Os 90 anos da Semana de Arte Moderna

Os principais eventos, personagens e obras do movimento que transformou a cultura brasileira

Momento definidor da concepção contemporânea de “cultura brasileira”, quando foram propostas pela primeira vez muitas das ideias ainda correntes sobre a relação do país com a tradição nacional e as influências estrangeiras, o movimento modernista completa este mês nove décadas de seu marco inicial.

Realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro no elegante Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de 1922 reuniu um grupo de jovens artistas contestadores que, com o tempo, se tornaram, eles próprios, clássicos, como os escritores Oswald e Mário de Andrade, os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, o músico Heitor Villa-Lobos e o escultor Victor Brecheret, entre outros.

No Prosa & Verso deste sábado, historiadores e críticos discutem o ambiente em que eclodiu a Semana, suas influências e seu legado ainda atual. No site do GLOBO, uma página especial apresenta os principais eventos, personagens e obras do movimento que transformou a cultura brasileira.

De O Globo – 04/02/2012

A Semana de 1922

13 DE FEVEREIRO
Primeira parte: Conferência de Graça Aranha (“A emoção estética na arte moderna”); música de Villa-Lobos, executada por Alfredo Gomes e Lucília Villa-Lobos e pelo Trio Segundo. Abertura da exposição com obras de Antonio Moya, Georg Prsirembel, Haerberg, Brecheret, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, J. Graz, Martins Ribeiro, Zina Aita, Almeida Prado, Ferrignac e Vicente Rego Monteiro.
Segunda parte: Conferência de Ronald de Carvalho (“A pintura e a escultura moderna no Brasil”); Solos de piano com Ernani Braga; apresentação de três danças africanas.

15 DE FEVEREIRO
Primeira parte: Palestra de Menotti del Picchia ilustrada com poesias e trechos de prosa por Oswald de Andrade, Mário de Andrade, entre outros, e dança com Yvonne Daumerie; solos de piano com Guiomar Novaes. Durante o intervalo, palestra no saguão com Mário de Andrade. Ronald de Carvalho lê o poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira. A leitura não foi anunciada na programação oficial, mas causou alvoroço na plateia, entrando para a história da Semana.
Segunda parte: Poesia com Renato Almeida Perennis; canto e piano com Frederico Nascimento Filho e Lucília Villa-Lobos; Quarteto Terceiro (Paulina d’Ambrósio, violino; George Marinuzzi; Orlando Frederico, alto; e Alfredo Gomes, violoncelos).

17 DE FEVEREIRO
Primeira parte: Obras de Villa-Lobos, com Paulina d’Ambrósio, Alfredo Gomes e Lucília Villa-Lobos; Canto e piano com Mário Emma e Lucília Villa-Lobos; “Historietas”, de Ronald de Carvalho; “Sonata Segunda”, com Paulina d’Ambrósio e Frutuoso Vianna.

A Semana de 2012

Entre os dias 15 e 26 de fevereiro, o Teatro Municipal de São Paulo apresentará uma programação especial em comemoração aos 90 Anos da Semana de 1922. São duas óperas — uma delas, “Magdalena”, de Villa-Lobos, nunca montada em São Paulo —, um espetáculo de dança inédito e dois concertos. Compositores e autores dessas obras participaram da Semana ou foram influenciados por ela.

“MAGDALENA”: A ópera em dois atos de Heitor Villa-Lobos foi produzida originalmente pelo Théâtre du Châtelet (Paris, 2010). Em São Paulo, terá a Orquestra Sinfônica Municipal, Coral Lírico e Coral Infantil Heliópolis, com direção musical e regência de Luís Gustavo Petri. Elenco: Rosana Lamosa; Luciana Bueno; Rubens Medina; Sávio Sperandio; Saulo Javan; Miguel Geraldi; Paulo Queiroz; Pedro Ometto. Dia 15, às 20h; dia 17, às 20h, dia 19, às 18h; dia 23, às 20h e dia 25, às 20h.

