A solidão e o amor na divina comédia humana

Desde garoto tive uma relação bastante estreita com a solidão. Lembro-me, que desde de criança já procurava um refúgio para alguns momentos de isolamento e, muitas vezes, escolhia apenas a música para companhia. Ficava ali, num canto da sala, sentado sobre uma pilha de sacos de arroz no mais profundo isolamento. Meu pai era agricultor e quando não havia mais espaço para armazenar a colheita, empilhava tudo na sala de casa mesmo, só ficavam pequenos espaços para a passagem da família ou de eventuais visitas.

Falo aqui dessa solidão como uma forma de estar e sentir o mundo, que é uma ruptura momentânea com o cotidiano, digamos que seja uma busca pela transcendência - um estar aqui estando lá, uma viagem contemplativa, de luz e de integração com o “eu” e com a condição humana. A solidão é um fio, pelo qual nós somos capazes de comunicarmos com o mundo abstrato e captar as mais finas sensibilidades das coisas.

 Já numa fase mais adulta, recorria ao carro de meu pai, na época, um fuscão branco 1975 que eu gostava muito, procurava um espaço onde não se ouvia ninguém a não ser o canto dos pássaros e o barulho do vento. E, lá ficava horas pensando na vida ou ouvindo boas canções. Confesso que ainda faço isso até hoje, porém com menos frequência, mas com mais intensidade. Talvez, isso explique o fato de eu ser uma pessoa introspectiva, não gosto muito de compartilhar com o outro minhas emoções, meus afetos e meus problemas. Prefiro vive-los comigo mesmo e, quando me expresso, são através de textos, principalmente, pela poesia. Quem conviveu ou convive comigo sabe disso. Eu sempre me recolho a qualquer tom de ameaça.

Na minha adolescência conheci a música de Belchior e imediatamente me identifiquei com elas. A partir daí, passei a ouvir as suas canções sempre que podia, principalmente, nos momentos mais doídos da vida em que a nossa alma fica mais sensível. Para mim, as músicas do cantor tem um tom lírico intenso, eu diria um lirismo que completa essa minha sensibilidade aguda. Suas músicas sempre mostram a todos nós altas doses de tensividade.

Uma das músicas que eu gosto muito de Belchior é a “Divina Comédia Humana”, exatamente por esse tom lírico pontiagudo, tenso e denso.  Aliás, o artista e poeta Belchior tem uma forma única de se expressar. Eu diria que seria capaz de reconhecer qualquer texto lírico inédito de sua autoria sem muita dificuldade.

Na música, Divina Comédia Humana, ele fala de amor que surge num momento de profunda angústia e cito aqui alguns trechos: “estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol / como um sol no quintal / aí um analista amigo meu disse que desse jeito / não vou ser feliz direito / porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual (...) porque o amor é uma coisa mais profunda que um transa sensual”. Veja como ele despreza as recomendações teóricas e analíticas do amigo quando se trata de viver um amor, mas não as desprezando completamente: deixando a profundidade de lado / eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia. (...) eu quero gozar no seu céu / pode ser no seu inferno / viver a divina comédia humana onde nada é eterno. 

A vida não é feita somente de contemplação, mas essa dualidade existencial se completa – práxis e enlevo. Como disse Clarice Lispector “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata”.  A atividade contemplativa permite a leitura de si próprio para compreender a si mesmo, o outro e ao mundo. A aproximação da câmara contemplativa nas instâncias do ser faz emergir um universo: as esferas mais recônditas, mais sensíveis do indivíduo na sua individualização e na sua individuação. 

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