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Ciência e tecnologia estão na base da história de medicina, mas, ironicamente poucos hospitais públicos no país possuem hoje um sistema de tecnologia de informação eficiente para administrar seus recursos. A introdução de ferramentas da tecnologia da informação é compreendida hoje como fundamental para que a rede pública de saúde consiga dar saltos de eficiência, segundo o ex-presidente da ANVISA-Agência Nacional de Vigilância Sanitária e atual superintendente corporativo do Hospital Sírio Libanês, Gonzalo Vecina Neto, que participou do Fórum Brasilianas.org - A indústria de saúde, realizado em São Paulo.

Existem hoje no Brasil apenas três empresas que produzem softwares de gestão para hospitais, a MV, TOTVS e Tasy. Essa última, comprada há três anos pela Philips, foi criada por um pequeno grupo de médicos, em Blumenau, Santa Catarina. A ideia deu tão certo que se tornou produto, adquirido por outros hospitais, incluindo o Sírio Libanês, em São Paulo. Vecina Neto, que também foi um dos entusiastas da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), achou positiva a compra da Tasy por uma multinacional.

Durante sua palestra, o sanitarista apontou que a interação entre atores do setor público e privado e as parcerias com outros países não devem ser demonizadas. O Instituto do Rim e da Hipertensão, por exemplo, localizado no bairro Vila Mariana, em São Paulo, é o maior transplantador de rins do mundo. É uma instituição privada, com mais de dez mil operações realizadas em sua carteira, sendo 80% pelo sistema público e 20% com recursos privados.<--break- />

"Eles criaram uma equação que permite absorver uma tecnologia que está up to date com o que se faz no mundo em termos de transplante renal. Prestam um excelente serviço para o país, com remuneração do SUS”, completou. Segundo Vecina Neto o grande problema do serviço público no país não está ligado à falta de recursos, mas a pouca transparência de como esses recursos, que não são poucos, estão sendo gerenciados.

Hoje a assistência médica supletiva (realizado por instituições privadas) atende a 25% da população recebendo cerca de 107 bilhões de reais. Praticamente metade do total aplicado pelo Ministério da Saúde, estados e municípios na saúde pública (210 bilhões de reais).

O ambiente regulatório e o corporativismo no país também foram apontados como entraves à modernização na saúde. Vecina Neto defendeu a necessidade de uma reforma no sistema CEP/CONEP (Conselho Nacional de Ética e Pesquisa), responsável pela análise e aprovação de pesquisas clínicas no país. O órgão demora cerca de 15 meses para aprovar uma pesquisa, prejudicando inclusive propostas financiadas por empresas estrangeiras.

“Hoje o Brasil tem 2% do total de pesquisas [clínicas] no mundo, financiadas por multinacionais, mercado que será de 1 trilhão de dólares em 2020”. O sanitarista lembrou, ainda, que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) demora até 12 anos para aprovar um pedido de patente, enquanto nos Estados Unidos o tempo médio é três anos.

E a contrapartida do setor privado?

Vecina Neto destacou que praticamente todos os equipamentos do hospital Sírio Libanês são importados, do carrinho de alimentação as máquinas de alta complexidade responsáveis pelos diagnósticos. Para mudar esse cenário a instituição está em vias de lançar o Laboratório de Usabilidade, desenvolvido a partir de convênios com outras indústrias.

“O produto nacional tem alguns probleminhas notáveis ao tipo de atendimento para o padrão de clientes que eu tenho. Então pensamos em um laboratório para, a partir de convênios, desenvolver inovações incrementais de produtos da indústria e equipamentos médicos no Brasil. Esse caminho é importante, vai ajudar na redução de importações, desenvolver nossas capacidades locais”, defendeu.

Cortar caminho é a melhor maneira para a indústria de equipamentos médicos superar seu déficit na balança comercial. Foi assim na indústria de medicamentos do país, graças à aprovação da Lei dos Genéricos, em 1999, lembrou Vecina Neto. Segundo o sanitarista, a criação da lei sofreu várias pressões não apenas de apresas multinacionais preocupadas com a quebra de patentes, mas também da indústria nacional.

“Eu tive [na época] que assinar, escrever de próprio punho, aos senadores Iris Rezende e Ney Maranhão um documento me comprometendo que não iria prejudicar a indústria nacional, para que eles votassem pela aprovação da Lei [dos Genéricos] e liberassem as bancadas para a votação”, contou.

A grande preocupação das empresas nacionais era de não conseguir dar conta da produção de genéricos, que exige conhecimento profundo de estrutura molecular para fazer bioequivalência. Mas, essa barreira foi superada e, o resultado final trouxe benefícios não apenas para os pacientes, mas também para a indústria local. “Esse passo [da aprovação da Lei dos Genéricos], foi um passo importante para criar centros de estudo de bioequivalência no país”, ressaltou Vecina Neto.

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