BALÉ E ÓPERA : “Suíte Vila Rica”, de Camargo Guarnieri, com o Balé da Cidade de São Paulo (imagem ao lado) e a Orquestra Sinfônica Municipal. Regência de Carlos Moreno e coreografia de Lara Pinheiro; ópera “Pedro Malazarte”, de Camargo Guarnieri e libreto de Mário de Andrade, com a Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Lírico. Regência de Carlos Moreno. Com Sebastião Teixeira; Ednéia Oliveira; Eric Herrero. Dia 16, às 20h; dia 18, às 20h; dia 24, às 20h e dia 26, às 18h.

RECITAL DE PIANO: Dia 25, às 16h, com Caio Pagano. Participação especial do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, apresentando obras para piano solo executadas na Semana de 22. Dia 26, às 11h, Orquestra Experimental de Repertório, com o pianista Pablo Rossi, apresentando obras de Lorenzo Fernandez, Villa-Lobos, Radamés Gnatalli. Regência de Jamil Maluf.

Anita Malfatti
Em 1917, depois de estudar pintura em Berlim — onde teve contato com o expressionismo alemão — e Nova York, Anita Malfatti (1889-1964) fez a primeira exposição no país a se autodenominar “moderna”. A mostra entrou para a História pela crítica feroz de Monteiro Lobato, que condenou sua “arte caricatural” tipicamente europeia, vinculando-a à perturbação mental. Já para Oswald de Andrade, sua pintura causava “impressão de originalidade e de diferente visão”. Cinco anos depois, Anita foi uma das principais atrações da exposição que abriu a Semana de Arte Moderna, com telas como “O homem amarelo”, “A estudante russa” e “A ventania”. A maior parte dessas obras, no entanto, era de anos anteriores, porque em 1922 Anita já tinha voltado à pintar de forma mais convencional.

Oswald de Andrade (1890-1954) foi o mais transgressor e experimental dos modernistas, autor de irônicos discursos e artigos de ataque aos “passadistas”, nos meses próximos à Semana de 1922, da qual foi um dos idealizadores. “A alegria é a prova dos nove”, declarou no “Manifesto Antropófago” de 1928, que defendia de forma poética uma língua brasileira e a metáfora do canibalismo do índio que deglute o estrangeiro. Era a ideia de antropofagia como caminho para a cultura brasileira, reaproriada pela Tropicália nos anos 1960. Esse projeto construtivo de um modernismo ligado à brasilidade já tinha se anunciado no “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, de 1924, que deu origem ao livro “Pau-Brasil”, publicado no ano seguinte.

 Mário de Andrade

Um dos principais articuladores da Semana, Mário de Andrade (1893-1945) foi um teórico central do modernismo brasileiro. O prefácio de “Pauliceia desvairada”, publicado pouco depois da Semana, inspirou a fase inicial do movimento. A pesquisa folclórica e a linguagem inventiva de “Macunaíma” (1928) definiram o lugar que o modernismo ocupa até hoje no imaginário nacional. Nas décadas seguintes, foi interlocutor de autores das novas gerações, como Drummond e Sabino, e publicou trabalhos importantes sobre música tradicional brasileira.

 Menotti Del Picchia

Publicado em 1917, o poema “Juca Mulato”, de Menotti del Picchia (1892-1988) chamou atenção por mesclar formas clássicas, disposição gráfica ousada e temas nacionais. Em 1922, teve atuação incendiária na Semana, com uma palestra sobre estética modernista que recebeu aplausos entusiasmados e vaias indignadas. Mais tarde, alinhou-se a um ramo nacionalista do movimento, o “verde-amarelismo”, com Cassiano Ricardo e Plinio Salgado (que também participou da Semana e, em 1932, fundou a Ação Integralista Brasileira, de extrema-direita).

 Heitor Villa-Lobos

Se a Semana de 1922 foi um evento de São Paulo, sua grande estrela foi um carioca. Convocado pelos modernistas paulistas em viagem ao Rio, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) teve 20 composições interpretadas nos três dias de programação, e um dia todo dedicado a ele, único compositor brasileiro na Semana. Foi aplaudido e também vaiado, pela estranheza causada pelos tambores e instrumentos populares de congado incorporados à orquestra. Mais do que a participação intensiva na semana, a importância do maestro para o modernismo brasileiro está na criação de uma linguagem própria na música nacional, unindo elementos de músicas folclóricas e indígenas já no fim dos anos 1910.

