A democracia, a liberdade de expressão e as vozes tacanhas

Por JR

Do Blog do Sakamoto

Veja alguns comentários reacionários sobre moradia em São Paulo

Publiquei, nesta terça, um texto sobre os incêndios em favelas de São Paulo e a especulação imobiliária que corre desvairada na pauliceia. Como sempre, ao tratar do tema da moradia, este espaço foi invadido por carinhosos comentários reacionários. Cortei fora os que ofendiam progenitoras ou mandavam recadinhos estranhos sobre a integridade física e fiz uma breve seleção, que posto abaixo. Mas, antes, algumas ponderações sobre aquilo que deveria ser direito, mas é visto como privilégio.

Até uma ramster em estado catatônico sabe que boa parte da classe média paulistana tende a ser bastante retrógrada – já tratei deste assunto aqui uma miríade de vezes nos últimos anos. Boa parte dos trabalhadores que entraram na linha do consumo, há poucos anos, adota com facilidade o discurso conservador. Conquistaram algo com muito suor e têm medo de perder o pouco que têm, o que é justo e compreensível. Mas isso tem consequências. Em posts sobre déficits qualitativos e quantitativos de moradia, por exemplo, quem tem pouco adota por vezes um discurso violento, que seria esperado dos grandes proprietários e não de trabalhadores. Afirmam que, se eles trabalharam duro e chegaram onde chegaram sozinhos, é injusto sem-teto, sem-terra ou indígenas consigam algo de “mão-beijada” por parte do Estado. Ignoram que o que é defendido por esses excluídos é apenas a efetivação de seus direitos fundamentais: ou a terra que historicamente lhes pertenceu ou a garantia de que a qualidade de vida seja mais importante do que a especulação imobiliária rural ou urbana.

Nesse contexto, a internet recebeu a disputa de discursos que vinha sendo travada em outras instâncias. Não, a rede não é conservadora ou progressista em si, mas sim uma plataforma de construção e reconstrução da realidade. Meu receio, portanto, é optarmos por caminhos superficiais de debate – que são uma opção da internet – e não nos aprofundarmos no reconhecimento do “outro” como detentor dos mesmos direitos que nós – o que é fundamental para a busca de soluções coletivas aos problemas da cidade, por exemplo. O pior é que a temática dos “direitos humanos” funciona como uma espécie de imã, atraindo todo o tipo de lugares-comuns, ódios e demais faltas de entendimento decorrentes de um debate incompleto e insuficiente travado na rede.

Quando o tema é a dura barra enfrentada pela gente parda, fedida, drogada, favelada e prostituída que habita a pujante São Paulo – locomotiva da nação, vitrine do país, que não segue, mas é seguida e demais bobagens que floreiam discursos ufanistas patéticos caindo de velhos – pululam declarações bisonhas. É só falar da necessidade de políticas específicas que garantam qualidade de vida para esse pessoal mas, ao mesmo tempo, respeitem seu direito de ir e vir e ocupar o espaço público, que reacionários brotam.

Detesto o verbo “revitalizar”. Ele tem sido usado para justificar grandes atrocidades, como se a vitalidade de um lugar fosse medida pela ausência de gente pobre. Revitalizar têm sido construir museus, praças, escritórios e mandar o lixo humano para longe. Melhor tirar da vista do que aceitar que, se há pessoas que querem ocupar espaços que não estão cumprindo sua função social, elas têm direito a isso, como prevê a Constituição Federal.

Por isso, gostaria de resignificar o uso de “revitalizar”. Que tal revitalizarmos nossas ideias, deixando de lado o medo e o preconceito, para que São Paulo não seja um grande “cada um por si e Deus por todos”?

Separei alguns comentários dos leitores para embasar meu argumento. Boa leitura.

