A Chuteira Sem Pátria

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Naqueles gramados de chão batido, os pês descalços corriam atrás de bola, feita de meia e cheia de estopa e pano. Foi nesses campinhos, que se espalhavam e se estendiam, a todos os bairros, de qualquer rincão do Brasil, que surgiram Pelé, Marta, Garrincha, Formiga, Tostão, Daniela, Reinaldo, Zico, Roseli, Sócrates, Pretinha, Romário, Debinha, Barbosa, Barbara, Éder, Cristiane, Dener, Érica e tantas outras. Longe das escolas, que sequer existiam. Nelson Rodrigues acertou na mosca, “a pátria sem chuteiras”. Pois o futebol foi é uma paixão nacional. E pouco importa o 7 a 1 dentro de casa. Pois no futebol, o brasileiro consegue ser grande, ser gigante. No futebol o David vence Golias. Mesmo sem chuteiras, sem escolas, sem saúde, moradia, assistência social, sem saneamento básico, às vezes até sem alimento. Lá nos gramados, dentro das quatro linhas, nós o povo brasileiro é gigante.

E como não retratar a gigantes, este time de Chapecó? Esse chapecoense que conquistou o coração das brasileiras e brasileiros, tendo o índio como seu símbolo máximo. Pois são os índios, os povos nativos dessa terra que resistem há 500 anos contra um opressor tirano e sanguinário. O avião caiu, mas levantou. Nas redes sociais e nas maiores belas manifestações de compaixão, de respeito à vida, de dignidade humana, de humanismo. Chapecó foi abraçada, com ou sem chuteira, com todo carinho e calor pelo povo brasileiro. De forma fraterna e esplêndida. Cada familiar, mãe, pai, filho, esposa, de cada vítima se sentiu abraçado, agraciado, em gestos autênticos e sublimes.

Não fosse a ironia do destino, o Estado brasileiro, representado por suas velhas “elites” e oligarquias, a Casa Grande, representado pelo executivo, legislativo, judiciário e pela mídia, que nem em luto respeitam o povo brasileiro. Afirmavam essa elite senil, há duas três décadas, “é preciso crescer o bolo para depois dividir”. Justificando assim, uma “pátria sem chuteiras”. O bolo cresceu. O PIB do Brasil em 1994 era de R$705,00 bilhões e uma população de 160 milhões de habitantes, e em 2016 é de R$6,00 trilhões de PIB e uma população de 206 milhões de habitantes.

O bolo cresceu, e o povo brasileiro continua a mingua, sem chuteira, sem escola, sem justiça, sem saúde, sem saneamento, sem trabalho, sem terra, sem pão. Sem o mínimo do mínimo de dignidade humana. A maioria do povo vive amontoado em favelas, em serviços terceirizados, os pequenos agricultores sem assistência, ou seja, a grande maioria nunca sentiu sequer o cheiro do bolo, e vive sem saber sequer que tem “direitos”. Marginalizados, criminalizados e violentados todos os dias e noites.

Eles violentam o brasileiro todos os dias. A mídia é violenta quanto “mente, calunia e difama”. O executivo é violento quando manda a polícia bater em manifestante. O judiciário é violento quando não julga o “crime de colarinho branco”. O legislativo é violento quando aprova leis injustas, para o seu próprio beneficio. Eles roubam até a merenda de nossas crianças, a de quem ouse reclamar a barriga vazia. Repressão, porrada, pancada, covardia.

Ontem, dia 29 de Novembro de 2016, os “regressistas” bateram na juventude, reprimindo – causando inveja aos tempos áureos da ditadura civil militar - crianças, aposentados, trabalhadores, professores, estudantes, que ousou ocupar aquela que eles denominam: “a casa do povo”. Mas cuja seu próprio povo não respeita, não representa. Com suas leis injustas. O que fazem é latrocínio, “primeiro eles impedem as crianças de estudar e depois condenam por ignorância”. Cometem crime contra a pátria de forma premedita, por mera ganância, por não querer dividir o bolo. Assim como, o acidente com o avião que levava os sonhos, as famílias, as vidas, as esperanças de Chapecó, ao que parece foi selada devido à ganância de um e outro.

Assim eles, os indignos desta terra, não apenas ceifa o direito a livre manifestação democrática. Não. Eles esquartejam é o sonho de uma pátria, o nosso futuro por duas décadas, com a tal PEC dos Tetos. Eles, a Casa Grande, novamente justificam o bolo a crescer, até prometem chuteiras e meritocracia a senzala. Mas chuteira sem pátria? Chuteira sem campo de futebol? Chuteira sem escola? Sem saúde? Sem universidade? Sem direitos? Sem emprego? Sem comida? Sem amor, carinho, respeito...

 

Ontem, dia 29 de Novembro de 2016, um avião com heróis de chuteiras caiu e comoveu todo o povo brasileiro. Assim como ontem, dia 29 de Novembro de 2016, a juventude brasileira se levantou e descobriu que existem milhões (a senzala, a favela, a periferia) que nunca tiveram direito algum, e acordou para a necessidade das cabeças progressistas em se unir e construir a nossa Pátria – pois nem que seja descalço: Amanhã Vai Ser Maior!

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