Os menores da Cracolândia

Por ademar prado jr

Nassif, olha o absurdo da retaliação que está sendo feita: Mariana Oliveira

Do G1

Psiquiatra afirma sofrer pressão para internar menores da Cracolândia

Médico que coordenou Caps do Centro de SP disse ter sido afastado. Secretaria não comenta; para MP, laudo médico precisa ser respeitado. Uma queda de braço entre a direção de uma unidade de tratamento psicossocial de menores no Centro de São Paulo e a Prefeitura resultou na saída do diretor do local, o psiquiatra Raul Gorayeb. Em entrevista ao G1, o médico afirma que sua equipe sofria pressão por parte da prefeitura para internar os menores usuários de drogas recolhidos na Cracolândia – região do Centro marcada pelo tráfico e consumo escancarado de drogas -, mesmo quando o laudo médico concluía que eles não precisavam de internação. A Secretaria Municipal de Saúde não quis comentar as afirmações. O médico coordenava os trabalhos do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infantil da Sé. Ele afirma que seria irresponsabilidade internar sem critérios. "A gente tem responsabilidade. A gente ficou três meses avaliando crianças e nenhuma delas tinha indicação de internação. Eram pegos usando crack, fumando maconha, cheirando cola. Isso não é certo, mas não quer dizer que eu tenha o direito de trancá-la num hospital psiquiátrico." A legislação brasileira determina que a internação para os pacientes psiquiátricos precisa de laudo médico que comprove sua necessidade. Há três tipos de internação: a voluntária, com consentimento do paciente; a involuntária, no caso de menores de idade ou pacientes em crise; e a compulsória, quando a Justiça determina a internação. No caso de internação involuntária, o hospital deve comunicar o Ministério Público estadual em até 72 horas.