- E se toda favela incendiada recebesse habitação popular? Ficaria fácil e comodo para eles construirem outras… casa facil e eu aqui ralando que nem um louco para ter a minha…

- Aí Sakamoto, um dia desses eles vão entrar com metralhadora na sua casa. Vão jogar álcool em vc e dizer que colocarão fogo! Depois te roubam tudo, levam seu carro e a policia encontra na favela que pegou fogo! Depois de um mes te assaltam na Riberto Marinho e levam teu religio ali mesmo, naquela favela. Sabe o que? Tem que limpar mesmo……

- Eles roubam de noite e passam a tarde ali no boteco da favela tomando cerveja. Acordem!!!!!!

- Caro articulista! Ou você é ingênuo ou muito burro! Você já pensou que podem ser os próprios moradores que colocam fogo na favela? Você já se perguntou por que, em uma desgraça destas, ninguém, felizmente, sai ferido? Vá se informar antes de ficar fazendo firula com a desgraça de alguns…

- Seu comentário foi o melhor que li até aqui, apoiar favela é fácil levar um favelado pra casa ninguém quer

- Eu me mato para pagar um IPTU de 1.200,00 reais anualmente. Além de luz, telefone, TV a cabo, funcionários etc e etc… Qual desses “desvalidos” paga o que eu pago? E eles tem “tudo mais” que eu tenho. Casa de graça, Luz (Miau), TV (Miau), Metrô perto de casa, shopping etc etc e ainda quando aparecem “flagelados” ganham casa do governo e bolsa isso, bolsa aquilo, seguro desemprego, seguro “cadeia” etc… Quem é mais prejudicado no Brasil populista? EU ou eles??????????????

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21 comentários
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Nilva de Souza

Classe média do Lula não vota no PT

Como Kassab ultrapassou Marta em São Paulo Uma reveladora experiência de rua no domingo da eleição na maior cidade do País Mauro Carrara

 Conforme costume antigo, costumo visitar velhos amigos em dias de eleição. Perambulo pela cidade à procura do "espírito" da eleição, pois, sim, cada uma tem o seu, das barbadas aos prélios mais renhidos.

 Desde cedo, notei certa tendência de defecção nos redutos "progressistas". Havia nos fundos do Tucuruvi um jovem negro, em trajes de grife surfe, distribuindo discretamente santinhos de Kassab. Vejam bem, ele não fazia campanha para um candidato à vereança, mas para o majoritário. Só.

 

O rapaz é estudante do terceiro ano do segundo grau, comprou recentemente seu primeiro computador, a crédito. O pai é vigia (conseguiu carteira assinada há três anos) e a mãe é diarista. Ele atualmente não trabalha regularmente. Nos fins de semana, atua como assistente de som em bailes na região dos Jardins. É o típico emergente da nova classe C.

 João (vamos chamá-lo assim) afirma que o governo Lula "acostuma mal os vagabundos" com o Bolsa Família. A mãe sempre votou em Marta, mas o pai costuma odiar qualquer petista. "Meu velho não quer saber do casamento gay em São Paulo, nem eu", sentencia, alisando a sobrancelha. 

 Mais tarde, encontro-me na região do Jardim Aricanduva, na Zona Leste. Márcia (vamos chamá-la assim) come uma coxinha num bar próximo a uma escola estadual. Vai votar em seguida.

 Tem uma colinha de Kassab (DEM) e de um candidato a vereador do PSDB.

 - Vai votar em quem?

 - Dessa vez é no Kassab – revela a moça, que graças ao crescimento da renda familiar (ela e dois irmão conseguiram emprego nos últimos três anos) pôde matricular-se numa faculdade privada.

 - Por que nele?

 - É o menos pior...

 - E pra vereador?

 - Voto é segredo. Mas vai ser no PSDB. Um amigo da faculdade me indicou. É um cara que escreveu vários livros de auto-ajuda.

 - É o Chalita (ex-secretário estadual de educação)?

 - A gente precisa de pessoas cultas na Câmara. Esse aí é o melhor escritor do Brasil.

 - O que você já leu dele?

 - Ainda não li, porque não tenho tempo. Mas esse meu amigo diz que é muito bom.

