululam teses sobre a parcialidade do JN, sobre a bolinha de papel, sobre o terrorismo na crise de 2008, sobre o endosso a todas as barbaridades da Veja.

Foi brutal a falta de visão dos Marinho ao conferir a Kamel o papel de Ratzinger da Globo. Jamais entenderam – nem ele nem os herdeiros – que uma organização de mídia da dimensão alcançada pela Globo tem um papel institucional que não pode ser atropelado por aventuras políticas – como a de pretender derrubar governos.

O poder excessivo exige ponderação, cuidado, precisa pairar acima de paixões partidárias.

Dia desses recebi vídeos das minhas filhas mais velhas quando crianças – início dos anos 90. Quando a Bimba (cinegrafista da família) perguntava qual programa gostavam, a resposta era imediata: a Globo. Assim, na lata! Depois, especificavam a novela do momento.

Na memória dos políticos, havia um passivo grande da Globo, na maneira como combateu inicialmente as diretas, na campanha implacável contra Brizola, na loucura do caso Proconsult.

Mas o trabalho de Evandro, a discrição do Jornal Nacional (mesmo com Alberico, excetuando a edição do debate Collor-Lula) o tornaram o referencial jornalístico máximo do país. Ajudou a mostrar regiões desconhecidas, brasileiros anônimos. Não se fechava a primeira página de nenhum jornal sem, antes, assistir o Jornal Nacional. E houve um refluxo dos críticos porque o jornal tornou-se cuidadoso, sabendo dosar o imenso alcance que tinha.

Com Kamel todo esse trabalho de reconstrução foi para o vinagre. O JN tornou-se uma força descontrolada, em alguns momentos uma Veja com alcance mil vezes maior, causando desconforto não apenas em faixas influentes de telespectadores, mas nos seus próprios jornalistas, nos seus artistas, em muitos que são a cara pública da Globo.

A politização desenfreada liquidou com a imagem institucional da Globo. Deixou de pairar acima dos governos e das paixões partidários, conforme era o projeto Evandro, e tornou-se parte ativa do jogo político, querendo açambarcar um poder que não lhe pertencia, porque se valendo de concessões públicas. Deixou de ser a emissora dos brasileiros para se tornar representante de uma parte da opinião pública.

E tudo isso no momento em que – com as mudanças tecnológicas em curso – mais carecia de um leque amplo de alianças, seja para enfrentar a Record, as empresas de telefonia, os grandes grupos internacionais de mídia.

Hoje, parte relevante da opinião pública olha para o símbolo da Globo, e enxerga um vulto ameaçador.