Para o psiquiatra, a prefeitura tinha intenção de "limpar" o Centro da cidade e acabava deixando o problema para os médicos do Caps. "A gente estava fazendo o trabalho no Caps Infantil, e dá trabalho montar uma equipe para trabalhar bem, quando começou a operação que hoje eles chamam de Centro Legal e eu chamo de ‘varrição do entulho social’. Eles imaginam que varrendo uma coisa feia do centro, vão ganhar dividendos perante a população. E começaram a fazer isso de forma truculenta e inadequada", afirmou o médico. Gorayeb ficou à frente do Caps Infantil por um ano e um mês, desde a inauguração da unidade em fevereiro de 2009 até o mês passado. Ele disse ter sido afastado das funções por não concordar com as determinações da Coordenadoria Regional de Saúde da Sé, órgão da Secretaria Municipal de Saúde que orienta os equipamentos da região sobre as políticas estabelecidas pela prefeitura. Assim como em vários órgãos de saúde na cidade de São Paulo, o Caps Infantil do Centro é administrado pela Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) em convênio com a Prefeitura. A SPDM, por sua vez, é ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), de onde seleciona os profissionais que gerenciam os equipamentos de saúde. O psiquiatra Raul Gorayeb é professor da Unifesp. Além de Gorayeb, a reportagem também conversou com a psiquiatra Ana Cecília Marques, também da Unifesp, que coordenou o Caps Álcool e Drogas (AD) 24 horas da Sé, que fica no mesmo prédio do Caps Infantil. Ela confirmou a prática de pressão por internação mesmo nos casos em que a equipe técnica não julgava necessário. O G1 procurou a Secretaria de Saúde, que recomendou que a reportagem buscasse informações com a SPDM. A SPDM admitiu que a Prefeitura pressionava os médicos para que os menores fossem internados, mas disse que se trata de uma "divergência técnica" de opinião. A entidade disse que, por apoiar os médicos, deixou a coordenação dos Caps Infantil e AD da Sé. O G1 voltou a procurar a secretaria, que não quis comentar. O promotor de Justiça Lélio Ferraz de Siqueira Neto, coordenador da área de menores do Ministério Público de São Paulo, afirma que a recomendação médica deve ser respeitada em casos de internação de menores. “Tem que prevalecer a ordem médica. A recomendação do Ministério Público é que esse tipo de internação seja ‘judicializada’, passe por um juiz, para ser legitimizada. Mas o juiz vai respeitar o critério médico”, explica. “Não conheço o doutor Raul, mas conheço o seu trabalho e o da Unifesp no Centro, é um trabalho que precisa ser respeitado. Perder esse instrumento é uma pena”, afirma. 'Varrição social' O programa Centro Legal foi lançado pela prefeitura em julho de 2009. Dados de fevereiro mostram que desde o início do projeto haviam sido feitas 50 mil abordagens no centro por 27 equipes e que 87% dos abordados recusaram tratamento ou conversa com agentes. No site da Prefeitura, uma nota diz que foram realizadas 170 internações de julho do ano passado até fevereiro último. Raul Gorayeb afirmou que a Guarda Civil Metropolitanal era quem recolhia os menores e levava para o Caps, quando a abordagem deveria ser feita pela Assistência Social. "A grande maioria das pessoas que usam drogas, sejam lícitas ou ilícitas, não tem problemas de saúde e nem precisa se tratar por causa disso. Há equivoco, às vezes, da autoridade de saúde e até de alguns profissionais. Então o que essa diretriz da política pública atual fez? Convocou a Guarda Civil para passar e recolher as pessoas que encontravam e quem se deixava apanhar era levada para o Caps.(...) E queria que a gente concordasse em internar em hospital psiquiátrico que eles fizeram convênio." O promotor público confirma que a abordagem dos menores não pode ser feita pela Guarda Civil Metropolitana. “A GCM não tem autorização para abordar essa crianças”, afirma Siqueira Ferraz. Na avaliação de Gorayeb, a prefeitura deveria privilegiar e fortalecer a Assistência Social. "O erro de querer interná-las está no fato de que para cuidar do problema eu não tenho que internar. Tenho que cativar confiança, levar para abrigo, ver se tem vínculos familiares que ele deseja ou possa retornar. Senão criar situação de lar substituto." Ele disse ainda que o Caps não pode ser usado como "quebra-galho da falência do sistema social". O psiquiatra afirmou que foi afastado da função justamente por diversas vezes se recusar a internar os menores. "Chegou num momento em que, como eu não estava colaborando no sentido de internar, fomos surpreendidos com a notícia de que estava afastado da coordenação do serviço e que eles iam colocar outra entidade. (...) Eu respeito hierarquia, mas como médico eu tenho a liberdade do discernimento ético. Se me mandar fazer uma coisa, como meu superior, que eu eticamente entendo que está errada, não sou obrigado a obedecer." Administração O cirurgião Mário Monteiro, da SPDM, responsável por coordenar o convênio entre a Unifesp e a Prefeitura, admitiu que existia pressão por internação, mas vê a situação como um "desencontro de diretrizes técnicas" entre a Unifesp e a coordenadoria de saúde. "O ponto de divergência na diretriz técnica era exatamente a internação de drogados e de crianças nessas duas unidades. Foram planejadas para unidades 24 horas e para serem como um equipamento de psiquiatria intermediária entre os que podem ter recuperação rápida e os que necessitam de observação. Nesse ponto é que houve divergência de opiniões técnicas. A secretaria de um lado querendo que alguns desses menores ficassem internados até a resolução do quadro e os médicos achando que não deveriam porque não haveria condições." Segundo Monteiro, a pressão foi crescente e, por conta disso, a SPDM decidiu suspender o convênio nos dois Caps da Sé. "A situação foi indo num crescendo, e a prefeitura tendo a pressão do caso Cracolândia, com todas as suas interfaces sociais. (...) E chegou num ponto que não dava mais para continuar (a parceria)." Mário Monteiro afirmou que a SPDM administra outros sete Caps e nunca teve problemas do tipo. "A Sé realmente é o olho do furacão". O médico disse que a decisão de deixar a administração dos dois Caps foi do Conselho Administrativo da SPDM após reclamação dos médicos. "Demos respaldo aos médicos, mas não brigamos com a prefeitura. Respeitamos a diretriz de política pública de saúde e o gestor de saúde é o gestor público. Entendemos que houve desencontro de questões técnicas, o que acho normal."

Confira a entrevista em vídeo no link: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/04/psiquiatra-afirma-sofrer-pressao-para-internar-menores-da-cracolandia.html

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13 comentários
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acredito que enquanto delegarmos à políticas, à serviços, à profissionais e etc o cuidado ao ser humano, vamos sempre nos colocar na posição do que se sente enganado, pois afinal, como é que nós podemos nos sentir sempre delegando a terceiros o cuidado com o mundo? acessar essas pessoas, sejam elas crianças ou adultos, é díficil e é sofrível, entrar em contato com elas só através da caridade e das políticas públicas é muito pouco e cômodo. Como anda a nossa mobilização para enfrentar aquilo que julgamos desumano? a questão é ampla, mas podmeos encontrar nossas entradas, mesmo não sendo profissionais ou delegados institucionais para lidar com a questão e com a vida.