 - A Marta era mais forte por aqui, não era?

 - Era, mas ela fez o apagão aéreo e mandou o povo gozar depois do estupro. Tem como uma pessoa passar uma hora, uma hora e meia, esperando o avião?

 - Como? - O povo ficar horas esperando o avião...

 - É chato mesmo – respondo. – Mas você já viajou de avião? – indago.

 - Nunca. O mais longe que fui na vida foi para Mongaguá (litoral sul).

 - Entendo. E o trânsito em São Paulo?

 - Péssimo. Entre metrô e ônibus, fico umas 4 horas e meia no transporte, todo dia. Não anda.

 - E de quem é a culpa?

 - Sei lá... Tem muito carro na rua. Precisava fazer alguma coisa.

 - E você não acha que o Kassab tem alguma responsabilidade nisso?

 - (silêncio)... Não sei. Não parei para pensar.

 - Isso afeta sua vida, não?

 - Muito, mas a gente tem que lidar com isso...

 Quase cinco da tarde, na região dos Jardins. O filho de um amigo chega da votação com três colegas. O rapaz é o único que votou em Marta Suplicy. Dos colegas, dois preferiram Kassab. O outro votou em Geraldo Alckmin.

 - Na verdade, eu e toda minha família somos malufistas, mas o Kassab é o único que pode ganhar dessa "vaca" da Martaxa – diz Paulo (vamos chamá-lo assim), exaltado.

 - Sim, as taxas devem ter prejudicado muito sua família... – pondero.

 - Meu pai fez a empresa dele sem ajuda de ninguém. A gente ta cansado de pagar os impostos que o PT inventou. Cada dia tem um imposto novo.

 - Que imposto novo?

 

- Vários.  - Mas quais? - Vários. Tudo para sustentar vagabundo nordestino. E olha que eu não sou nem um pouco racista. Tenho até amigo japonês, negro, de todo tipo. Mas com esse negócio de bolsa, o cara se acostuma a não trabalhar e fica tomando cachaça o dia inteiro. É preciso ensinar o cidadão a pescar, e não dar o peixe.

 - Mas o Bolsa Família está integrado a vários projetos de promoção e inclusão. Tem a contrapartida educativa... – tento argumentar, quando sou interrompido.

 - Tem nada. Isso aí é coisa da mídia que o Lula comprou.

 - Mas a mídia costuma ser contra o presidente – afirmo.

 - Nada disso. O senhor viaja muito, pelo que eu sei, não é? Aqui, eles inventam pesquisa para dizer que a vida do povão melhorou. Melhorou nada.

 - Mas e os dados do Ipea, do IBGE?

 - Eu estudo Administração. Isso é tudo mentira.

 - Quer dizer que o país não melhorou em nada?

 - Esse semi-analfabeto deu sorte. Aproveitou o Plano Real e o crescimento da China... Agora, quero ver. Estou só esperando para ver o que vai acontecer. E vou dar risada.

 - Mas o país não estava muito bem em 2.002 – intervenho.

 - O PT é o "partidão", não é?

 - Não que eu saiba – respondo.

 - É sim... Eu abri os olhos de muito colega sobre esse comunismo disfarçado aí... Nessa eleição, eu convenci muito petista a votar no Kassab.

 - Quem?

 - O nosso motorista, o jardineiro que vai lá em casa...

 Já são 18h20... Alguém grita do interior da casa: "o Kassab está ganhando". Os três jovens urram de prazer. Está se iniciando a longa noite até o segundo turno.

http://br.groups.yahoo.com/group/sem-midia/message/3899

 
 
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maria olimpia

Ótimo artigo do Sakamoto, como sempre.

Não aprendemos ainda o significado de "cidadania", infelizmente.Muitos se esqueceram dos valores reais que nos tornam "pessoas". O individualismo impera, o ritmo de vida virou desculpa para tudo:falta de gentileza,de solidariedade,de compaixão....O "ter" antes do "ser" é um retrocesso humano, pois, "ser" e "ter" é possível quando se tem as oportunidades como nunca se teve no nosso País.

