A Semente da Corrupção

A palavra corrupção nunca esteve tanto em evidência, fala-se da necessidade de combatê-la em tom de clamor por salvação. Palavras de ordem que se tornaram verdadeiros chavões são ditas com toda empáfia: “Por mais ética na política!”, “Por um Brasil melhor para os nossos filhos!”, “O país está se acabando em corrupção!”. As pessoas, em geral, se manifestam e, indignadas, publicam e republicam nas redes socais frases moralistas e permeadas de hipocrisia. Tanto quanto a corrupção, a imaturidade para combatê-la está na própria forma em que esse assunto é tratado, ou seja, a nível de senso comum. É notável a falta de lucidez, de pensamento crítico e, sobretudo, a falta de exemplos, quando se trata de uma conduta moral e ética em que o bem coletivo esteja realmente em vista.

A crise ética generalizou-se - ela se inicia a partir da nossa própria exclusão de tudo que está errado - o problema é sempre o outro. Eu? Não! Sempre tentamos passar a impressão de que agimos para o bem comum, nos excluímos de qualquer tipo de julgamento e transferimos toda a responsabilidade pelas mazelas da sociedade para os outros. Vivemos de máscaras e tornamo-nos incapazes de analisar a nossa própria conduta ética e moral. Ou seja, para combater a corrupção, o primeiro passo é a maturidade, para que seja possível uma autoanálise, ou seja, se incluir nesse processo, inclusive nas coisas mais simples, para deixarmos de sempre atribuir a responsabilidade pelo problema ao outro.

Então, a corrupção não é só um problema dos políticos, mas do cotidiano de todos. Em uma palestra sobre Hamlet, no programa Café Filosófico, da TV Cultura, o professor de História, Leandro Karnal, faz uma reflexão sobre a percepção simplória e inocente das pessoas sobre a corrupção. "Há uma categoria de pessoas, que são 'as pessoas felizes'. No Brasil, essas pessoas acreditam profundamente que a corrupção está a cargo de apenas um partido. Elas acreditam que bastasse tirar este partido do poder, para que o reino da justiça e da igualdade se instalasse no país. Essas são pessoas muito felizes", ironiza.

O professor explica que esta categoria de pessoas, se enquadra no "culto da corrupção isolada". E diz que segundo a concepção hamletiana, a corrupção começa na microfísica do poder. Karnal cita exemplos do cotidiano, bastante comuns para os brasileiros. Ele nos alerta para um processo estrutural que se enraizou na cultura brasileira e que se alastrou como um senso comum, um hábito traiçoeiro nas famílias, nos serviços públicos e privados, nas instituições educativas e, em decorrência, nos sistemas de governo legislativo, executivo e judiciário.

Pois bem, a corrupção no cotidiano surge a partir de atitudes aparentemente simples e ilusoriamente insignificantes, que emergem da educação familiar equivocada e que tendem a evoluir durante todo processo educativo, seja ele formal ou informal, resultando na corrupção escandalosa e cruel que contamina os partidos políticos e os governos em geral.

Atitudes como, por exemplo, colar na prova, sonegar impostos, pedir atestado médico falso, criar um perfil “fake”, o plágio, a carteirinha falsa, compra de CNH, fazer hora no trabalho, comprar produtos piratas, desrespeitar o outro, subornar, roubar um sinal de TV por assinatura, enfim, tudo que leva a pessoa a levar vantagem em detrimento do outro. Estas e outras são as bases para a corrupção de grandes proporções, como por exemplo, o “caixa 2” de campanhas, a propina na privatização, o superfaturamento no metrô em São Paulo, o mensalão, os escândalos do petróleo, e outros casos.

Segundo o Dicionário Online de Português, “Corrupção” significa: “Ação ou efeito de corromper. Ação ou resultado de subornar (dar dinheiro) a uma ou várias pessoas em benefício próprio ou em nome de outra pessoa; suborno. Utilização de recursos que, para ter acesso a informações confidenciais, pode ser utilizado em benefício próprio. Alteração das propriedades originais de alguma coisa: corrupção de um livro. Ação de decompor ou deteriorar; putrefação: corrupção das frutas. Desvirtuamento de hábitos; devassidão de costumes; devassidão”.

A corrupção não é um fenômeno novo. Em documentos históricos, textos literários e em estudos da História, há vários exemplos em diferentes épocas e em distintas formas de organização social. Textos sobre estudos sobre a corrupção geralmente iniciam advertindo que esta sempre existiu, desde quando o ser humano começou a se organizar politicamente. No entanto, é verdade que no Brasil a corrupção assumiu uma maior visibilidade quando da instauração e consolidação de um regime democrático, o que de certa forma permite a investigação (institucional e jornalística) de casos suspeitos de corrupção, ainda que por vezes criem-se entraves ao seu andamento.

Os brasileiros que conviveram com a existência de práticas corruptas em todas as fases de suas vidas, atualmente vivenciam um novo tipo de corrupção, característico do mundo capitalista e globalizado. Sentimos os efeitos das políticas neoliberais adotadas com rigor na década de 1990, das quais resultou a efetivação de um Estado mínimo, acompanhada, lamentavelmente, da diminuição e do enfraquecimento dos controles estatais. O país hoje apresenta casos de corrupção que se aproveitam do sistema democrático e se entrelaçam com o crime organizado.

Pois bem, segundo Leandro Karnal, Hamlet é uma peça sobretudo política. Escrita por William Shakespeare, entre 1599 e 1601, o personagem principal, Hamlet, é um príncipe que anuncia haver “algo de podre no reino da Dinamarca”. E a partir disso, "investiga as mazelas no seio da própria família. Essa consciência hoje tem um paralelo com a democracia. Ela traz a consciência do que somos". O problema, disse, é que esse reflexo é muito desagradável.

Neste sentido, muitas pessoas se comportam como tendo uma visão apenas parcial da corrupção, na atual conjuntura política no Brasil. Se por um lado, mostram-se revoltadas e cheias de ódio, e externam sua indignação nas redes sociais e nos movimentos de rua, por outro lado se revelam tolerantes, complacentes, como se a corrução fosse uma invenção de apenas um determinado partido político. Por exemplo, por um Brasil livre, mas livre de quem eles não querem no poder - é muita ingenuidade não pensar num Brasil livre, mas livre da corrupção, se isso for possível. Além disso, não dão o exemplo com atitudes do bem – refiro-me ao bem comum de toda sociedade. Pequenos atos ilícitos não diferem, em sua essência, dos grandes crimes, mas tornam-se uma mera questão de oportunidade.

Mas o crime não compensa, pessoas poderosas estão presas e muitas ainda deverão ir para a cadeia. O século XXI será o século do judiciário, pois só é possível garantir a justiça em países onde a democracia está fortemente instituída. Para isso, a boa conduta individual é indispensável para a construção de um mundo melhor. Pois a pequena ou grande corrupção de cada um degenera a vida em sociedade.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

 

Contato: [email protected]

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