Entrevista com Rachel Krentzman, PT, C-IAYT, MBA

    Rachel Krentzman é fisioterapeuta, professora de yoga e psicoterapeuta certificada. Ela nasceu em Montreal, em uma família judaica ortodoxa e passou por momentos difíceis, incluindo a prisão do pai, que a fez repensar sua vida. Rachel se especializa em cura pessoal por meio da psicoterapia somática e da terapia de yoga. Com problemas de escoliose e discos danificados, ela criou uma terapia eficaz que ajuda muitas pessoas no mundo todo. Hoje, vive em Israel com seu marido, filho e dois cachorros. Rachel é autora de vários livros sobre yoga, entre eles “Scoliosis, Yoga Therapy and the Art of Letting Go” (2016). Seu novo livro é “As Is: A Memoir on Healing the Past Through Yoga”.

    Em “As Is”, Rachel narra sua própria transformação e como teve que lidar com crenças herdadas sobre si mesma e sua família. A história mostra como ela encontrou um caminho para além de um legado pesado e se descobriu. O livro é uma narrativa sincera com reviravoltas, incluindo uma crise familiar que abalou sua visão de mundo. Ao buscar cura e autoconhecimento, Rachel encontrou segurança e inspiração na prática do yoga. Ela percebeu a forte ligação entre mente e corpo em sua jornada, que se passa em Montreal, San Diego e Israel.

    Tive a oportunidade de conversar com Rachel sobre seu livro, sua trajetória criativa e como suas descobertas a levaram a desenvolver uma terapia inovadora.

    Perguntas da Entrevista:

    1. Seu pai, um rabino ortodoxo respeitado, foi preso. Como você descreve esse momento e o impacto na sua visão da família, da fé e de si mesma?

    Foi como se tudo tivesse explodido. Acreditei que podia confiar na integridade do meu pai, na reputação da minha família e na minha fé, mas tudo desmoronou. Não era só a prisão dele que me quebrou, mas perceber que minha vida inteira era baseada em aparências e negação. Aprendi que precisava questionar tudo, como o que é verdade, amor e fé sem medo. Essa ruptura foi o começo do meu despertar, mesmo que na hora eu me sentisse completamente arrasada.

    2. Você fala sobre como o trauma fica guardado no corpo e pode ficar escondido por muitos anos. Como você descobriu seus medos e inseguranças armazenados e como foi o processo de liberar isso?

    Foi um processo lento e doloroso, literalmente. Aos 30 anos, a dor nas costas e um disco herniado me fizeram entender o que era o trauma incorporado. Cada dor e contração tinha uma história que eu ainda não tinha contado. Com o yoga e a terapia Hakomi, comecei a ouvir meu corpo. A dor me mostrava medos, culpas e tristezas que estavam ali há anos. A libertação não aconteceu de uma vez, foi com calma, respiração por respiração, começando a aceitar as sensações que antes eu evitava. Com o tempo, meu corpo e coração se abriram, e a cura veio de me aproximar da dor.

    3. A mudança de uma educação ortodoxa rígida para uma vida com yoga e um caminho espiritual mais compassivo é grande. Quais foram as crenças mais difíceis de deixar para trás e o que você descobriu sobre si mesma nesse processo?

    A maior dificuldade foi deixar para trás a ideia de que o amor precisava ser conquistado, que eu tinha que ser boa e obediente para pertencer. Essa mensagem moldou minha fé e relacionamentos. Desprender-se disso foi como desmontar uma estrutura de medo que me mantinha segura. O que encontrei foi simples: já sou inteira. O divino não está fora, julgando; está dentro de nós, esperando que ouvamos. Aprendi que a verdadeira espiritualidade é sobre presença, honestidade e compaixão.

    4. Você criou uma terapia que combina yoga, Hakomi e fisioterapia, ajudando pessoas com escoliose e dor crônica nas costas. Como sua experiência pessoal influenciou essa abordagem e por que ela é eficaz?

    Minhas dificuldades com escoliose e lesões nos discos impulsionaram minha evolução profissional. A fisioterapia tradicional me ensinou sobre anatomia, mas não explicava por que a dor voltava. O yoga trouxe a conexão mente-corpo e Hakomi revelou as raízes emocionais da tensão física. Essa terapia funciona porque vê a pessoa como um sistema integrado. Ao descobrir as crenças inconscientes que causam tensão, o corpo começa a se reorganizar de forma natural. Não é só sobre alinhar a coluna; é sobre alinhar o eu.

    5. Você pode explicar a relação entre medo, ansiedade e dor física? Como tratar traumas emocionais muda a parte física, como em casos de escoliose ou problemas nas costas?

    O medo e a ansiedade ativam o sistema nervoso, fazendo com que os músculos se contraiam e a respiração fique curta, preparando o corpo para o perigo. Quando isso se torna crônico, essas reações ficam marcadas na postura e movimento. Na escoliose, vemos o medo refletido no corpo: um lado segurando, o outro se dobrando. Ao tratar os traumas emocionais, a resposta do corpo ao perigo começa a se acalmar. Através de consciência, toque e respiração, convidamos o corpo a sentir o que antes era insuportável. Assim, a mudança acontece de dentro para fora.

    6. Para leitores que carregam legados dolorosos ou traumas familiares, quais seriam os primeiros passos para a cura? O que significa aceitar a si mesmo “como é” enquanto busca transformação?

    A cura começa com a honestidade e a coragem de não fugir da própria história. O primeiro passo é encarar a dor, testemunhando-a com compaixão ao invés de julgamento. “As is” não é resignação; é estar presente, sem vergonha, e tratar a si mesmo com gentileza. A transformação real provém dessa aceitação. Mudanças raramente acontecem de uma vez; elas ocorrem com paciência e consistência. Mesmo que você volte a velhos padrões, continua no caminho. Aceitar-se não significa desistir, mas sim assumir a responsabilidade pela própria cura, um momento honesto de cada vez.

    Esse é um convite à reflexão e ao autocuidado, mostrando que a jornada de cura é possível e que o autoconhecimento pode levar a transformações profundas.

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