 

Maria Olimpia

 
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Marcos Doniseti

Paulistano repete "voto de classe" em PSDB e

PT- da Folha de S.Paulo, 21 de Junho de 2010

DE SÃO PAULO

A análise das últimas três eleições presidenciais na capital paulista revela uma cidade dividida geograficamente entre PT e PSDB.
Organizados por zona eleitoral, os resultados de 1998, 2002 e 2006 mostram que o paulistano tem repetido o mesmo padrão ao escolher seu candidato ao Planalto.

Os tucanos, que comandam o Estado há 16 anos, obtêm suas melhores votações na área central. É onde mora a população com maior nível de renda e escolaridade.

Já os petistas têm vantagem na periferia, alcançando seus melhores índices em bairros carentes das zonas leste e sul da cidade.

"Os resultados mostram que as áreas de maior renda votam sistematicamente com o PSDB. São o ninho tucano por excelência", diz o professor Cesar Romero.

"Além de reunirem o eleitorado mais popular, os redutos petistas mais fiéis estão próximos aos municípios do ABC, onde o partido foi fundado", acrescenta.

A adesão das áreas mais abastadas aos tucanos se repete com os candidatos Fernando Henrique Cardoso (1998), José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006).

Todos tiveram suas maiores votações nas zonas eleitorais de Pinheiros, Jardim Paulista e Perdizes.

Há quatro anos, Alckmin oscilou entre 70% e 80% dos votos nesses bairros. Em parte da periferia, não superou o patamar de 30%.

O presidente Lula, que disputou as três eleições pelo PT, também teve votações geograficamente parecidas. Ele só venceu na capital paulista em 2002, quando conquistou o primeiro mandato.

 

Link:

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2106201003.htm

 

Marcos Doniseti

 
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Antonio Nonato

Triste.

Sem mais.

 
 
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Marcos Doniseti

Em nome da defesa da Democracia e das Liberdades, permitiram que Hitler fizesse o que bem entendesse.

 

Deu no que deu...

 

Marcos Doniseti

 
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JB Costa

Tentar analisar e traduzir o que passa na mente dessa gente que se acha "diferenciada" requer menos psicologia, sociologia e antropologia e mais teratologia. Estamos falando mesmo é de verdadeiros monstros, cujas deformidades psíquicas se agravam à medida que migram na pirâmide social, fruto não só de conjunturas mas, sobretudo, de um atavismo social.

Na década de setenta tinha um parente que de humilde agricultor passou a ser "industrial"(assim ele se auto-entitulava) através do trabalho duro que lhe deu condição de formar um poupança e "montar" uma padaria. Como colaboradores possuia quatro empregados. Nenhum com carteira assinada. Um foi colocado no olho da rua, após um recheado "carão", porque ousara tal "regalia".

Tal "empreendedor" , um homem íntegro até dizer chega, a seu modo e a seu jeito encarnara, mesmo sem nunca ter nem ouvido falar, o "espírito capitalista" e a "essência do liberalismo", qual seja, somos capazes de gerir nossos destinos, ou seja, sermos vencedores ou perdedores é uma questão de "escolha", não de um meio ou por injunções de um coletivo.

 
 
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Elvys Pina

Realmente é impressionante os comentários que se lê na internet e outros meios de comunicação, ou mesmo, você acaba escutando vez ou outra nas ruas. As pessoas meio que acabam esquecendo ou tendo vergonha de sua origem humilde. Acredito que isso se origina em uma formação educacional formal muito deficiente, que piora a cada geração, aliado com outros fatores, principalmente a forma como nossa mídia apresenta movimentos e questões sociais. No final, o que vemos são pessoas, algumas humildes, com o mesmo discurso do grande proprietário, o que chega à ser cômico, se não fosse trágico. É interessante como a população não faz uma pausa para refletir sobre as ações de movimentos para moradias por exemplo, onde esses movimentos ocupam somente grandes imóveis e não uma casa simples. As pessoas não refletem sobre esse (grande) detalhe, assim o MST, que também ocupa grandes propriedades e não pequenos sítios ou chacaras de finais de semana.

