Hoje, 18/07/2001:

                Feliz aniversário e longa vida ao velho Mandinga Dr. NELSON MANDELA.

          Anexo abaixo uma ´Carta´ de um ativista afro-brasileiro saudando a MANDELA. Meu depoimento: em 1991 fiz parte da Comissão de recepção em São Paulo ao líder NELSON MANDELA, recém liberto na África do Sul, em seu primeiro giro internacional na busca de apoio contra o regime racista de apartação racial (aphartheid) ocasião em que o saudoso amigo, jornalista HAMILTON CARDOSO lhe entregou uma ´Carta Aberta´. Naquela condição tive a honra de representar o Conselho da Comunidade Negra do governo do Estado – eram dez afro-brasileiros entre 200 convidados - de participar do almoço oferecido pelo governador Fleury no Palácio Bandeirantes, em homenagem ao  nosso grande ícone da luta contra o racismo. Não esperávamos, eu e Hamilton, que aquela nossa trajetória resultasse em políticas de apartação racial no Brasil agora conduzida por oportunistas e profissionais da ´raça´ estatal que não conseguem enxergar os males sociais que tais políticas produzirão contra os afro-brasileiros.

                 Vinte anos depois, a fantástica ´Carta´ de Hamilton (que não suportou as dores do racismo no Brasil e a dualidade de ser preto nas terra de brancos, pondo fim à própria vida) é um documento político e poético que um dia será reconhecido como um libelo clássico. Vale a pena conhecê-lo. Na condição de amigo do autor, dei minha modesta contribuição aos rascunhos da ´Carta´, que na verdade, era o testemunho de nossa geração de ativistas brasileiros cevados nos anos da abertura democrática empenhados em desmitificar a falaciosa ´democracia racial´ como política oficial brasileira. Boa leitura. Feliz Aniversário Mandinga e ainda mais longa e vitoriosa existência.

J.Roberto Militão,

18julho2011.

(coindiências: nasci em 02/07/1953; Hamilton em 10/07/1953 e Mandela em 18/07/1918)

Carta Aberta (Parte 1) que Hamilton Cardoso escreveu e entregou ao líder sul-africano Nelson Mandela em 1991. Um texto crítico, polêmico e poético a espera de um editor.

 

“ Meu caro Rei e presidente Mundial:

http://www.geledes.org.br/atlantico-negro/movimentos-lideres-pensadores/afrobrasileiros/hamilton-cardoso/1003-hamilton-bernardes-cardoso

 “ Quero manifestar e demonstrar-lhe a minha gratidão ao Cedec - Centro de Estudos e Cultura Contemporânea do Brasil. Eles me ajudaram a escrever-lhe esta carta. São meus amigos e o José Álvaro Moisés, de lá e, hoje na Inglaterra estudando, contribuiu decisivamente para que eu pudesse retirar as primeiras gotas de lama do país - cadáveres de todos nós - dos ombros. Ele me revelou - e eu demorei a concluir - que esta história de "jeitinho brasileiro" e da "malandragem compulsiva inerente do negro" são cadáveres siameses em nós.

O Marcos Faermam, um jornalista judeu como a maioria dos personagens de Richard Wright e da vida anti-racista negra norte-americana além de mostra-me, indicando livros para ler e ma dar tempo para faze-lo - garantiu, e criou condições para eu pensar e refletir sobre eles. E me convencer que eu sou uma ostra. Convenceu-me também de que o que eu gosto mesmo é jornalismo literário, e que poderia fazer uma grande reportagem. Tentei. Este é o esforço das ostras - e eles as nossas esperanças.

Tudo depois que o ex-deputado federal Adalberto Camargo me financiou os estudos na faculdade e o Wanderlei José Maria leu para mim a frase do Marx que diz que "quem tem fome não tem tempo para ver o por do sol". Ele, o Wanderlei, me ensinou a escrever o que realmente penso. A Dra. Iracema de Almeida deu-me o primeiro empurrão e o "catiça" e a Deodô, meus pais, carregavam-me, sobre os ombros deles.

Ela pagou matrícula da faculdade. Caí no mundo.

O meu irmão Airton (fale rápido!) B. Cardoso, ao meu lado era invisível. E continua. Ele está morto e é um cadáver, belo e leve, como o do Eduardo de Oliveira e Oliveira, o sociólogo que dizem, suicidou-se porque não agüentou, mestiço, a tortura de ser negro e refletir sobre si mesmo e viver entre e, nos Dois Mundos. Ele me abriu as portas para escrever aquele artigo que o Francisco Weffort, com o Paulo Sérgio Pinheiro, Passado sem Mácula!, adoraram. Ele abriu as portas da minha auto-confiança.

