A consolidação da aliança PT-PMDB

UM NOVO CAMPO POLÍTICO – Realizou-se ontem a Convenção Nacional do PMDB. Patente está que este partido está unido e coeso no propósito de manter e aprofundar a aliança em nível nacional sacramentada com o PT a partir de 2010. O vice presidente da república, Michel Temer, foi eleito novamente, e de forma unânime, presidente nacional da sigla e discursou defendendo a aliança que, segundo suas palavras, está fazendo bem ao PMDB e ao povo brasileiro.

A consolidação nacional da aliança PT-PMDB é um fato interessante da política nacional. São os dois maiores e mais representativos partidos políticos do país, possuem larga tradição de combate a ditadura, e larga tradição na disputa institucional do país. O PMDB chegou à década de 80 como o partido preferencial do povo brasileiro, rescaldo de suas lutas pela normalização democrática do país. Perdeu densidade programática justamente por ser uma frente guarda-chuva, que abrigava todos os espectros políticos dentro de si.

Sofreu com a estigmatização oriunda do governo de José Sarney, vice de Tancredo Neves que viu-se forçado pelas circunstâncias e contingências da política a assumir uma função que a história não lhe tinha reservado. Ali iniciou-se a pecha de partido fisiológico que ainda lhe rende desabonadoras reprimendas. O antigo ‘MDB’ posteriormente rendeu-se aos encantos da sereia neoliberal e foi um dos sustentáculos dos oito anos de fernandismo deslumbrado. Tanto isto é verdade que o partido chegou mesmo a ter a vice candidata à presidência da república (Rita Camata PMDB-ES) na chapa do então candidato José Serra em 2002.

Em meio ao turbilhão de transformações políticas, sociais, culturais e econômicas patrocinadas no país a partir da chegada de Lula à presidência em 2002, e com grandes resistências internas, o PMDB iniciou a sua maior travessia desde o início da Nova República em 1985. A nova travessia era justamente a de voltar ao seu leito original, ao leito da sua fundação no distante ano de 1965, quando mais de 2/3 de seus integrantes eram oriundos do PTB de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Essa espécie de reencontro com a plataforma original do partido veio com muita dor e com inúmeros sobressaltos, afinal de contas, não se despe um partido deste tamanho, inebriado por teses liberais, de uma hora para outra.

A confirmação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer aponta para a consolidação de um campo político poderoso no país. Este campo ainda comporta partidos como o PC do B e o PDT, também o PSB (pelo menos por enquanto) e abre caminho para uma futura coalisão de centro esquerda capaz de empreender mudanças já há muito tempo reclamadas pela população brasileira e que foram abruptamente interrompidas pela treva ditatorial. O campo antagônico, dos neoliberais, hoje é composto majoritariamente pela mídia oligopólica e pelos partidos oposicionistas como o PSDB, o DEM e o PPS.

Tem-se também algumas franjas à ‘esquerda’, como o PSOL, o PCB e o PSTU, que primam pelo sectarismo acima da análise concreta e objetiva dos fatos. Incorrem no mesmo mal que incorreram os militantes do antigo PCB das décadas de 40, 50 e 60. Nunca é demais lembrar, por exemplo, que tínhamos um segundo governo Vargas, a partir de 1951, acossado pela “grande mídia” da época, bem como pela UDN e por poderosíssimos interesses internacionais contrários ao desenvolvimento autônomo do país. Além disso, Vargas teve uma dura e ferrenha oposição da ‘esquerda’ da época, consubstanciada nas seguidas matérias veiculadas pelo jornal Imprensa Popular, ligado ao PCB e que, por essas ironias da história, trazia estampado como manchete principal em 24 de agosto de 1954 (dia do suicídio de Vargas) os seguintes dizeres: “Abaixo o Governo de Traição Nacional de Vargas”. Nem é preciso dizer que o povo em fúria empastelou o pasquim dos sectários…

A verdadeira oposição atual está concentrada nos meios oligopólios de informação e em setores importantes do poder judiciário e do ministério público. Sabendo disso, e sabendo também que a esquerda (PT, PC do B, PSB, PDT e PSOL) não tem sequer 1/3 dos votos no Congresso Nacional, impossível deixar de questionar se a aliança preferencial do PT com o PMDB, em nível nacional, é ou não necessária para potencializar os avanços civilizatórios reclamados pelo país. O certo é que os dois polos hegemônicos e antagônicos da política nacional, capitaneados por PT e PSDB desde 1994, experimentam agora uma substancial mudança na correlação de forças, predomínio importante para a coalisão liderada pelo PT.

Nenhuma outra figura do Partido dos Trabalhadores teria sobrevivido às agruras inerentes ao desafio de governar um país como o Brasil, num sistema eleitoral e partidário caótico como o que temos. Somente Lula, em função de sua trajetória e ímpar identificação popular seria capaz de sobreviver as intempéries (e sobreviveu). Lula empreendeu um governo de transição. Quando chegou ao poder executivo, em 2003, o mundo vivia o auge do neoliberalismo triunfante que não admitia contestações ao status quo então reinante. Muito em função do seu peso político individual, Lula teve de suportar as vicissitudes de remar contra a maré até que em 15 de setembro de 2008 o sistema neoliberal ruiu e abriram-se importantes perspectivas, em nível mundial, para a sua superação depois de longos 30 anos de predomínio ideológico indiscutível.

Dilma Rousseff não tem a força política de Lula (ninguém tem e na história do Brasil somente Getúlio Vargas teve tamanha força…), mas tem a seu favor o fato de que, diferente de seu antecessor, governa hoje com uma coalisão poderosa e bem encaixada, livre das amarras encontradas por Lula no início da travessia da longa noite neoliberal. É possível afirmar que a conjuntura está muito mais propícia nos dias de hoje para se empreender mudanças de fundo do que se verificava há menos de cinco anos. O principal fator de mudanças derivará da capacidade do polo capitaneado pelo PT aumentar a nitidez de seu programa, propondo soluções mais ousadas e libertas dos escombros da queda do muro de Wall Street.

A disputa principal dos movimentos sociais, sindicais e estudantis deve ser por construir uma plataforma coesa, de avanços democráticos que incluam o reavivar da questão fundiária, a democratização dos meios de comunicação e a consolidação do processo de inclusão social. As condições objetivas para o avanço nestes temas estão postas, nunca estiveram tão ao alcance da cidadania brasileira desde os tempos anteriores ao golpe de 64.

O PT tem que ousar mais, sair do ‘economês’ e propor reformas estruturais. É chegada a hora da grande política, dos grandes projetos de desenvolvimento nacionais. Aproveitar-se do deslocamento do pêndulo político e econômico que estão a vicejar pelo mundo é uma obrigação histórica do PT. E também é uma obrigação da coalisão situacionista deixar a política miúda, a mesquinharia e a pseudo pauta dos setores oposicionistas a ver navios!

Quem controla a pauta controla os rumos do país. É preciso consolidar a aliança dos partidos do campo popular e construir uma pauta progressista que dite os rumos do debate nacional daqui para a frente. Uma aliança que dite a pauta dos grandes temas nacionais e que não seja pautada e nem fique refém de temas menores, pré-fabricados e artificiais.

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