 
 
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diogojfaraujo

Cara, tem que dar chute na boca do cara que fez o último comentário... Já que ele deve pagar seguro odontológico, não será um grande problema...

Outra, o blogueiro recebe ameaças? Deveria divulgar o IP de quem faz... Aí quero ver ser macho...

 

ANTIFA!

 
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Antonio C.

MP pede informações ao Poder Público sobre incêndio em favela de São Paulo

Fonte:http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/57628/mp+pede+informacoes+ao+poder+publico+sobre+incendio+em+favela+de+sao+paulo.shtml

07/09/2012 - 09h15

O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) pediu esclarecimentos ao Poder Público sobre os incêndios que ocorreram na última segunda-feira (3/9) na comunidade do Jardim Sônia Ribeiro, conhecida como Favela do Piolho, na Zona Sul de São Paulo. Entre as informações solicitadas, a promotoria quer saber quais as providências tomadas pela Prefeitura e a origem do terreno ocupado pela comunidade, se público ou privado.

O autor dos pedidos é o promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo, José Carlos de Freitas, responsável pelo inquérito civil do MP-SP que apura as causas do incêndio.

Em ofício encaminhado à Prefeitura, o promotor solicita informações sobre quais as providências que foram e que serão tomadas pelo município em relação às 285 famílias que residiam no local — tanto sob o enfoque habitacional (alojamento e pagamentos) quanto assistencial (saúde e educação).

O promotor ainda quer saber quais os programas habitacionais previstos para contemplar a comunidade, que está inserida no perímetro urbano da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada. Além de enviar o cadastro de moradores, a Prefeitura também terá que informar se área ocupada pelos moradores faz parte de alguma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social).

Ao longo inquérito, o MP-SP procura saber qual o valor destinado para a produção de habitações à população de baixa renda residente no local; se o terreno ocupado é público ou privado; se o terreno foi destinado em programa, plano ou projeto para abrigar alguma obra de urbanização; e se o Poder Público pretende dar solução habitacional definitiva a essa comunidade.

A promotoria pede que a Prefeitura envie quais os valores arrecadados na operação urbana, com a venda de Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), e quanto foi aplicado para a produção das habitações populares na área da operação, bem como o grau de envolvimento do Conselho Gestor a respeito do tema.

O promotor solicita ainda que o município indique três representantes para uma reunião ainda no mês de setembro a respeito do tema com a promotoria.

Governo do estado

Ao Governo do estado, o MP-SP pede que seja explicadas quais as políticas públicas assistenciais e habitacionais que pretendem ser aplicadas, a respeito da situação das famílias vitimadas pelo incêndio.

A área atingida pelo fogo situa-se no perímetro da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, em cujo corredor o Governo de São Paulo pretende construir, em parceria com a Prefeitura, o modal ferroviário do monotrilho.

 

 
 
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Gunter Zibell - SP

Já nos anos 1990 Flávio Pierucci explicou muito bem em "Ciladas da Diferença" (há uns anos relançado pela Editora 34) como se dá essa gênese de pensamento neoconservador na classe média baixa, que faz com que S.P. vote em massa no malufismo. 

Eu suspeito que isso possa ter um pouco a ver com a mudança no mercado de trabalho. Passou-se do emprego industrial onde havia uma certa conscientização de questões de classe através dos sindicatos para uma multiplicidade de empregos no setor de serviços, muitos como "autônomos".

Os que menos têm muitas vezes podem ser os mais preconceituosos, por mais atemorizados. São os que têm mais a perder se alguma mudança der errado. Ficam mais facilmente alvo de manipulações e isso é igual em S.P. a todo o mundo. A internet apenas recebeu o fluxo de discussões que antes acontecia em outros lugares, não mudou qualitativamente os agentes.