De qualquer modo, se não fosse o Cedec, onde há mais de meia década eu e o Weffort - que conversava muito comigo e me revelou, mostrando a inutilidade deles, que um dia eu teria que derrubar cadáveres - ele escreveu sobre isto em relação ao socialismo, sem o Cedec eu não teria como lhe entregar esta carta. Ela poderia ser mais um cadáver da minha vida. E diante dela. E eu o desconheceria. Não saberia que estes defuntos existem.

Como você vê, eu estou por conta própria - mas nem tanto assim. O Orestes Quércia, ex-governador, quando eu estava quase afogado - e com a ajuda do ex-secretário dele, o Oswaldo Ribeiro, negro como nós- mostrou-me como sair do lodo. E a minha companheira, a mulher, Maria Cristina Brito Barbosa, sempre olhava para mim cuidadosamente e , por receio, talvez, - ela é branca - não deixava eu me liberar repentinamente dos entulhos. Ela temia, em mim, um choque anafilático e a loucura em minha mente. Eu seria um dos cadáveres dela. E Ela sabia que eu precisava do equilíbrio que você, meu caro Rei, demonstra. E também que eu não sou - talvez não tenha nascido para isto - um Estadista. E antes do meu isolamento - nos buracos das periferias repórter do povo - eu vi a loucura mental e a miséria (é uma loucura!) social dos descendentes dos seus compatriotas escravizados. Como muitos eu colocava a mão na cabeça e chorava... Você estava preso na África do Sul.

Mas como bom e fiel súdito, eu lhe peço: lembre-se sempre desta contribuição do Cedec. Nele, eu tenho amigos de verdade. Não que eles não tenham compromissos com a branquitude deles, mas é que a branquitude - e a minha companheira me ensinou - não é como a negritude: uma condição. Eles, e muitos deles - a maioria dos que tenho - são meus amigos.

Um ex-governador, por exemplo, se elegeu sendo chamado de brega. E ele, que agora "e um dos homens mais poderosos deste país, gargalha com o porta voz, à respeito disto - a acusação ou xingo. E ele é adorado e admirado, por uns, por muita gente, inclusive, que discorda dele na política - com raiva e inveja, até. E foi rindo e gargalhando dos acusadores, que ele construiu o prestigio o poder e a tranqüilidade. A Beatriz do Nascimento, a socióloga, do filme Ori, é a melhor que conheci na área e invisibilizada, por bem menos é o que é. Ela não matou ninguém - nunca foi chamada de japonesa, apesar de Ter os olhos puxados. E eu penso, às vezes, que ela deglutiu ou teve a língua deglutida...

Aliás, falando dos meus amigos, principalmente os do Cedec, lembrei-me da historiadora Maria Victória Benevides - que é de lá -, e eu a ouvi muitas vezes citar o Getúlio Vagas, que dizia: "Aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei."

Eu não sei, e gostaria de ouvir ou ler a sua opinião à respeito, sobre o ditado do Getúlio Vargas, pai dos pobres -, se ele é certo... O fato é que é assim que as coisas funcionam aqui no Brasil, na democracia racial.

Se eu lembrasse, antes de lhe escrever, talvez eu pudesse, ao invés desta longa carta, enviar-lhe um bilhete com aquela frase. Ela sintetiza o Brasil e os mitos da de democracia racial e do país cordial. E, ao que parece, é no que o Frederico quer transformar a África do Sul. O De Klerk. O nome dele é Frederico, não é? O nome é popular no Brasil...

Mas existe o Mandela lá, - a Pérola, e o ANC. São populares lá...(O que eu penso sobre LÁ é positivo - e sua passagem, ela é "purificadora" pelo Planeta. E sobre o Conselho, acho que você dirá o seguinte: "TEMOS QUE MUDAR A LEI".

É por isto que eu gosto de afirmar: TEREMOS A NOSSA CHANCE.

Aliás: acho que criarei um jornal com este nome. Este, esta carta, é o registro. O meu registro de nomes, marcas e patentes. Direto com o Rei.

Bem..., agora eu vou pegar o meu ganzê e o ganzá e ao invés de Não sei por que sou tão preto e azul, de Louis Amstrong, eu vou ouvir a festa para o rei negro. Com a minha mulher...

Afinal, o Mandela é tão preto, mais azul que eu. E eu sei o porquê disto...

 

Os dois Mundos 

Meu caro: estamos organizados, no Brasil. Temos os nossos movimentos sociais, integramos os Partidos Políticos em comissões esportivas e o Estado em Conselhos e Coordenadorias especiais municipais ou estaduais, ou Fundações e repartições específicas, para organizar a nossa gente. Mas existe o Rap, são os rappers da Massa que em São Paulo se desenvolveram à partir dos EUA, mas foram impulsionados pelos FATOS do Zimbabwe. São do outro mundo!.

