CARTA ABERTA a MAURÍCIO PESTANA, Presidente do Conselho Editorial da Revista ´Raça Brasil´ a respeito dos debates de ´cotas raciais´ e leis raciais de segregação de direitos.

      São Paulo, 8 de março de 2011.        

 

                                  

 

     Prezado amigo MAURÍCIO PESTANA e demais a quem copio por amor ao debate, alguns ilustres ativistas que se interessam e discutem a edificação de um Brasil melhor para todos os afro-brasileiros.  Desculpe utilizar teu endereço particular para assunto pertinente à editoria da revista ´Raça´ pois não encontrei o teu endereço da editora. O assunto é os caminhos do combate ao racismo. A verdade é que, neste tema, não temos o direito de exercer o nosso sagrado direito à omissão, conforme sentenciou a filosofia de SARTRE em a  ´Idade da Razão´ indutora da nossa geração a assumir o ativismo político.

 

     MAURÍCIO, nós todos, estamos de pleno acordo com o diagnóstico do racismo no Brasil e o dever do estado atuar para a neutralização e impedimento de discriminações raciais injustas, porém, divergimos, de forma leal e honesta, conforme fizemos em debate na TV Cultura em meados do ano passado, nas convicções sobre a terapia a ser empregada e temos a responsabilidade neste momento histórico de debatê-la pois o resultado desse debate influenciará o julgamento no SUPREMO TRIBUNAL, dentro de meses, e influenciará o futuro dos afro-brasileiros que viverão COM ou SEM a identidade jurídica racial estatal caso a segregação de direitos raciais seja aprovada para políticas públicas.

 

      Prezados tenho a responsabilidade de ouvi-los nesse debate, pois estou convidado para fazer parte da sustentação oral ´contra´ a segregação de direitos raciais perante o STF e, a despeito da falta de interlocução com o movimento negro, tenho procurado ouvir a voz silenciosa dos afro-brasileiros, e não poderia me furtar a debater com ativistas. Se confirmado, lembrarei aos Nobres Ministros da mais Alta Corte que tal dilema sobre o futuro já foi colocado diante de uma Corte que nada decidiu. Foi em 1.547, na Espanha, perante Tribunal convocado pelo Rei CARLOS I, para apreciar a denúncia de genocídio praticado pelo colonizador espanhol apresentada pelo do Bispo LAS CASAS, o primeiro bispo católico nas Américas, exatamente na simbólica CHIAPAS. Em sua obra: «Brevísima relación de la destrucción de las Indias» documentava e acusava os descobridores da América de crimes, abusos, violências e genocídio. A omissão do Tribunal de CARLOS I, significou o genocídio dos povos americanos em que CHIAPAS e os remanescentes simbolizam a herança perversa que o Tribunal poderia ter impedido. Naqueles tempos, a ameaça era do estado-cristão, hoje nos ameaçando, o estado-racial.

 

      Neste sentido, da nossa responsabilidade histórica e a tua (não é provocação gratuita) na condição de intelectual e editor da principal revista ´racial´ brasileira, é que insisto no apelo ao debate público o mais amplo possível por isso sugiro que você inclua na pauta editorial da revista e aprofunda o questionamento. Nós, afro-descendentes, como povo, queremos políticas públicas raciais e o que a isso nos conduzirá? Mais que uma questão intelectual é uma questão polícia, razão pela qual, não abro mão desse questionamento político que tenho feito.

 

      O que motiva a presente é a contundência da entrevista nas pag.amarelas da ´VEJA´ dessa semana (05.03.2011) com o intelectual e ativista afro-americanos, professor de economia Dr.WALTER WILLIAMS, um black man ´contra´ COTAS RACIAIS nos Brasil e nos EUA em que explica por que as ´Foudacion´s´ patrocinam políticas de  segregação de direitos e diz que tais políticas prejudicaram os afro-americanos: "Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior" afirma o professor.

 

    Afinal, o que ele afirma na entrevista é o que tenho afirmado e tenho ouvido dos afro-brasileiros comuns, os que não estão organizados em interesses de ONGs ou de cargos públicos. É a voz do povo que deve ser ouvida. E a questão não é simples: o que motiva o questionamento das políticas raciais nos EUA em vozes poderosas de intelectuais e ativistas afro-americanos como a de CORNELL WEST, KELVIN GRAY, BARACK OBAMA, SOWELL e WILLIAMS.

 

    Observo quanto a isso, dados que mostram que o pertencimento racial é um desastre para os afro-americanos: 90% dos afro-americanos são mais pobres, portanto, o ambiente racista norte-americano se tornou pior para a maioria dos pretensos beneficiários. É o que revela o niilismo social que os afeta conforme diz OBAMA. Em 2011, com um presidente afro-americano, temos 2,5 milhões de jovens nas cadeias, um número absurdo que representa mais de 6% dos 40 milhões de afro-americanos. Embora sejam apenas 12% da população, representam 65% nas prisões. Dentre a população masculina, chega ao 40% o percentual de jovens de 16-24 sob custódia da justiça, conforme KELVIN GRAY e 70% da gravidez adolescente, somados a 70% de filhos de mães-solteiras. São dados que comprometem inteiramente as futuras gerações afro-americanas, aliás, o que foi dito por OBAMA em seu único discurso específico na campanha presidencial.

 

   A triste realidade dos afro-americanos, com 1% de milionários, cerca de 10% na classe média e 90% de pobres miseráveis, desestruturados e marginalizados é um desastre social sem precedentes na história da civilização humana. É isso que nós desejamos impor aos afro-brasileiros com a estatização da raça e a violação da dignidade humana daqueles a quem o estado impõe o pertencimento a ´raça negra´, aquela ´raça´ que o racismo diz ser a raça inferior?

