Orun Ayé - "Vilão é vítima"

  
Em edição extra, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar mostra um outro ângulo da situação do jogador Adriano. Diria que concordo com a abordagem.  Vilão é vítima Um dos assuntos preferidos da imprensa esportiva, sensacionalista e a mistura das duas que anda muito em moda atualmente é o jogador Adriano, o ‘Imperador’. Adriano é mais um dos casos célebres de jogadores com infância pobre, de talento e que poderiam chegar muito mais longe aonde chegaram e não conseguiram por suas cabeças. A imprensa e o público em geral preferem atacar esses jogadores. Preferem humilhar e debochar que realmente tentar descobrir o que ocorre com esses seres humanos. Sim, seres humanos: as pessoas esquecem que antes de ser um jogador de futebol é um ser humano. Isso vem de muito atrás, desde tempos imemoriais. Começa com Heleno de Freitas, chamado de “Gilda” em alusão ao personagem de um filme da época. Heleno era genial e genioso, bonitão, cheio de mulheres, adorava uma confusão e morreu louco e sifilítico em um manicômio. Outro da linhagem foi Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas” - que para muitos foi melhor que Pelé. Garrincha foi um dos maiores jogadores da história do futebol, com dribles inigualáveis - assim como foram inigualáveis sua ingenuidade e sua queda por mulheres e bebida. Morreu alcoólatra e pobre, tendo sua decadência física e moral exposta ao povo brasileiro em momentos como o desfile da Mangueira de 1980. Almir Pernambuquinho não foi jogador do nível dos dois primeiros, mas mesmo assim foi um grande jogador, campeão pelo Flamengo e que também atuou pelo Vasco e no Santos de Pelé. Protagonizou momentos memoráveis como uma briga generalizada com o time do Bangu na final do carioca de 1966. O Flamengo perdia por 3x0 e Almir não permitiu que o Bangu desse a volta olímpica. Almir morreu alguns anos depois assassinado numa briga em uma boate em Copacabana. O dinheiro no futebol aumentou muito nos últimos anos e com isso as farras e os escândalos ganharam maiores proporções. Tivemos casos extremos como o Bruno, goleiro do Flamengo preso por assassinato, mas outros que não chegaram a esse ponto, mas aprontaram muito como os do passado. Mas ao contrário dos jogadores do passado esses ganharam tanto dinheiro que mesmo aprontando conseguem continuar ricos. Romário, Edmundo, Renato Gaúcho, Ronaldinho Gaúcho e Djalminha são exemplos desse tipo de jogador. Quizumbeiros, brigões, mulherengos e geniais. Todos eles, inclusive Romário, acabaram pagando o preço desse lado off futebol e tiveram carreiras inferiores a que poderiam almejar. Romário com a carreira brilhante que teve, campeão mundial em 1994 sendo o principal jogador da copa perdeu a copa de 1998 por contusão, se fosse mais atleta não teria tantos problemas musculares. Perdeu a copa de 2002 e as Olimpíadas de 1996 e 2000 pela falta de confiança dos treinadores em seu lado disciplinar. Ronaldinho Gaúcho assombrou o mundo até 2006 e depois simplesmente decidiu parar de jogar. Edmundo em 1997 foi considerado por muitos o melhor jogador do mundo, mas teve uma carreira inferior ao que poderia e ainda se viu envolvido em acidente de carro com três mortes. Djalminha nem a copas foi e Renato mal conseguiu jogar na Europa. E chegamos ao caso mais dramático. Adriano. Garoto pobre da Vila Cruzeiro, com tudo contra em sua vida Adriano conseguiu vencer no futebol. Virou Imperador em Milão, titular da seleção, sucessor natural de Ronaldo fenômeno e no auge da carreira perdeu o pai. Seu alicerce. O rapaz se deslumbrou, se cercou de confusões, mulheres e se entregou à bebida tornando-se alcoólatra, além de sofrer de depressão. Doença que atinge cada vez mais pessoas nesse mundo moderno. Tentou várias vezes