Manuel Bandeira

O pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) já era um poeta estabelecido na época da Semana. Na década anterior, difundira o verso livre em textos críticos e em obras como “Carnaval”, de 1919. Doente, não pôde ir a São Paulo para o evento, mas os modernistas escolheram seu poema “Os sapos” como uma espécie de declaração de princípios. Publicou algumas das principais obras da poesia brasileira da primeira metade do século XX, como “Libertinagem” (1930) e “Estrela da Manhã” (1936).

 Paulo Prado

Homem de negócios apaixonado pelas artes, milionário que se julgava de esquerda, historiador amador que se sentiu à vontade entre os jovens modernistas, Paulo Prado (1869-1943) é um personagem essencial e pouco lembrado do modernismo. Rico cafeicultor, foi o principal mecenas da Semana de 22 e um interlocutor fundamental para seus integrantes: assinou o prefácio de “Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, e colaborou tanto com a concepção de “Macunaíma” que Mário de Andrade dedicou o romance a ele.
Leia mais: “O modernista inesperado”

 Ronald de Carvalho

Poeta hoje pouco lido, Ronald de Carvalho (1893-1935) costuma ser mais lembrado por seu papel algo insólito na Semana de 22. Com a ausência de Manuel Bandeira, doente, coube a ele receber as vaias pela leitura do poema “Os sapos”. Foi um dos poucos brasileiros a manter contato com o modernismo português, participando do 1 número da revista “Orpheu” (1915), que publicou poemas vanguardistas de Fernando Pessoa.

 Di Cavalcanti

Foi de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976) a ideia da realização de uma Semana de Arte Moderna em São Paulo — é o que conta a maior parte das versões de uma história repleta delas. Naquele momento, ele era um artista diferente daquele que se tornaria célebre com a pintura de paisagens brasileiras, retratos de mulatas e preocupação social. Di Cavalcanti apresentou sobretudo desenhos e pastéis na exposição da Semana de 1922, além de ter sido o autor de seu cartaz e da capa do catálogo com a programação. Em seus anos mais experimentais, Di criou ilustrações para revistas modernistas como a “Klaxon” e para livros como “Carnaval”, obra de Manuel Bandeira cujo poema “Os sapos” foi lido durante a Semana e chocou parte da plateia.

 Victor Brecheret
Nascido Vittorio em Farnese, na Itália, Victor Brecheret (1894-1955) foi adotado pelo grupo modernista como o “Rodin brasileiro”, o representante da escultura na exposição da Semana de Arte Moderna de 1922. Na década de 1910, Brecheret estudou artes no Liceu de Artes e Ofícios, orgulho da São Paulo que se modernizava, e depois em Roma. De volta à capital paulista, o artista se destacou num ambiente de poucas experimentações na escultura. Em 1954, o desbravamento do país pelos bandeirantes, tão valorizado pelos modernistas paulistas, foi retratado por Brecheret na obra “Monumento às bandeiras”, no Parque do Ibirapuera, nas comemorações dos 400 anos de São Paulo.

 Artes plásticas

Anita Malfatti foi um dos nomes centrais da exposição que abriu a Semana de 1922. Grande parte de suas obras já tinha sido exibida na polêmica mostra de 1917, como a pintura “O homem amarelo” (à esquerda), que provocou gargalhadas em Mário de Andrade, comprador da pintura. Outros nomes importantes da exposição foram Victor Brecheret — chamado pelos modernistas de “Rodin brasileiro” — e Di Cavalcanti, que começava a transitar dos desenhos para a pintura, e ainda não retratava as mulheres e paisagens brasileiras que se tornariam uma de suas marcas. A presença de Oswaldo Goeldi na Semana foi anunciada em jornais, mas, ao que tudo indica, ele não participou. Goeldi representa uma outra vertente do modernismo brasileiro, de forte influência expressionista — assim como Lasar Segall. Hoje, a historiografia revê o papel de artistas como Timóteo da CostaBelmiro de Almeida e Eliseu Visconti, radicados no Rio e considerados “passadistas” pelos modernistas. Na exposição “Modernidade antecipada”, em cartaz até 26 de fevereiro na Pinacoteca de São Paulo, o curador Rafael Cardoso evidencia a importância de Visconti para a arte do início do século XX. Entre todos os modernistas, Tarsila do Amaral talvez seja a mais recorrente no imaginário popular. Ela ganha uma exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio, que será aberta dia 13, com telas como “Antropofagia” (1929) — mas não o “Abaporu” (1928) (à direita).

