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A principal crítica feita às companhias multinacionais é o fato de remeterem lucros aos seus países de origem, sobretudo, em momentos de crise, podendo contribuir ainda mais para a desestabilização da economia local. Simone Saisse Lopes, gerente da Área Internacional do BNDES, explica que a existência e evolução de multinacionais brasileiras contribuem para equilibrar saída e entrada de divisas.

"No auge da crise internacional, em 2009, as multinacionais brasileiras trouxeram recursos de fora", lembrou durante o 7º Fórum de Debates Brasilianas.org - As Multinacionais Brasileiras. Dados apresentados por Simone sobre a entrada e saída de IDE (Investimentos Diretos Estrangeiros), entre1970-2007, mostram que no período o PIB nominal cresceu 15 vezes, as exportações mundiais 42 vezes e os fluxos de exportações de empresas multinacionais, ou seja, o IDE, 150 vezes.

Em 2008, foi registrada a maior participação dos países em desenvolvimento no fluxo de saída de IDE, com 19% do total de investimentos feitos por suas multinacionais no mundo. Além de equilibrar a entrada e saída de recursos num país, os investimentos no exterior ajudam a inserir outras firmas do estado nos mercados internacionais “via efeito de transbordamento”.

Um exemplo é quando uma companhia de grande porte como Petrobras e Odebrecht abrem filiais em outros países e levam, por tabela, empresas de menor porte brasileiras que prestam serviços para elas. Para se ter ideia, mais de 2.870 empresas brasileiras tem contratos com a Odebrecht no exterior, sendo 1.330 fornecedoras de bens (40% são pequenas e médias empresas), e 1.544 prestadoras de serviços (90% pequenas e médias empresas).

Usando pesquisa realizada pelo Jornal Valor, de 2008, Simone explica que as empresas que se arriscam em abrir uma subsidiária no exterior vêem a internacionalização como instrumento para o fortalecimento da competitividade. A concorrência também obriga as empresas nacionais que trabalham com exportação a, naturalmente, expandir-se fisicamente para outros  territórios.

Companhias brasileiras internacionalizadas são obrigadas a dar impulso à inovação e aumentar a produtividade. A porta-voz do BNDES também destacou que existe forte correlação entre a inovação, internacionalização e exportação. "Firmas que investem no exterior são maiores e mais produtivas, e também são mais agressivas em termos de inovação", completa.

No ranking das 100 maiores empresas transnacionais de países em desenvolvimento, China é a primeira, com 38 companhias. Brasil é o segundo colocado com 3 empresas - Vale (12ª), Petrobras (14ª) e Gerdau (28ª). Índia foi classificada com duas grandes companhias e Rússia com nenhuma.

Quanto à crítica de “exportação” de empregos, Simone destaca que depende da estratégia da empresa de se internacionalizar. “Quando a estratégia é de expansão, observa-se, na maioria dos casos, a criação de empregos no país de origem”, conta.

Políticas públicas de apoio

Duas políticas públicas foram importantes para aumentar o grau de internacionalização de empresas brasileiras. A primeira, foi a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), outorgada em 2003, que deu estímulo a criação de um centro de distribuição de empresas brasileiras no exterior.

A segunda, foi a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), lançada em 2008, que, além de visar a integração produtiva com países da América Latina e Caribe, estimulou a internacionalização produtiva de empresas brasileiras, priorizado setores estratégicos: bioetanol, petróleo/gás/petroquímica, mineração, celulose e papel, carnes.

Investimentos à Internacionalização

Até 2002, o BNDES não podia dar apoio a internacionalização de cias brasileiras. Naquele ano foram aprovadas diretrizes de criação de linhas de crédito específicas com mudanças no estatuto da instituição que permitiam apoio a empreendimentos no exterior.

Em 2006 foi formado um grupo de trabalho para discutir a internacionalização e, com isso, linhas restritas e vinculadas à exportação.

“A empresa beneficiada tinha que comprovar o aumento das exportações no mesmo valor do montante beneficiado. Isso acabava restringindo muito o desempenho delas, pois muitas vezes as exportações não são a forma mais clara de aferir importância dos impactos desses investimentos”, destaca Simone.

Em 2007, ouve nova reforma do estatuto do BNDES. A partir das novas diretrizes, a contribuição para o desenvolvimento econômico e social substituiu a obrigatoriedade de incrementar as exportações. Em 2009 o próprio BNDES se internacionaliza, criando uma subsidiária em Londres.

Atualmente, as empresas brasileiras com maior presença de investimentos diretos no exterior são: Petrobras (em 33 países), Vale (32), Camargo Corrêa (26), Odebrecht (22), WEG (20) e AMBEV (17).  

Já os locais com maior número de empresas brasileiras são: Estados Unidos (40 empresas), Argentina (33), Ilhas Cayman (30), Uruguai (25), Reino Unido (22), Chile (22) e Ilhas Virgens Britânicas (20).

Simone conclui que a situação econômico-social do país e os gargalos de desenvolvimento na América Latina, Caribe e África, comprovam que há espaço para aumentar de forma significativa a participação das empresas brasileiras no exterior. Mas arremata que “a internacionalização não pode ser feita de qualquer maneira, de forma errática. Ou seja, exportando sobras de produtos que o mercado interno não absorveu. Conquistar um mercado é difícil, ganhar credibilidade é difícil, assim como perder é muito fácil”.

Para acessar a apresentação de Simone Saisse Lopes, clique aqui.

Saiba mais sobre o que foi discutido no 7º Fórum de debates Brasilianas.org - As Multinacionais Brasileiras:

- Processo de internacionalização deve estar alinhado com governo
- Apex: “Internacionalização amadurece mercado nacional
- SOBEET: Resistência à crise favorece internacionalização na AL

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