Virou lugar comum falar do "conservadorismo" da classe média (e média alta) paulistana. Mas por acaso as pessoas não lembram que foi nos bairros centrais (hoje "antipetistas" segundo a mídia) que o PT conseguiu a votação para seus primeiros deputados e vereadores? Que no segmento acima de 2 S.M. Lula ganhou de Collor em 1989? Que houve depois uma negociação de apoio cruzado? (Marta apoiando Covas em 1998 e este a ela em 2000)

As pessoas ficam presas a discursos generalistas, como esses de que "é tudo conservador", "o PIG manipula tudo" e deixam passar detalhes importantes. Citarei dois.

É na classe média que surge o fenômeno da (preconceituosamente apelidada) "esquerda festiva" ou "purista". É tratada assim por não mais servir a interesses políticos. E também por ser muito pequena em número. Mas pelo menos é um subgrupo de pessoas com (em geral) formação superior e maior conhecimento de estruturas sociais que a classe média baixa emergente. Não por acaso, quando aparecem pesquisas eleitorais com detalhes, vê-se, por exemplo, que é nos segmentos "ensino superior" ou "renda acima de 5 sm" que o PSoL consegue quase milagrosos 3% de preferência, ante traço ou enos que 1% nas demais faixas. É nesses estratos que Marina Silva chegou a liderar. É onde Soninha Francine alcançou picos de 15% (simultaneamente a 5% no todo.)

Um outro detalhe. De fato as faixas superiores de renda em S.P. tem o hábito de ler mídia impressa. Daí a pensar que acreditam em toda e qualquer bobagem publicada há muita especulação. A votação de Dilma no Estado (que é um dos mais "classe média" do país) não diferiu em nada da que Lula teve em 2006. Já no Nordeste é que houve grande queda. Quando se passou dos 61% de Lula para os 56% de Dilma toda a perda eleitoral se deu nos segmentos/regiões/grupos mais pobres. isso passou despercebido porque, infelizmente, sempre tem algum imbecil disposto a fazer tuitagens xenófobas na internet, mas quem mais acreditou nos estratagemas de associar Dilma a assassina de criancinhas certamente não foi a classe média mais escolarizada.

Parecido com S.P. também é o Rio. Surge aqui e ali uma indisposição com o fato de que Gabeira quase ganhou em 2008. Surge alguma indisposição com os 10 a 12% de Freixo, e com sua votação ser em bairros da Zona Sul, como se fossem votos "não válidos" por não seguirem uma determinada orientação.

A sociedade brasileira é complexa, principalmente em suas grandes metrópoles. Se desejamos comprender os preconceitos, suas motivações e consequências (inclusive eleitorais) precisamos ter a disposição de enxergar as coisas por mais ângulos e visões. Com maior desprendimento.

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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Marcos Doniseti

Discordo, Gunter!

 

Nas eleições realizadas na capital paulista (não importa se é para prefeito, governador ou presidente da República) o PT sempre consegue, pelo menos, uns 60% dos votos válidos nos bairros mais periféricos e mais carentes (em regiões como Cidade Tiradentes e Guaianazes chega perto de 70%). 

 

Enquanto isso, nos bairros de classe média-alta, e até em bairros de classe média-média ou da 'remediada' (como a Vila Formosa ou a Vila Carrão) , o PSDB e os candidatos de partidos conservadores chegam a ultrapassar os 80% dos votos válidos.

 

As classes médias, e talvez justamente em função delas ter maior acesso à educação, informação, livros, etc, sempre gerou a maioria dos intelectuais orgânicos, sejam de Esquerda ou de Direita.

 

Portanto, não é nada surpreendente que o PSOL e a HH consigam grande parte dos seus votos entre as camadas médias-alta em percentual maior do que os que obtém entre as classes média-baixa ou entre os mais pobres. Seu eleitorado é muito mais intelectualizado do que a média ou a imensa maioria da população.