 Livros

Na Semana de 1922, o espanto foi causado por “Os sapos”, poema do livro “Carnaval” (1919), de Manuel Bandeira. “Pauliceia desvairada” (imagem à esquerda), no entanto, entrou para a História como o livro central da poesia modernista, em que Mário de Andrade defende a liberdade e a polifonia. Seis anos depois, já a partir de suas pesquisas sobre o folclore, Mário escreve “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, em que a polifonia se evidencia na linguagem e na narrativa, na busca do que o escritor denominava “entidade nacional”. Nas leituras da obra ao longo dos anos, o anti-herói — interpretado por Grande Otelo e Paulo José no filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade (1969) — se tornou, de forma caricata, retrato do brasileiro malandro.
Três anos depois de “Pauliceia desvairada”, Oswald de Andrade publicava “Pau-Brasil” (à direita). O livro foi um desdobramento de seu “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, que chamava os modernistas à criação de uma “poesia de exportação”, em 1924 (ano em que Oswald também escreveu “Memórias sentimentais de João Miramar”). Ali já se proclamava um afastamento da importação de tendências culturais, na elaboração de um projeto de brasilidade que se reforçaria no “Manifesto Antropófago”, de 1928. A perspectiva “antropofágica” também está presente em “Cobra Norato”, escrito por Raul Bopp em 1921, mas publicado dez anos depois.

Créditos: Guilherme Freitas, Lívia Brandão, Márcia Abos e Suzana Velasco | Arte: Mariana Castro e Vanissa Wanick

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Um movimento entre a ruptura estética e o valor do passado

Projeto de brasilidade do modernismo ainda era incipiente na Semana de 1922

  As atrações


Ruptura e brasilidade

Modernismo dialogou com inovações estéticas européias

Movimento ignorou, no entanto, portugueses e latino-americanos

Outras vanguardas

 Uma revolução no palco burguês do Teatro Municipal de São Paulo

Símbolo da elite paulista, local abrigou jovens contestadores financiados por cafeicultores e virou História

Uma semana de contradições

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Obras modernistas estão no exterior ou em coleções privadas
‘Falta uma política de formação de acervos’, diz curadora

Fluxo modernista teve facetas e locações distintas

Pesquisadores lembram papel das revistas que circularam no Rio no começo do século XX

Quem foi Oswald de Andrade, por José Castello.
Em ‘O santeiro do mangue’, Oswald de Andrade transforma em versos a mastigação obstinada do mundo e de seus conflitos.
Paulo Prado foi elo entre negócios e artistas de São Paulo em 1922
‘Ele atuou nos bastidores, por timidez, conveniência ou discrição’, diz secretário de Cultura
RIO – Homem de negócios apaixonado pelas artes, milionário que se julgava de esquerda, historiador amador que se sentiu à vontade entre os jovens modernistas, Paulo Prado foi descrito por Gilberto Freyre, que o conheceu, como “um dos casos mais curiosos de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que já houve no Brasil”. Principal fruto da diversificada — e por vezes contraditória — atividade intelectual de Prado, o livro “Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira” (Companhia das Letras), publicado em 1928, é reeditado agora por conta dos 90 anos do evento que ele ajudou a realizar. Cafeicultor de vasta fortuna, Prado foi o principal mecenas da Semana de 22. Mais que isso, foi um interlocutor fundamental para os integrantes do movimento: assinou o prefácio do livro de poemas “Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, e teve participação tão importante na concepção de “Macunaíma” que Mário de Andrade dedicou o romance a ele. Após a morte de Prado, em 1943, Freyre previu que as gerações futuras se espantariam ao ver um nome associado ao mesmo tempo ao modernismo e ao Departamento Nacional do Café.