 

   A propósito disso, costumo citar a única pesquisa exclusiva realizada para colher a opinião pública dos afro-brasileiros e que tem sido boicotada pelo movimento negro, exatamente por refletir a opinião que tenho tornado pública, ou seja, a maioria absoluta de 2/3, 63% de pretos e pardos, recusam as políticas públicas raciais. Relevante que essa pesquisa foi realizada em 2008 no Rio de Janeiro - http://www.ibpsnet.com.br/descr_pesq.php?cd=83 - único estado com leis de cotas raciais desde 2002, portanto, reflete uma situação vivida por nossos irmãos afro-descendentes diretamente afetados pela política de segregação de direitos. Portanto, credenciados para serem ouvidos e respeitados. Lembro que maiorias muito menores, em torno de 53%, elegeram líderes mundiais como LULA, OBAMA e DILMA, com toda a legitimidade, portanto, não é lícito nem razoável que tal maioria qualificada seja desconsiderada pelo próprio ´movimento negro´.

 

   Bem, a despeito do doutor WALTER WILLIAMS ser um radical do liberalismo econômico, que rejeito, pois não se aplicaria bem na realidade sócio-econômica brasileira que exige políticas públicas para alteração do nosso status quo, ele tem a coragem de dizer verdades necessárias. E não se trata de um MILITÃO qualquer, que, embora muitas vezes equivocado, não tem o direito de ser omisso diante da política ruim da raça estatal que interessa a poucos e interessa muito mais às Foudacion´s e sua crença doutrinária do velho racialismo estrutural que as inspiram nos EUA e que continua a violar a dignidade humana dos afro-americanos. http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ

 

Abraços a todos,

São Paulo,08mar2011

José Roberto Militão.

 

 

(págs. amarelas de VEJA, de 06.mar.2011)  

http://veja.abril.com.br/090311/entrevista-mercado-vence-racismo-p-011.shtml

 

 

WALTER WILLIAMS: O MERCADO VENCE O RACISMO

 

O economista diz que as ações afirmativas prejudicam os negros ao reforçar estereótipos de inferioridade e defende a liberdade econômica como arma contra a desigualdade racial.

 

WALTER WILLIAMS é um radical. Na juventude, preferia o incendiário Malcolm X ao pacifista Martin Luther King. Hoje, aos 74 anos, Williams admira os dois líderes negros, repudia a violência e se define como um libertário radical, como os americanos se referem aos que se opõem ao excesso de ativismo do estado e propugnam mais liberdade individual. Fiel ao seu ideário, é contra ações afirmativas e cotas raciais, e diz que o melhor instrumento para vencer a desigualdade racial é o livre mercado: "A economia de mercado é o grande inimigo da discriminação".

 

Criado pela mãe na periferia de Filadélfia, Williams acaba de publicar uma autobiografia em que narra sua trajetória da pobreza à vida de professor universitário (desde 1980, leciona economia na Universidade George Manson, na Virgínia). Com 1,98 metro de altura, voz de barítono, bom humor, ele demonstra muita coragem nesta entrevista.

 

Quem lê sua autobiografia fica com a impressão de que ser negro nos Estados Unidos das décadas de 40 e 50 era melhor do que ser negro hoje.

 

Claro que os negros estão muito melhor agora, mas não em todos os aspectos. Hoje, se os negros americanos fossem uma nação à parte, seriam a 15" mais rica do mundo. Entre os negros americanos, há gente riquíssima, como a apresentadora Oprah Winfrey. Há famosíssimos como o ator Bill Cosby, que, como eu, vem de Filadélfia. Colin Powell, um negro, comandou o Exército mais poderoso do mundo. O presidente dos Estados Unidos é negro.

 

Tudo isso era inimaginável em 1865, quando a escravidão foi abolida. Em um século e meio, fizemos um progresso imenso, ao contrário do que aconteceu no Brasil ou no Caribe, onde também houve escravidão negra. Isso diz muito sobre os negros americanos e sobre os Estados Unidos.

 

Em que aspectos a vida dos negros hoje é pior?

 

Cresci na periferia pobre de Filadélfia entre os anos 40 e 50. Morávamos num conjunto habitacional popular sem grades nas janelas e dormíamos sossegados sem barulho de tiros nas ruas. Sempre tive emprego, desde os 10 anos de idade. Engraxei sapatos, carreguei tacos no clube de golfe, trabalhei em restaurantes, entreguei correspondência nos feriados de Natal. As crianças negras de hoje que vivem na periferia de Filadélfia não têm essas oportunidades de emprego.

 

No meu próximo livro, Raça e Economia, que sai no fim deste mês, mostro que em 1948 o desemprego entre adolescentes negros era de 9,4%. Entre os brancos, 10,4%. Os negros eram mais ativos no mercado de trabalho. Hoje, nos bairros pobres de negros, por causa da criminalidade, boa parte das lojas e dos mercados fechou as portas. Outra mudança dramática é a queda na qualidade da educação oferecida às crianças negras e pobres. Atualmente, nas escolas públicas de Washington, um negro com diploma do ensino médio tem o mesmo nível de proficiência em leitura e matemática que um branco na 7ª série. Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.

 

Na África do Sul do apartheid, os grandes defensores do salário mínimo eram os sindicatos racistas de brancos. Eles diziam que era a melhor forma de evitar a contratação de negros, que, menos qualificados, estavam dispostos a trabalhar por menosO estado de bem-estar social, com toda a variedade de benefícios sociais criados nas últimas décadas, não ajuda a aliviar a situação de pobreza dos negros de hoje?

 

(continua...)http://veja.abril.com.br/090311/entrevista-mercado-vence-racismo-p-011.shtml