 

Mas, tais grupos 'esquerdistas' intelectualizados (formando, em grande parte, por intelectuais, estudantes, artistas,) são minoritários dentro das classes médias-alta, onde o conservadorismo, inegavelmente, predomina.

 

Qualquer dúvida, sugiro que veja essa excelente gráfico que mostra a divisão da votação na capital paulista na eleição presidencial de 2010. Entre outras coisas, ele mostra o seguinte:

 

1) São Mateus - Dilma 65,2%; Serra 34,8%;

2) Parelheiros 75,3%; Serra 24,7%;

3) Butantã - Dilma  31,8%; Serra 68,2%;

4) Perdizes Dilma 26,5%; Serra 73,5%.

 

Link:

 

http://www.estadao.com.br/especiais/o-2-turno-na-capital-paulista-zona-a...

 

Marcos Doniseti

 
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Gunter Zibell - SP

Esse é o quadro para os últimos anos, para o período 2004-2010.

Mas lá para trás, em 1988 e 2000, houve maior votação (que hoje) para o PT nos bairros centrais. Marta teve quase 60% em 2000, não conseguiria isso sem votação em bairros centrais. Muitos amigos meus até hoje tucanos votaram nela então. Ela representava o "novo".

E este ano pode haver menor votação nos bairros periféricos.

A votação do PT no município de SP é declinante desde 2000 nas eleições municipais, apesar da grande exposição dos méritos do governo Lula. Por que imaginar que não haverá uma nova redução?

É necessário buscar algum gancho, como em 2000, para que parte do grupo com maior renda deixe Russomano e apoie Haddad. 

Senão, o resultado desta eleição não deve ver modificações em relação ao visto hoje em pesquisas.

 

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Juliano Santos

Concordo com sua análise. Alias tive a opurtunidade de verificar isso in loco. Estive visitando um amigo em Sampa logo depois das eleições.

Ele mora em Pinheiros, e conforme fomos caminhando em direção à regiões mais modestas, ele foi me mostrando como as bandeiras do Serra sumiam e começavam a dominar as da Dilma. Foi didático mesmo. Luta de classe

 

Juliano Santos

 
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Evaldo Roque Tartas

Enquanto dermos valor ao "ter" e e endeusarmos do "$"  a tendência é ir esquecendo do "ser", do homem e do humano. Infelizmente as coisas tendem a piorar pois o deus  "$" está se apoderando das mentes humanas em detrimento dos valores humanos. Há pessoas que se dizem cristãs, mas seu verdadeiro deus é o carrão, a mansão, o emprego, a empresa, A CONTA BANCÁRIA. Esses reacionários precisam descobrir que eles são tão humanos quanto os favelados e sem terra e por isso tem todos os mesmos direitos. Alguns subiram na vida por "méritos" própios nem sempre honestos e depois querem privar os demais dos direitos que eles julgam ser só seus....

 
 
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rita scaramuzzi

os moradores pobres de são paulo são vitimas da incapacidade dos gestores publicos em planejar o crescimento da cidade... são vitimas da incapacidde de planejar crescimento economico juntamente com o  social.uma cidade da grande são paulo chamada mauá, era o paraiso dos paraisos. uma cidade localizada no caminho da serra do mar, cercada de montanhas. há mais de 60 anos  a maioria de seus habitantes eram imigrantes principalmente alemaes e japoneses. os moradores japoneses construiram um jardim ao estillo japones bem no centro da cidade. era lindo. lagos artificiais cheios de carpas..  um clima ameno na maior parte do ano e as montanhas rodeadas de arvores e flores. muita mina de agua a cidade tinha. ai numa cidade vizinha, capuava, o governo federal escolheu para instalar uma refinaria de derivados de petróleo. e as montanhas com flores deram lugar as favelas. toda a área proxima a construção da refinaria foi considerada de segurança nacional. ninguém chegava proximo a não ser quem tinha autorização para isso. na época vieram tecnicos e engenheiros do mundo todo para a sua construção. quando a refinaria estava pronta, começaram os testes para entrar em funcionamento. dizem que muita gente morreu ali.  e muitas familias perderam vidros das janelas e copos  e pratos por causa disso...