Ele é formado pelos sobreviventes do extermínio de crianças, colocado em andamento nos últimos dez anos. O jornal da Tarde, de São Paulo, do dia 19 de julho de 1991 entrevista um, e o pai de outro deles, Bezerra da Silva, o cantor dos bandidos, e revela isto: eles estão revoltados.

O jornal afirma que eles são os "sem nada". Basta ser sensível: eles são uns macacos!

Meu caro:

Eu sou jornalista e repórter e você, advogado e ex-preso político, atual presidente do Congresso Nacional Africano nasceu, viveu, foi criado e estudou; defendeu, ou tentou defender as causas justas na África do Sul, colonizada por diferentes nacionalidades européias que se impuseram ao mundo e transformaram o seu país, onde criaram o sistema do apartheid, no lodo da civilização. O seus antepassados esperavam que você fosse um homem, e eles fizeram de você uma ostra...

Existe um samba no país onde nasci - dizem e eu acredito que é meu - que diz o seguinte "o ouro afundo afunda, madeira bóia por cima; a ostra nasce do lodo, mas gera pérola fina..."

O seu país deu ao mundo os mais belos e os maiores diamantes da humanidade e o meu, o ouro - ou parte considerável dele - que foi necessário, durante o mercantilismo para que surgisse o capitalismo - este tipo de economia tão contestado desde a Europa, condenado por milhões de pessoas, mas que se impõe cada vez mais, de forma definitiva sobre todos. Muitos o abominam, mas vários deles, quando podem, dele se apropriam. A escravidão, aqui no meu país, que atingiu a maioria dos meus antepassados de mais de três gerações, que custou caro até hoje, acabou oficialmente em 1988, dia 13 de maio, mas até hoje uma frase perturba-nos a vida: "todo mundo tem seu preço..." (Conduzindo Miss Dayse- filme dirigido por Bruce Beresford). Nós já não custamos nada. Deixamos de ser VENDIDOS

Mas eu não escrevi para fazer digressões. Todo negro, digo a maioria, tem esta tendência, de querer falar de tudo de uma só vez. E se prejudica por causa dela. Mas eu, um prejudicado como todos os negros do mundo até Collin Powel, que é o chefe do Estado Maior dos EUA - atuais donos do mundo e que há algumas semanas decidiram tirar a África do Sul do isolamento - também tenho esta tendência.

Escrevi para lhe falar do Brasil, - o meu país.

Você, que nasceu confinado no seu país, foi preso depois do massacre de Shaperville e, mais confinado ainda numa prisão, ficou nela por 27 anos, desde os 45 - de vida confinada pelo apartheid, submetida a uma maior -, foi à força no fundo do lodo onde, certamente se encontrou com outras ostras. Dentre elas, por causa do seu reconhecimento como líder e dirigente delas e de outros é, certamente, a mais fina das Pérolas - Você poderia, e nós sabemos que até por razões táticas, beneficiar-se como o fez e corretamente o guiano, sul americano, como eu, E. R. Braithwaite, da mania dos racistas de todo o mundo que, na África do Sul recebeu o título de Branco honorário.

Ele denunciou, a partir desta brecha, (ou honra, sei lá), a tragédia sul-africana, uma tragédia da humanidade deles e não nossa. Mas você, um negro, negou-se. Ninguém é o que não é. Você combateu a tragédia.

Recentemente um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, Terumi Maeda, que foi para o Japão trabalhar na Honda do Japão, foi contratado lá como imigrante, entrou em depressão, visitou uma japonesa - que dizem, ele queria conquistar ou seduzi e foi recusado. Ele a estrangulou. Agora corre o risco de ser condenado à morte.

Os jornais brasileiros disseram algo interessante: ele tinha cara de japonês, jeito de japonês, mas não era. Era brasileiro. O ex-embaixador guiano que foi condecorado com o título de "Branco Honorário" por sorte não acreditou na história. E denunciou o fato em um livro publicado em 75 na Inglaterra, com este título: Branco honorário. Ajudou a matar um pouquinho do apartheid.

Aqui no Brasil, onde o racismo não é e nunca foi legal, - é péssimo, por sinal - existe a condecoração, concedida no plano individual e emocional - o Negro de Alma Branca - que foi rejeitada, inclusive, pelos negros da África do Sul e é utilizada para muitos dos nossos, até publicamente. Mas você, ao que me consta, e pelo que demonstra, rejeitou as duas...

Tudo isto, meu caro, o torna uma Pérola Fina.”  (a parte II ainda não foi publicada).

aqui: http://www.geledes.org.br/atlantico-negro/movimentos-lideres-pensadores/afrobrasileiros/hamilton-cardoso/1003-hamilton-bernardes-cardoso