O GPA, controlador das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, protocolou nesta terça-feira, 10, um pedido de homologação de recuperação extrajudicial. O processo envolve a renegociação de dívidas com credores financeiros no valor de R$ 4,5 bilhões.
Cerca de 40% dos passivos da empresa têm vencimento em até doze meses. O pedido foi feito no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Até o início da noite de segunda-feira, ao menos quatro bancos, incluindo o Itaú, considerado o principal credor, já haviam dado aval ao plano. Instituições como Rabobank, HSBC e BTG Pactual também fazem parte desse grupo inicial.
Em fato relevante divulgado nesta manhã, a empresa informou que o plano foi celebrado com credores que representam 46% dos passivos, o equivalente a R$ 2,1 bilhões. Esse percentual é superior ao quórum mínimo de um terço exigido pela lei de recuperações judiciais.
O presidente da empresa, Alexandre Santoro, afirmou que agora há um prazo de 90 dias para concluir o acordo. O objetivo é conseguir o quórum necessário para aprovação, que é de 50% mais um dos créditos, em um tempo menor.
Segundo Santoro, foi feito um diagnóstico da situação nas últimas semanas. Diante do quadro estrutural da rede, em termos de caixa e dívidas, e dos vencimentos relevantes com bancos, a decisão foi buscar uma solução de forma mais organizada e rápida.
O balanço da companhia mostra que empréstimos e financiamentos no passivo circulante, de curto prazo, somavam R$ 1,7 bilhão ao fim de 2025. No passivo não circulante, de longo prazo, o valor era de R$ 2,4 bilhões.
O montante no passivo circulante, que vence em até 12 meses, dobrou. Passou de R$ 850 milhões em 2024 para os R$ 1,7 bilhão registrados em 2025.
Santoro esclareceu que o plano abrange pagamentos sem garantia e não inclui as obrigações operacionais da varejista. Ficam de fora os acordos com fornecedores e parceiros, bem como as obrigações trabalhistas.
Em dezembro, a empresa tinha R$ 3 bilhões em passivos que vencem em um ano com fornecedores, valor semelhante ao de um ano antes.
A negociação atual envolve apenas os credores financeiros. Segundo o novo vice-presidente de finanças, Pedro Albuquerque, os contatos com os debenturistas devem ocorrer em um segundo momento. As debêntures com vencimento em maio e julho deste ano somam R$ 1,7 bilhão.
As contingências fiscais e trabalhistas, algo comum no setor, foram sendo acumuladas ao longo do tempo. A soma total atinge cerca de R$ 17 bilhões, valor que também não faz parte da recuperação extrajudicial.
O plano tem efeitos imediatos e prevê a suspensão das obrigações da rede junto aos credores afetados. A intenção é criar um ambiente estável para a continuidade das negociações pelos próximos 90 dias.
Fontes ligadas ao processo disseram que a empresa buscou se proteger de uma profecia autorrealizável. Os últimos dias, com a questão do risco da continuidade operacional vindo à tona, geraram tensão. Houve o rebaixamento da nota de crédito pela agência Fitch e um aumento do temor entre credores e fornecedores.
Foi preciso deixar claro que a indústria de fornecimento está fora do problema. A empresa decidiu agir antes que o cenário ficasse difícil de administrar.
Houve autorização unânime do conselho de administração para o pedido. O conselho tem membros da família Coelho Diniz, com 24,6% do capital, e do grupo francês Casino, com 22,5%.
Por mais de uma década, o Casino exerceu o poder de fato na rede, especialmente em temas de patrimônio e alavancagem. A partir de agora, a busca pelo apoio da maioria dos créditos visa resolver a liquidez de curto prazo e a sustentabilidade financeira de longo prazo.
A ideia é melhorar o perfil do endividamento, preservar o relacionamento com fornecedores e, principalmente, proteger a operação, que é a fonte de caixa da empresa.
O problema do GPA é considerado financeiro, e não operacional. A empresa teve um fluxo de caixa operacional de R$ 1,2 bilhão em 2025, mas R$ 920 milhões foram consumidos com juros das dívidas, fianças bancárias e custos com descontos de recebíveis.
O índice de liquidez corrente, que mede a capacidade de pagar compromissos de curto prazo, piorou. Passou de 0,96 no fim de 2024 para 0,83 no fim de 2025. Isso significa que, para cada R$ 1 de dívida, a rede tinha R$ 0,83 em recursos para pagá-la.
O agravamento do quadro de liquidez não é recente. Segundo a própria rede em seu formulário de referência, a situação vem se deteriorando há pelo menos dois anos, à medida que o grupo foi pagando dívidas sem que o caixa sustentasse a pressão.
O mercado já considerava possível uma medida mais drástica para o GPA. Na semana passada, quando a ação chegou a cair mais de 17%, circularam informações sobre uma possível renegociação ampla dos passivos.
Gestores afirmavam que seria difícil resolver a situação sem um aporte volumoso, de até R$ 1 bilhão, ou uma renegociação mais profunda das dívidas.
Segundo fontes, há consenso no conselho de que uma capitalização ajudaria a melhorar a situação da rede, algo que teria apoio dos bancos credores. Casino e Coelho Diniz estariam discutindo a questão.
Na segunda-feira, dia 2, a agência Fitch rebaixou a nota de crédito da rede de A para CCC. Em seu relatório, a agência afirmou que as iniciativas de revisão de gastos anunciadas em fevereiro não seriam suficientes para restabelecer o fluxo de caixa de forma sustentável sem uma redução material da dívida via aporte.
A empresa anunciou detalhes desse plano no dia 25 de fevereiro, prevendo redução de despesas e corte de investimentos pela metade para 2026.
Santoro reforçou que a operação é saudável e que a rede está em dia com fornecedores, clientes e parceiros, que não serão afetados pelo processo. Não temos um único boleto, uma única fatura em atraso, disse.
O executivo lembrou que as lojas continuam funcionando normalmente. São 728 unidades, entre Pão de Açúcar, Extra Mercado, Mini Extra e Minuto Pão de Açúcar. Em 2025, o GPA teve receita líquida de R$ 19,1 bilhões, um aumento de 1,7% em relação a 2024.
No último dia 24 de fevereiro, o jornal Valor noticiou que a empresa havia mencionado, em seu material de resultado, a existência de incerteza relevante sobre sua continuidade operacional.