 
 
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Bran Mak Morn

Gente boçal existe defendendo de forma boçal qualquer tipo de idéia ou causa, mas entendo que o Sakamoto queira empurrar a brasa para torrar a sardinha conservadora. Afinal, ele quer vender o seu proprio peixe dizendo que o de quem pensa diferente dele é podre. Isso é intelectualmente desonesto, mas normal. Ora, tem todo direito de reclamar desse estado de coisas, ainda mais numa democracia, o cidadão de classe média, que praticamente vive para pagar impostos sem receber quase nada do Estado enquanto apanha retoricamente de politicos demagogos da esquerda à direita. Politicos que levam a gloria justamente usando os impostos daqueles distribuindo migalhas aos assim chamados excludios.

 
 
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Juliano Santos

Vem cá, você não sabe a diferença entre reclamar democráticamente*, e achar que "os barracos fétidos dessa gente, vagabunda, drogada e ladra tem mais é que pegar fogo, e o governo deve cagar e andar"?

Você já foi apresentado a uma coisa chamada facismo?

*geralmente de pagar imposto, que é unica coisa que a classe média e alta sabe fazer

 

Juliano Santos

 
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Alessandro Simas

 

Tem direito de reclamar sim. Só não tem direito de ser burra por opção.

Por que a classe média não reclama dos ilimitados direitos das elites, da sua poderosa rede de proteção e influência? Não, ela dirige o seu olhar tacanho apenas para o povão. Eu acho isto incrível!

Já  que o risco para a classe média é a descida à classe baixa, o lógico seria defender a ampliação dos direitos sociais de TODOS,  para que não haja a possibilidade de se viver como pária, na hora do aperto. Mas, não. A idiotice, a baixa civilidade a impele a abraçar as teses conservadores da elite, que está se lixando para esta classe social.

 

 

 

 

 

 
 
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Gunter Zibell - SP

Eu acho um pouco precipitado avaliar Sakamoto assim. Não li mais que meia dúzia de artigos dele, mas todos me pareceram sérios e bem articulados. Ele tem excelente formação em ciências sociais e não reproduz discursos únicos ou fáceis. Gosto muito.

Nesse daí ele apenas relata que o pensamento real das classes médias ascendentes não justifica alguns estereótipos:

"Boa parte dos trabalhadores que entraram na linha do consumo, há poucos anos, adota com facilidade o discurso conservador... quem tem pouco adota por vezes um discurso violento"

Ele está alertando, em outras palavras, que as visões do que é "conservador" e "consciência de classe", variam muito e que muitas vezes (quando não é na maioria das vezes) não acompanham o que ideólogos e comunicadores gostariam.

É muito interessante para o momento, pois trata indiretamente da dificuldade que o PT tem para crescer em S.P. capital simultaneamente com a prevalência de um pensamento que favorece eleitoralmente Russomano.

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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Ed Döer

No fundo, parte da sociedade já pensa como consumidor e não cidadão. Um dos comentários ali cita TV à cabo, quando é algo totalmente opcional. Tem e paga quem quer. Não dá para misturar com coisas básicas como água e luz.

E com uma sociedade pensando como consumidor, me parece natural eleger um prefeito que ao longo dos anos construiu a imagem de defensor deles.

 
 
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luka

E o povo ainda é criativo. Criam uma historinha cheia de detalhes que parecem roteiro de cinema B. Os imagino atrás da porta em casa a espera da invasão dos pobres em suas casas, com olhos arregalados, arma na mão e toque de recolherpra família. 

O que acho interessante é que as pessoas se matam para pagar contas e  por vezes não percebem que elas devem fazer escolhas do que podem ou não sustentar. Perceba que o discurso é de inveja e não sobre direitos.

 

 
 

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