 
 
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Jotaem

Digo: "após anos desse tipo de política"

 
 
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Jotaem

Nada como ler o depoimento de alguém que vive o inferno para começar a duvidar do "tratamento" defendido pelo politicamente correto. Estou cansado de, por um lado, ver crianças vivendo na rua, drogadas, se prostituindo e exploradas por adultos, e, por outro, ONG, psicólogos, etc. afirmando que devemos "convencer" essas crianças a procurar ajuda. Não tenho competência técnica para emitir uma opinão fundamentada, mas após desse tipo de política parece não restar dúvida que simplesmente não funcionou.

 
 
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Juliano

Palhaçada é essas crianças massacradas de todos os lados, que nunca tiveram real oportunidade na vida, que se afundam nas mais pesadas das drogas em plena infância, serem ainda vilanizadas. É muita coragem vir aqui e dizer que tem que passar o rodo mesmo. Vamos fazer o mesmo com os jovens de classe média e alta, que ateiam fogo em mendigos por curtição, que seduzem adolescentes nas escolas para o vício maldito. Vamos "limpar" a cidade desses desajustados de classe média. Vamos mandá-los para manicômios, já que os problemas emocionais deles os deixa descontrolados. Mas com o agravante de que esses tiveram e tem todas as oportunidades na vida, eles devem então ir para solitárias. Será que isso seria um escândalo? Os críticos do PNDH-3 bradarão agora pelos Direitos Humanos(mas não são direitos dos bandidos)?. O higienismo é uma espécie de eugenia envergonhada.

 
 
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Jura

Abaixo assinado em defesa do Dr. Gorayeb:

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/6100

 
 
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Ivan Moraes

Repito o que disse da primeira vez que o assunto apareceu: se ha "pressao" pra internar quem nao precisa, ha dinheiro trocando de mao. Quem estaria lucrando com internacao dos menores de rua?

 
 
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Jura

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/04/24/a-varricao-social-da-p...

 
 
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Jura

Essa notícia é velha e já foi postada aqui:

24/04/2010 08h12 - Atualizado em 24/04/2010 08h12

 
 
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Ferruccio

Truculência. Atitude típica do prefeito de São Paulo. Quer melhorar a vida dos mais ricos sem olhar o custo para os mais pobres. Exemplo: inspeção veicular.

Ótima e necessária. Quem tem carro novo, não precisa se preocupar. Os mais pobres, com carros mais velhos não passam na inspeção: têm que gastar dinheiro que não têm, ou jogar fora o carro. As oficinas estão abarrotadas de carros que não passaram na inspeção Carros que muitas vezes são usados para sustento da família.

Também fechar pequenos negócios que têm alguma pendência com a prefeitura colocando enormes blocos de concreto nas portas. Pessoas que não têm como se defender.

Haja insensibilidade social!

 
 
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Thadeu Melo

E no mundo da fantasia desses médicos e assistentes sociais as crianças devem ser livres para fazer as proprias escolhas, ou seja, os pais que se virem para cuidar de crianças "saudaveis" mas viciadas em crack e outras drogas.

Isso é palhaçada.

A Policia Municipal deve sim recolher essas crianças e leva-las para tratamento ou abrigo.

 
 
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soniapt

27 internaçoes, desculpe o erro.

 
 
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soniapt

soou mae de uma filha viciada em crak, e falo que nao adianta falar em tratamento ambulatorial para depedente que esta na rua, eles nao vao , minha filha esta na 26 7 internação, sai e volta correndinho para onde esta o crak , o periodo que ela ficou mais tempo sem usar foi quando esteve internada no manicomio judicial, e eles tem um tratamento no semi aberto, uma beleza, ela estava indo muito b em foi para mogi la nao tem cAPS para tratamento de dependente quimico, deu um tempinho faltou vender o piso da casa que reformamos, uma geladeira que ttinha pago 900 reais com dois meses de uso vendeu por 200, o carro vendeu por 400 reais, e agora esta na boca, hospital servidor, fica 15 dias quando nao aguenta mais andar vai para la , tratamento tem de ser longo e prolongado para que eles percam a memoria da droga e eu digo de boca cheia TENHO PHD DE dependencia quimica

 
 
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Cristiane S Carvalho

Cara, passo todos os dias na região da Luz, mais especificamente na Praça Julio Prestes e vejo dezenas de usuários, inclusive crianças, em situação de total abandono. Quando tem algum evento na Sala SP a polícia os empurra para longe dali para que os "incluídos" não sejam obrigados a por os olhos nos "excluídos" desse "des"governo. Triste e revoltante. E quando alguém quer tratar com responsabilidade o problema, é afastado. O usuário não é criminoso, é um excluído social e como tal deve ser tratado, não como lixo que deve ser varrido de vista para q a cidade fique bonita para alguns poucos.

 
 

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