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*Artigo escrito para a introdução do livro "Indicadores de Nações - Uma contribuição ao diálogo da Sustentabilidade. Para acessá-lo", clique aqui.

Evoluímos em saltos e estamos no meio de um deles. Um salto enorme, pois marca a transição de séculos (milênios?) em que a centralidade da vida esteve organizada em torno do material, tangível, para uma época em que o intangível desempenha papel cada vez mais central. Este é, também, um momento de crise de recursos, pois terra, ouro, petróleo são finitos, esgotam-se, o que reforça o potencial que os recursos intangíveis oferecem. Conhecimento, cultura e criatividade não apenas não se esgotam, como são os únicos recursos que se renovam e e se multiplicam com o uso. Divido com você uma maçã, temos metade cada. Divido com você meu conhecimento e temos o triplo: o seu, o meu e o que resultou da interação.

Enquanto o tangível/material é finito e limitado, o intangível é elástico, ilimitado, e pode ser o caminho para novos modelos inclusivos, baseados em cooperação. Quando somado às tecnologias digitais (e bits também são infinitos), temos uma pluralidade de opções colaborativas e surge um novo termo: “economia da abundância”, que pode originar modelos mais solidários de viver.

E mais: atividades baseadas em recursos intangíveis são multidimensionais, podendo atuar nas quatro dimensões da sustentabilidade: econômica, social, ambiental e simbólica/cultural. Têm um forte impacto econômico, é certo, mas podem ir além, atuando como fator de interação social, ambientalmente correto e que fortalece os valores, os diferenciais e a credibilidade de comunidades e empresas.

Tudo isso, em teoria, é maravilhoso, representa um potencial que mais parece uma galinha de ovos de ouro. O problema é que, permanecendo presas a modelos do passado, nossas políticas e estruturas resultam em canja de galinha de ovos de ouro.

Ao adotar como parâmetro exclusivamente o econômico, mantemo-nos presos a modelos do passado, e o desafio, agora, é fazer com que as lideranças dos setores público, privado, terceiro setor e empreendedores criativos tenham consciência da mudança de época em que estamos, dos enormes potenciais que ela oferece e da mudança de mentalidade e políticas para aproveitá-los. Um tema central é a necessidade de mudar os indicadores de riqueza e as formas de mensuração e avaliação. Tentar avaliar quantitativamente os recursos intangíveis ou as quatro dimensões que são os pilares da sustentabilidade é como tentar medir litros com régua. Impossível. Não se pode medir de forma linear o que é multidimensional.

A própria economia terá de ser revista, já que uma de suas definições era “gestão dos recursos escassos”. Criatividade e cultura são recursos abundantes, especialmente nos países do hemisfério sul, e representam um enorme patrimônio, que pode provocar uma revisão no conceito de riqueza e pobreza. Recurso é muito mais do que dinheiro e deve, além do econômico, incluir as dimensões cultural, social e ambiental.

A prática mostra que a equação do desenvolvimento sustentável não é apenas econômica. Cada dimensão tem seus próprios capitais: capital humano, capital cultural, capital social, capital ambiental. Isso leva a um intercâmbio de moedas ainda pouco reconhecido e estudado: o investimento feito em moeda-dinheiro, por exemplo, pode ter um retorno em moeda-social; o investimento realizado em moeda-ambiente pode gerar um retorno em moeda-simbólica; e assim por diante. Exemplos como o da música no Pará ou o do audiovisual na Nigéria mostram essa conversão de “moedas”: a chave do sucesso desses modelos está na distribuição, pois quem vende os produtos são os camelôs. Nesse processo, deixa-se de receber a moeda-dinheiro dos direitos autorais, mas se recebe em moeda-visibilidade, que torna os autores conhecidos e desejados, ampliando o mercado, que, por sua vez, gera moeda-inovação constante, e tudo isso cria um processo amplo e dinâmico que, ao final, gera moeda-dinheiro.

Mensurar o intangível é também passar de uma visão exclusivamente quantitativa para uma visão que inclui o qualitativo. O foco em resultados deve ser ampliado para incluir avaliação de impactos: verificar o que mudou, que benefícios foram gerados nas outras dimensões, além da econômica. Avaliar resultados de programas de música na favela, como os do Afroreggea, pelo número de músicos que se profissionalizou é como medir litros com régua. Quanto vale a autoestima de uma comunidade? Quanto valem vidas poupadas? Quanto vale acreditar que há futuro?

Avaliar e medir atividades criativas e culturais requer parâmetros que ainda não foram desenvolvidos. Por exemplo: a economia da dança é pequena, talvez a parca soma de bailarinos, coreógrafos e espetáculos. Mas a economia do “dançar” é grande, pois inclui as festas populares (como o carnaval); a vida noturna; todo o “fitness” com seus respectivos equipamentos, espaços, conteúdos, adereços etc.

Da mesma forma que no âmbito micro, do desenvolvimento local, os projetos e suas formas de avaliação e mensuração deveriam ser multidimesionais e ter “capitais” e “moedas” que correspondessem a essas dimensões, o mesmo acontece no âmbito macro, dos indicadores de riqueza e desenvolvimento que avaliam estados e nações.

Indicadores que de fato mereçam esse nome devem incluir as riquezas e a diversidade natural e cultural; os pilares das relações profissionais e pessoais: ética, autoestima, solidariedade e confiança; e fatores que garantam qualidade de vida num sentido mais amplo, como o proposto pela Felicidade Interna Bruta do Butão.

Estamos saindo de um momento que trouxe muita inovação, em que os vários setores e linguagens tiveram de “economicizar”, para um momento em que a economia necessitará se ampliar e fazer jus ao Eco que carrega no nome, que vem de Oikos (casa, lar), como na Ecologia. Uma nova Economia para a gestão dos recursos abundantes que os recursos intangíveis e a tecnologia oferecem, em um mundo baseado na percepção de nossa interdependência e ,portanto, ciente de que a chave está na cooperação. Uma nova economia Inclusiva, cuja dinâmica venha da relação harmônica entre macroeconomia de escala e a microeconomia de nicho. Uma nova economia que necessitará de novas medidas, moedas e indicadores.

Lala Deheinzelin- Profissional transdisciplinar, assessora, palestrante e empreendedora cultural cujo trabalho visa alimentar futuros desejáveis. Após intensa carreira como artista e um período atendendo corporações, atua em artes e linguagens artísticas na formulação de estratégias e transmissão de conteúdos; e assessoria com foco em economia criativa e desenvolvimento sustentável, trabalhando para governos em âmbito local e para organismos multilaterais em cooperação internacional. Dirige sua empresa, Enthusiasmo Cultural (www.enthusiasmo.com.br). Assessora do Creative Economy for Development Programme da South-South Cooperation Special Unit/UN (http://ssc.undp.org); Diretora de Cooperação Internacional do Instituto Pensarte (www.pensarte.org.br); fundadora do NEF, Núcleo de Estudos do Futuro (www.nef.org.br).

 

Imagem de José Sabino

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