dar a volta por cima e em algumas conseguiu como no Flamengo em 2009. Mesmo naquela campanha faltou inúmeras vezes a treinamentos, amarrou namorada em árvore e queimou o pé numa moto em reta final do brasileiro. Nos últimos dois anos jogou por Roma e Corinthians mal entrando em campo e fazendo apenas dois gols. Agora tem nova chance no Flamengo, talvez a última - como ele mesmo diz. Adriano não é mais imperador. Poucos acreditam nele e ele ajuda essas pessoas faltando a treino e se metendo em confusão como na semana passada. Já está ameaçado de nova demissão, o que poderia significar o fim. O que eu penso disso tudo? Tenho muita pena do Adriano, porque enquanto todos debocham, humilham, fazem pouco dele eu vejo uma pessoa doente. Eu vejo sinceridade nele quando diz que quer mudar, que quer provar que pode, quer mostrar pra sua família seu valor, dar a volta por cima e quando pede desculpas. Mas como eu disse, ele é uma pessoa doente, tem que se tratar. Alegam que então a culpa é dele porque não procura tratamento, aí pergunto aos leitores... Quantos de vocês ou dos que debocham dele já tiveram um alcoólatra, drogado ou depressivo na família ou na relação de amizade? É fácil? Foi fácil para que essas pessoas percebessem a doença e procurassem ajuda? Nenhum doente admite facilmente que precisa de ajuda, tratamento e o caso do Adriano é pior ainda. Ele é milionário, famoso, é cercado de gente que quer seu mal, quer sugar tudo que ele tem e como parasitas aproveitar tudo que ele conquistou. Para essas pessoas não interessa o Adriano bem. Interessa o beberrão que dá festa regada a mulheres. Ao contrário dessas pessoas, que vejo muito pela imprensa, eu não sacaneio ou debocho das falhas do Adriano: eu sinto pena. Fico triste porque é um ser humano que você vê que é do bem, quem convive gosta se afundando cada vez mais. Você não vê ninguém falar mal da pessoa Adriano. O Adriano é um cara que gosta de estar na favela dele, com os amigos de infância dele, sem camisa soltando pipa e bebendo cerveja e para muita gente isso é um grande mal. Talvez se as perdições dele fossem beber uísque num bar chique de Ipanema com artistas e pessoas famosas não pegariam tanto no pé. Como ele mesmo diz, Adriano é uma pessoa que faz mal só a ele mesmo. Torço por sua volta por cima, que ele volte a campo, faça gols e volte a seleção. Não só apenas porque está no Flamengo, meu clube do coração, mas pela salvação de uma vida. Porque os mesmos que debocham hoje serão os primeiros a lamentar quando ele tiver um fim igual ao de Garrincha, Heleno ou Almir.  Vai Adriano, faça esse gol. Orun Ayé! (Foto: Uol) P. S. Alguns leitores não entenderam a coluna de domingo. Eu não disse que tem que ter uma revolução, eu disse que só acredito em revoluções de baixo pra cima. Revolução de cima pra baixo é apenas mudança de poder dentro do status quo e não ignoro que tivemos batalhas na formação do país como Canudos, Confederação do Equador, Farroupilha e outras. Mas a meu juízo foram casos isolados e em momentos importantes como a declaração de independência não podermos nos orgulhar de mártires e isso fez mal ao país, é a falta de referência. Não temos um Che Guevara, Simon Bolívar ou Lincoln.   E não nego que em casos mais simples como disputas de samba e carnaval não nos mobilizamos para mudar. Mas nós compositores, as disputas e o carnaval somos reflexos do país, somos parte dele e agimos e reproduzimos em um ambiente menor aquilo que a nação é.  Assim como quem reclama de seu emprego, que não lhe valoriza e destroem sua auto-estima prefere reclamar em rede social que se mobilizar, entrar em sindicatos ou fazer algo mais relevante que possa mudar sua situação que reclamar em 140 caracteres.

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